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O lamento da Universidade e a oportunidade da COVID-19

O lamento da Universidade e a oportunidade da COVID-19

Por Altair Sales Barbosa

Eu sou a velha universidade brasileira, não no sentido restrito da cronologia. Aliás, com relação à idade, comparativamente sou até jovem. Sou velha nas estruturas, a osteoporose me corroeu paulatinamente de tal sorte, que mal consigo ficar em pé sozinha.

Na realidade, ninguém sabe ao certo a minha idade, uns dizem que nasci na Idade Média, outros que foi na Renascença, mas poucos se lembram de que já no século XI um árabe, Ibn Batuta, criou a Universidade do Niger em Timbuctu, para conhecer o mundo, os povos do mundo e a história do mundo.

Seja lá de onde eu venho, fui transplantada para o Brasil, sem levar em consideração as vocações desta terra. Hoje percebo que minha adaptação não foi boa e de longe deixei de cumprir minhas finalidades.

… No meu seio, existem os pseudoeducadores que enfraquecem a boa visão dos autênticos educadores. Existem também os arrogantes e falsos cientistas, que, por inveja e tantas críticas, inibem a criação de alguns poucos estudiosos e pensadores.

A grande maioria dos professores se encontra em posições cômodas; para essas pessoas, não é necessário mudar a rotina do dia a dia, que de tantos dias, vira rotina de décadas. Essa situação cria um comodismo tão grande e uma miopia extraordinária, que nem sequer permitem enxergar, e muito menos imaginar, que outro modelo de Universidade mais dinâmica e interdisciplinar é possível.

Agora vejam, eu que sou o Universo da Diversidade, que nasci para criar e inovar, constato hoje que, com raríssimas exceções, as últimas inovações e criações científicas e culturais não surgiram dentro de mim. Querem ver só alguns exemplos? O último tipo de adubo não surgiu na minha Escola de Agronomia, o último medicamento não surgiu na minha Escola de Farmácia, a última palavra em tecnologia não surgiu… etc. etc.

Isso ocorre porque me transformaram num grande Supermercado para vender ou distribuir “enlatados”; esta tem sido a minha maior função nos tempos de hoje.

As amarras em que me encontro nem sequer permitem que os meus agentes de boa vontade possam aprender a processar esses “enlatados”, ou seja, misturando ou relacionando uns com os outros, para produzir ao menos um “enlatado” novo.

O tipo de ensino que percorre as minhas veias é tão ultrapassado, que sinto pena dos meus professores e dos meus alunos, ambos bombardeados pelas incontáveis informações controvertidas e às vezes maldosas da multimídia.

O professor, coitado, sem novidade para ensinar, propicia que as salas de aulas se transformem em espaços vazios. Os alunos, mal começa o semestre, já ficam torcendo para este terminar.

É a concretização total do desequilíbrio. Quando penso nisso, choro baixinho para esconder minha vergonha.

As amarras não permitem a estimulação da pesquisa, que é o alicerce da criação. O pesquisador, aquele raro profissional que insiste em produzir sua própria comida, mesmo que seja num pequeno fogareiro, é sempre visto ou mal visto como algo estranho. Seus discursos e lamentos raramente encontram ressonância e, de tanto repetirem a mesma ladainha, muitos se acomodam. Sinto muita pena deles e classifico essa situação como “A Erosão do Potencial Humano”.

Muitos dizem que não estimulam ou desenvolvem a pesquisa, durante o espaço da aula, por falta de laboratório. No entanto, se o professor tiver domínio completo do assunto, com um pouco de criatividade e de materiais colhidos nos meus corredores, pode perfeitamente transformar sua sala de aula tradicional num laboratório, ou sair até os pátios e ruas e transformá-los em vários laboratórios. O importante nesta relação é o domínio do conhecimento, temperado com uma dose de criatividade. Mas nem isso o gesso no qual me jogaram permite.

Vejam o exemplo da situação atual, que estamos vivendo pós advento da Covid-19. O que fizeram meus dirigentes? Ao invés de enfrentarem o problema, empunhando a bandeira do conhecimento e da criatividade, eles se acovardaram, ordenaram que os alunos ficassem em suas casas e, acomodados dessa forma, receberiam através dos professores conteúdos via online.

Não pensem que a preocupação é a transmissão do conhecimento, pois não é. A preocupação é não perder o semestre. Os professores, coitados, muitos nem sabem manusear os programas de computador para usá-los adequadamente.

No entanto, se olharmos por outro viés, o advento da Covid-19 transformou nossa realidade num imenso laboratório. Portanto, se os dirigentes e professores fossem libertos de suas amarras e fossem treinados nos parâmetros da criatividade, tenho a certeza de que saberiam aproveitar esse período único para avançarem em seus conhecimentos, na busca por um modelo universitário mais eficaz e que percorresse o caminho da transdisciplinaridade.

Ao invés de ficarem em casa, curtindo a solidão e possivelmente uma futura depressão, os alunos, coordenados pelo conhecimento e pela criatividade, sairiam a campo. E, cada qual, dentro da sua especialidade, partiria   em busca do desconhecido.

Só para citar alguns exemplos, dentro do que nos permite o espaço jornalístico.  O curso de geografia delimitaria o espaço a ser pesquisado e através dos cartógrafos mapeariam as áreas com maior ou menor incidência do vírus, ou de infectados.

Outras áreas da própria ciência buscariam as relações entre temperatura, relevo, vegetação, incidência ou não de animais domésticos, e assim por diante. A outras áreas de conhecimento caberia a função de estabelecer outras relações, tais como econômicas, nutritivas, de salubridade e insalubridade. Quantos registros importantes poderiam ser feitos pelos comunicadores!

A biologia, a biomedicina, a bioquímica, a química, todas juntas estariam, por exemplo, coletando e trocando ideias sobre amostras do ar, do solo, das águas e de elementos bióticos em busca de evidências. As áreas da farmacologia poderiam estar testando as eficácias de centenas de plantas da nossa farmacopeia, conhecidas por séculos como possuidoras de componentes antivirais.

Os agrônomos e outros profissionais poderiam testar desinfetantes eficazes nas áreas mais afetadas, descritas pelos geógrafos. Os assistentes sociais, bem como os psicólogos e nutricionistas, estariam orientando os menos favorecidos, nas ações cotidianas, como comportamentos, atitudes e atividades bancárias, procedimentos alimentares etc.

E assim, nessa perspectiva, todos, incluindo mais uma vastidão, que compõem o meu quadro, estaríamos juntos cultivando um ideal e buscando o saber integrado ou a integração de saberes numa perspectiva global.

É claro que fica no ar uma pergunta sobre recursos e equipamentos. A resposta é simples, com competência e criatividade, isso não chega a constituir obstáculos para os que têm boa vontade. Os equipamentos de segurança e outros necessários, vocês têm a capacidade de fabricarem. Da mesma forma os recursos, que não são muitos, vocês sabem buscar.

Uma única ressalva, os habitantes da minha nova casa teriam que ser amantes do trabalho, apaixonados pelo que fazem, leais, éticos, dedicados e idealistas. Como Universidade que quer mudar, deixo em aberto o meu convite para os que querem construir esta nova casa.

O dia já está raiando, chegou a hora de trabalhar. Peço licença para descansar um pouquinho, enquanto se inicia a construção, porque para mim foi longa e penosa esta noite.

Ah! Antes que me adormeça, gostaria ainda de dizer que, nessa nova casa, não é proibido sonhar. Só se proíbe o pessimismo.

 

[authorbox authorid=”” title=”Sobre o Autor”]

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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