O retorno do El Niño em 2026 tem levantado preocupações ao redor do mundo
Embora seja um fenômeno natural, seus efeitos encontram um planeta ainda mais quente e marcado por profundas desigualdades sociais, raciais e territoriais. No Brasil, secas, enchentes, calor e incêndios atingem com mais intensidade as regiões e as populações mais vulneráveis.

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial, principalmente em suas porções central e leste. Ele corresponde à fase quente do El Niño–Oscilação Sul, o ENOS, sistema formado pela interação entre o oceano e a atmosfera. Embora tenha origem no Pacífico, é capaz de alterar a circulação dos ventos e a distribuição das chuvas em diferentes partes do planeta.
Durante o El Niño, os ventos alísios, que normalmente sopram de leste para oeste sobre o Pacífico equatorial, enfraquecem. Com isso, a água aquecida se espalha para o centro e o leste do oceano, deslocando também as áreas de formação de nuvens e chuva. A circulação de Walker, sistema de circulação atmosférica que organiza ventos, subida e descida do ar ao longo do Pacífico tropical, também enfraquece e se reorganiza.
O EL NIÑO 2026

Em junho de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, confirmou a formação do fenômeno. Em 31 de julho, o segundo boletim do Painel El Niño 2026–2027, coordenado por órgãos federais brasileiros, indicou 100% de probabilidade de permanência até pelo menos o início de 2027 e alta chance de um episódio muito forte entre a primavera e o começo do verão. A NOAA calculava 81% de chance de a categoria “muito forte” ser atingida entre outubro e dezembro.
O El Niño atual ocorre em um contexto climático muito mais quente do que há um século. Uma atmosfera mais quente tende a reter mais vapor d’água, o que pode favorecer períodos de chuvas intensas quando há umidade disponível. Ao mesmo tempo, temperaturas elevadas aceleram a evaporação, ressecam os solos e agravam secas, ondas de calor e incêndios.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas considera muito provável que a variabilidade das chuvas relacionada ao ENOS aumente significativamente na segunda metade deste século. Isso não quer dizer necessariamente que haverá mais episódios em todos os períodos, mas que suas consequências hidrológicas, como secas e precipitações extremas, podem se tornar mais intensas.
UM FENÔMENO SEM RELÓGIO
Os episódios de El Niño ocorrem, em média, a cada dois a sete anos e costumam durar de nove a doze meses, embora alguns persistam por mais tempo. Geralmente começam a se formar ao longo do ano, atingem o máximo entre o fim do ano e o início do seguinte e depois enfraquecem.
O nome surgiu entre pescadores da costa sul-americana, que perceberam o aparecimento periódico de águas mais quentes próximo ao Natal. A expressão espanhola El Niño fazia referência ao menino Jesus. Muito antes da existência de satélites, boias oceânicas e modelos computacionais, comunidades costeiras já observavam as mudanças no mar, na pesca e nas chuvas.
Hoje, milhares de instrumentos medem temperatura, ventos, pressão atmosférica e correntes oceânicas. Esse sistema permite antecipar riscos com meses de antecedência. Ainda assim, a ciência trabalha com probabilidades. Uma previsão sazonal não informa se choverá numa rua determinada em certo dia; indica se uma região tem maior ou menor chance de ficar acima ou abaixo de seu padrão climático.
O EL NIÑO NÃO É FRUTO DO AQUECIMENTO GLOBAL, MAS PODE AGRAVAR EVENTOS EXTREMOS
“O El Niño potencializa, mas o principal é o que vem do aquecimento global”, resume o meteorologista Gilvan Sampaio, em entrevista ao INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

A enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024 ocorreu durante a fase final do forte El Niño de 2023–2024. O fenômeno contribuiu para intensificar o transporte de umidade e manter frentes frias sobre o estado, mas não explica sozinho o desastre.
A combinação entre bloqueio atmosférico, Atlântico Sul aquecido, mudança climática, ocupação de áreas vulneráveis e falhas nos sistemas de proteção transformou a chuva extrema na maior tragédia climática da história gaúcha.
O “GOLPE DUPLO” E OS IMPACTOS DO EL NIÑO PELO MUNDO
As alterações iniciadas no Pacífico interferem na circulação atmosférica de todo o planeta. Em alguns lugares, o El Niño favorece secas; em outros, chuvas e tempestades. Pode afetar a produtividade agrícola, a geração de energia, a pesca, a navegação, o abastecimento de água, a biodiversidade e a ocorrência de doenças.
Os efeitos não são iguais em todos os episódios. Em geral, partes da América do Sul e do leste da África podem registrar chuvas acima da média, enquanto Austrália, Indonésia, sul da África e algumas regiões da Ásia enfrentam maior risco de seca. As temperaturas globais também tendem a subir temporariamente.
Durante o El Niño de 2023–2024, entre 40 milhões e 50 milhões de pessoas foram afetadas por emergências relacionadas a secas, enchentes e calor em 16 países, segundo a Organização Meteorológica Mundial. O período teve enchentes no leste da África, perdas agrícolas no sul do continente, calor extremo na Ásia, redução do nível do Canal do Panamá e seca histórica na Amazônia.
Esses desastres não podem ser atribuídos exclusivamente ao El Niño: conflitos, pobreza, ocupação territorial, degradação ambiental e aquecimento global participaram da construção dos danos.
Na América Latina, a combinação entre o fenômeno e a mudança climática foi descrita pela OMM como um “golpe duplo”. Em 2023, secas afetaram o Corredor Seco da América Central e o norte da América do Sul, enquanto chuvas e enchentes atingiram Peru e Equador. A alteração das águas prejudicou a pesca, e perdas agrícolas contribuíram para agravar a insegurança alimentar.
O DESASTRE NÃO NATURAL
Em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, o sociólogo Adilson Vieira chama o novo El Niño de aviso político, social e civilizatório. Sua tese evidencia que a seca pode ser climática, mas fome, sede, isolamento e morte evitável resultam da combinação entre desmatamento, queimadas, desigualdade, racismo ambiental e ausência de políticas públicas.
Tratar certas catástrofes como fatalidades ou apenas como fenômenos naturais exime os agentes responsáveis de responder por seus atos e omissões. Se o risco é conhecido, o território está mapeado e o alerta chega com meses ou anos de antecedência, agir somente depois do desastre é negligência climática.
RACISMO AMBIENTAL

Na Amazônia, essa negligência convive com um modelo de desenvolvimento que vê a região como fronteira de exploração, corredor logístico e estoque de recursos, enquanto comunidades permanecem sem água tratada, energia estável, saúde e transporte. Nas cidades, aparece quando obras valorizam áreas centrais, mas córregos periféricos seguem assoreados e favelas esperam décadas por urbanização.
O racismo ambiental significa que relações históricas de poder ajudaram a definir onde e como diferentes grupos vivem, a quais serviços têm acesso, quem participa do planejamento das cidades e quem é excluído, especialmente em contextos de valorização imobiliária. Essas desigualdades também determinam quem está mais exposto e quem tem menos condições de se proteger diante de fenômenos climáticos que, embora naturais, atingem territórios e populações de maneira profundamente desigual.
Em julho de 2024, uma análise baseada em dados do Cemaden identificou seca em 358 das 388 terras indígenas da Amazônia Legal, equivalente a 92% dos territórios. Dezessete estavam em seca extrema. A apuração também registrou 2,8 mil aldeias amazônicas sem estrutura de abastecimento de água.
“Os povos indígenas que mantêm as florestas é que estão sofrendo mais os impactos dos extremos”, afirma Francisca Arara, liderança indígena e secretária da Sepi no Acre.
No mesmo ano, a liderança indígena Miryam Tikuna, durante uma reportagem do Brasil de Fato, relatou o sofrimento de seu povo diante da seca extrema. “Estamos fervendo a água para poder beber. Algumas famílias fervem a água barrenta mesmo. Depois, colocam um pano para tirar o barro. Tem um cheiro muito forte. Temos que beber com o nariz fechado. Quando você está com sede, tem que beber assim mesmo. Não dá para esperar”, conta.

UM LAMENTÁVEL E POSSÍVEL RETRATO DO FUTURO
O El Niño de 2026 não é uma prévia literal de todos os anos que virão, mas ocorre num contexto que levanta preocupações. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas considera muito provável que a variabilidade das chuvas associada ao ENOS aumente de forma significativa na segunda metade deste século.

