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Munduruku na ABL: a saga do neto do Apolinário

Munduruku na ABL: a saga do neto do Apolinário

“E mesmo que toda a gente / fique rindo, duvidando / destas estórias que narro / não me importo: vou contente / toscamente improvisando / na minha frauta de barro”. (Luiz Bacellar. 1963. Frauta de Barro)
Por José Ribamar Bessa Freire/TaQuiPraTi
Desculpem insistir, mas o bairro de Aparecida, em Manaus, testemunhou há mais de 60 anos eleição ocorrida nesta quinta (18) na Academia Brasileira de Letras (ABL), quando o escritor Daniel Munduruku, um dos candidatos à cadeira de número 12, ainda não era nascido. Os eleitores e os candidatos eram outros, mas o processo foi o mesmo. Por isso, a gente já previa o resultado final. O nosso bairro sabe muito bem que “Exu, o mais humano dos Orixás, matou um pássaro ontem com uma pedra que atirou hoje”.
Quando eu digo que tudo o que aconteceu ou acontecerá no mundo já teve como palco o bairro de Aparecida, há quem ache que estou inventando ou exagerando ou ainda subvertendo a noção de tempo. Duvidam da minha “frauta de Barro”, presente do poeta de Aparecida, Luiz Bacellar (1928-2021).  É um direito sagrado, a dúvida, que inunda o coração até da minha irmã caçula, mas não das mais velhas, que viram tudo e sabem tudo.
– Babá, deixa de ser mentiroso – me diz sempre Maria do Céu, que considera invenção inclusive a letra do “Tantum Ergo”, quando canto em latim, especialmente a parte que diz “procedenti ab utroque, compar sit laudatio”. Se a perdoo, é porque ela nunca me viu como coroinha nas novenas e nas bençãos do Santíssimo, cantando as duas últimas estrofes do “Pange língua gloriosi” e manipulando o turíbulo que jogava para os céus fumaça aromatizada com incenso.
Aos incrédulos, minha resposta é a mesma do cineasta Federico Fellini que, ao ser acusado de “farsante” e “mistificador”, retrucou:
– “Pode ser que eu seja mesmo, pois minha adesão à realidade é sempre subjetiva, emocional. Odeio cinema-verdade. Gosto mesmo é do cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante que a verdade, A ficção pode nos levar a uma verdade mais aguda que a realidade cotidiana e aparente”.
Estou certo de que Daniel Monteiro Costa, nascido na aldeia Munduruku de Jacareacanga, em 28 de fevereiro de 1964, ano bissexto, do signo de Peixes, mas educado em colégio salesiano, também turibulou e não inventa quando canta o “Tantum Ergo”.  
Resolvido o problema das invencionices, antes de entrarmos na ABL, peço permissão ao desocupado leitor para resumir os fatos ocorridos no bairro.
Houve fratura
esse%20sagaEm verdade em verdade vos digo, o recente pleito na ABL teve precedentes na eleição em maio de 1956 para a diretoria da Sociedade Atlética Guarda de Aparecida (SAGA), fundada naquele ano pelo padre redentorista estadunidense Cristovão Farrell, irmão do jogador de futebol americano Emmon Farrell. O padre acreditava piamente que o esporte atrairia os jovens para dentro da igreja e centrou as atividades da SAGA no basquete e no futebol de salão, mas só podia jogar quem assistisse a missa e comungasse.
Na primeira eleição para a diretoria se inscreveram duas chapas. Uma era encabeçada pelo Edir, assim em seco, sem apelido – o que é raríssimo no bairro. Ele era apenas Edir. Seus irmãos Quisso e Luizinho e a galera do futebol de salão eram seus cabos eleitorais: Baixote, Lebrea, Jofre, Marcílio Canguru, Biza e Walzenir Correa. A outra chapa, liderada pelo dono de uma boca enorme, conhecido como Newton Prepúcio vá lá saber o porquê, buscou apoio no time de basquete: Mimi, Toscano, Pucu, Wupinho, Veveco e Barroncas.  
A campanha foi acirrada. Newton Prepúcio possuía conhecimentos médicos, adquiridos na faculdade de medicina da UFRJ, que cursou durante dois anos e interrompeu por falta de grana para se manter no Rio. Mas o que aprendeu dava para o gasto. Quando às vésperas da eleição, em um jogo disputado, um adversário deu uma bicanca letal na canela do Baixote, que urrava de dor, Newton Prepúcio adentrou a quadra, examinou o jogador, deu massagens com andiroba e copaíba, olhou para as arquibancadas e diagnosticou solenemente com uma frase que ficaria na história e até hoje ecoa no bairro:
– Não houve fratura. Repetiu escandindo as sílabas: não hou-ve fra-tu-ra.
