Nem todos! Art. 5o, caput, da CF/88/Constituição Federal/Igualdade

NEM TODOS!

NEM TODOS!

 “Todos são iguais perante a lei, 

sem distinção de qualquer natureza

” (Art. 5o, caput, da CF/88)

Por Fatima Guedes/Amazônia Real 

Entre as inúmeras questões [postas para 2026], cutuca-nos as intenções registradas na Constituição Federal/88 afirmando que as leis ali estabelecidas se aplicam a todas as categorias da sociedade independentemente de classe, raça, gênero, credo e serão cumpridas de forma igualitária. 

No entanto, não se pode perder de vista que as leis são instrumentos do Estado Democrático de Direito, criadas por representatividades que controlam e regulam direitos e deveres, conforme o perfil e condições socioeconômicas de cada cidadão/cidadã, conforme  Lenin: (O Estado e a Revolução – LENNIN, Vladimir I. SP, Hucitec, 1983):  “A afirmação da origem, função e aplicação da lei, como algo “comum” serve apenas para encobrir a dominação de classe e fazer da lei um mito ou dogma inquestionável”.

Problematizando-se a realidade, “direitos iguais” é pura máscara; é falseamento incontestável: o proclamado constitucionalmente encobre a dominação de classe e poder na elaboração das leis transformando-as em mecanismo das elites de controle sobre categorias e classes subalternalizadas.

A pauta em questão fluíra com base em comprovações vivenciadas referentes a situações de pessoas em condições desvalidas, condenadas a encarceramentos presidiais. 

Em 2017, sob apoio de Dr. Fábio César Olinto de Souza, na época, Juiz da 1aVara da Comarca de Parintins/Am, lancei-me ao desafio de conhecer de perto a realidade de condenadas/condenados ao presídio público de Parintins/Am., o que resultou na publicação da obra Algemas Silenciadas

Ao adentrar naquele espaço insalubre, o impacto mexera com padrões pessoais internalizados em minha psique; ao mesmo tempo trouxera-me reflexões, despertares fundamentais no sentido de decodificar razões do porquê, ali, naquele presídio, não visualizei privilegiados sociais. Somente desvalidos atufalhavam (enchiam demasiadamente, abarrotavam) os inóspitos espaços: todos e todas frutos de vulnerabilidades impostas a categorias periféricas; homens e mulheres afunilados expressando medos, vergonhas, dores, culpas, traumas, silêncios… 

Provocações a quebras de paradigmas discriminatórios experienciadas naquele presídio envolveram-me com filosofias de Osho (Bhagwam Shree Rajneesh, líder espiritual indiano): “É no pesadelo que os humanos despertam”. 

E assim se fez! 

Uma jovem condenada levanta a voz e me aponta o dedo: “Vocês que estão lá fora pensam que são livres! Pensam!… Vocês vivem algemados por patrões, por políticos, por maridos, namorados, padres, pastores e não percebem. Estamos na mesma condição”. 

O dedo indicador da jovem me permitiu ainda compreender as incoerências do Artigo 5o da CF/88 sobre “a igualdade entre todos”, haja vista que a predominância é a desigualdade de classe social. 

O indicador da jovem também me instigou trazer a público através de Algemas Silenciadas, realidades mascaradas de “ressocialização”, adormecidas, ignoradas e os porquês daquelas criaturas condenadas terminarem ali. 

Segundo a Legislação Brasileira, a Lei de Execução Penal no 7210/1984, assegura aos encarcerados direitos preservados: integridade física e moral, combate a maus-tratos; proteção contra abusos; assistência jurídica, acompanhamento de processos; benefícios; direito à saúde; atendimento médico regular; direito à educação e trabalho; programas educacionais; remição de pena; direito a visitas de familiares. 

Aos direitos assegurados na Lei em referência observa-se e comprova-se através de fatos e relatos, profundas contradições, quando parlamentares (deputados e senadores), gestores públicos, presidentes, chefes de estado usufruem de privilégios em casos de “condenações” por corrupções, abusos de poder pelo fato de ocuparem posições relevantes na pirâmide social. 

Em contrapartida, na base da pirâmide choros e ranger de dentes! É impossível aceitar e conviver passivamente com a farsa da igualdade de direitos registrada no Artigo 5o da CF. 

Quanta tortura o sistema prisional aplica a miseráveis sem voz e sem vez sob silêncios de poderes constituídos constitucionalmente!  

Que “programas educacionais”, que atenção psicológica o sistema oferece a encarceradxs – a maioria frutos, subprodutos de violências sistêmicas desconhecidas nas próprias sombras de condenados?

São questionamentos em afirmação ao que o essencial da cura e da libertação social se torna invisível aos olhos do legalismo institucional. Que respostas o Estado de Direito oferece às famílias dos 8 detentos mortos e aos outros 7 gravemente feridos no incêndio da penitenciária de Marília (SP) no último 25 de novembro? 

São inúmeras questões similares clamando por visibilização e justa intervenção para que o Artigo 5o se transforme e se efetive em Justiça Popular!… Impossível declarar “próspero ano-novo” com celebrações fantasiosas e, na contramão, negar a ética do Nazareno: “Felizes os que têm fome e sede de Justiça”. 

31Fátima Guedes – Educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Uma das fundadoras da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (ANEPS). Autora das obras literárias, Ensaio de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage e Organizadora do Dicionário – Falares Cabocos. Matéria publicada originalmente em: https://amazoniareal.com.br/nem-todos/. Capa: Raphael Alves/Acervo Tjam2013.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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