Em estudo publicado em 2022 na revista Nature Communications, Hosmay Lopez e colaboradores analisaram 16 modelos climáticos do CMIP6 e 30 simulações do CESM-LENS. Em um cenário de emissões muito altas, as projeções para o período de 2051 a 2100 indicam que os episódios de El Niño poderão se desenvolver mais rapidamente e persistir por mais tempo no Pacífico oriental, prolongando seu pico por cerca de dois a três meses.
Os autores também projetam efeitos mais intensos sobre a América do Sul, com aumento das chuvas no sudeste do continente e agravamento do calor e da redução das precipitações na bacia amazônica.
É nesse debate que aparece a expressão “El Niño semipermanente”, mencionada por Gilvan Sampaio ao descrever projeções de longo prazo. Portanto, o termo exige cuidado. É importante salientar que não se trata de um único evento com duração de décadas, mas de um estado médio do Pacífico com características semelhantes às do El Niño: aquecimento proporcionalmente maior no centro e no leste do oceano, menor contraste de temperatura entre leste e oeste e enfraquecimento da circulação de Walker.
Um estudo de 2024 publicado na Nature Communications analisou modelos climáticos com projeções até 2300. Sob um cenário de emissões muito altas e aquecimento persistente, parte das simulações caminhou, sobretudo depois de 2100, para esse estado médio semelhante ao El Niño. No cenário de forte redução das emissões, a perspectiva desapareceu. Outra pesquisa, publicada na Nature no mesmo ano, encontrou maior propensão ao desenvolvimento de El Niños extremos em um planeta mais quente.
A IMPORTÂNCIA DE SE DISCUTIR E IMPLEMENTAR PLANOS DE ADAPTAÇÃO CLIMÁTICA
O El Niño não chega sem aviso. As alterações no Pacífico são monitoradas durante meses, os modelos apontam tendências e os órgãos de meteorologia identificam as regiões mais expostas. A previsão, entretanto, não salva vidas sozinha. Entre o alerta científico e a proteção da população existe uma cadeia de decisões públicas e políticas.

Em junho, o Conselho Nacional do Meio Ambiente aprovou a Moção nº 146, cobrando atuação preventiva diante do El Niño. O texto recomenda comunicação acessível e territorializada para populações negras, periféricas e comunidades tradicionais; integração da Defesa Civil com planos comunitários; transparência orçamentária; recortes de raça e gênero; e o direito à permanência segura, sem tratar a remoção como primeira resposta.
Apesar disso, na prática, principalmente na ponta, a realidade é outra. Um estudo de Gabriela Di Giulio e colaboradores, publicado em 2025 na revista Sustainable Cities and Society, avaliou a capacidade adaptativa dos 5.569 municípios existentes em 2021 e constatou que apenas 1,4% alcançaram o nível mais elevado do Índice de Adaptação Urbana. Quando observados especificamente os instrumentos de gestão dos riscos climáticos, 65% das cidades obtiveram pontuação inferior a 0,2, numa escala de zero a um. Levantamento da Transparência Internacional – Brasil, realizado em 233 municípios, reforça o diagnóstico: somente 30 divulgavam um plano de adaptação, enquanto 179 não apresentavam plano nem metas climáticas no Plano Plurianual. Em 92,3% da amostra, também não havia registro de audiências ou consultas públicas sobre clima e defesa civil.
Um plano consequente precisa cruzar a ameaça climática com a exposição territorial e a vulnerabilidade social, considerando raça, etnia, renda, idade, pessoas com deficiência, qualidade da moradia e acesso aos serviços públicos.
Falar em adaptação climática, portanto, não pode significar apenas reagir a enchentes, secas, deslizamentos ou ondas de calor depois que os danos já ocorreram, nem restringir o planejamento aos grandes centros urbanos. Adaptar exige identificar previamente os territórios mais expostos, direcionar recursos públicos para reduzir riscos, garantir infraestrutura, moradia segura e acesso a serviços essenciais
O El Niño vai passar, assim como passou nos anos anteriores. O que não pode continuar acontecendo é a repetição de tragédias em territórios já conhecidos por suas vulnerabilidades ambientais e socioeconômicas.
Maria Letícia Marques – Graduanda em Ciência Política. Redatora da Revista Xapuri. Capa: Foto: Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA.