Essa frase fez com que ele ganhasse a eleição com uma diferença apertada, é verdade. Pesou também o fato de ele ter vivido no Rio, cidade que exerce ainda hoje fascínio nos amazonenses. Mas após os resultados do pleito, o bairro soube que houve sim fratura do osso da canela, deixando o Baixote várias semanas imobilizado, sem jogar. Tarde demais. Inês já estava morta.
Noves fora
esse%20apolin%C3%A1rioO que isso tem a ver com a eleição na ABL? – perguntará minha irmã caçula.
Eu sei, eu sei, Newton Prepúcio não tinha as qualidades de Paulo Niemeyer Filho, o neurocirurgião eleito. Além da competência no exercício da medicina, ele tem uma produção escrita relevante que, entre outras virtudes, coloca o saber médico tão sofisticado ao alcance de nós, mortais, razão que o faz merecer a cadeira dos imortais.
Eu sei, eu sei. Também Edir não era um índio que escrevia com a graça e o encanto de Daniel Munduruku, cuja candidatura foi apoiada por Chico Buarque, Alice Ruiz, Lygia Bojunga, Ruy Castro e mais de cem outros escritores e personalidade do mundo da cultura que, infelizmente, não votam, mas cuja opinião pesa. O colégio eleitoral da ABL é formado apenas por 40 “imortais”.
A recente eleição da atriz Fernanda Montenegro e do cantor Gilberto Gil criou a esperança de que, depois de 124 anos de existência, a Casa de Machado de Assis acolheria, enfim, o primeiro escritor indígena, cujo currículo é invejável: doutor em educação pela USP, com pós-doutorado em linguística pela Universidade Federal de São Carlos, teve seu livro “Meu avô Apolinário” premiado pela UNESCO, além de outros prêmios no Brasil e no exterior e edições em alemão, inglês, francês e espanhol.  
Indagado de onde tirou tantas histórias para escrever quase 60 livros, com mais de 5 milhões de exemplares vendidos, ele respondeu:
– Histórias moram dentro da gente, lá no fundo do coração. Elas ficam quietinhas num canto. Parecem um pouco com areia no fundo do rio: estão lá bem tranquilas e só deixam sua tranquilidade quando alguém as revolve. Aí elas se mostram.
Daniel Munduruku, que mexeu muito no fundo do coração e de lá retirou as histórias do seu avô, além das histórias que viveu e gosta de contar e outras tantas histórias de origem das coisas do universo, obteve 9 votos contra 25 dados ao médico Paulo Niemeyer. Alguém pode aplicar a prova dos nove e reduzir os votos a nada. No entanto, como os nove votos incinerados pelo presidente da ABL, Marco Lucchesi, estavam DENTRO da urna e do coração dos eleitores, valem as palavras do Edir quando perdeu a eleição:
– Nove, noves fora, nada. Mas nove, noves dentro, tudo.
É a primeira vez que um escritor indígena recebe apoio de um quarto dos membros da ABL. Sua entrada na Academia é questão de tempo. Ele receberá mais adesões. Lá, representará a literatura de qualidade produzida por autoras como Eliane Potiguara, Graça Graúna, Marcia Kambeba, Sandra Benites, Rosi Waikhon, Darlene Taukane, Zélia Balbina, Julie Dorrico e por autores:  Cristino Wapichana, Edson Kayapó, Tiago Hakly, Yaguaré Yamã, Ademário Payayá, Manuel Moura, Ely Macuxi, Olivio Jekupé, Denilson Baniwa e tantos outros. Como disse Daniel Munduruku:
– “A literatura indígena tem se mostrado um instrumento importante para que a sociedade brasileira reinvente um novo modo de se relacionar com a diversidade, ao mesmo tempo em que tem fortalecido a identidade dos povos indígenas”.
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P.S. A escritora e poeta Rosi Waikhon, ex-diretora da FOIRN – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – é a primeira mulher indígena daquela região a defender a tese de doutorado. A orientação e a banca não podiam ser melhor. Rosi participou em meados de setembro, no Canadá, do Arctic Amazon Symposium 2019 com um grupo de artistas representantes de povos originários do Brasil: o saudoso Jaider Esbell, Emerson Munduruku e Denilson Baniwa representaram a Amazônia. Ver sua entrevista: https://www.portogente.com.br/noticias/meio-ambiente/109201-entrevista-precisamos-da-amazonia-para-viver-diz-artista-indigena?
 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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