O RETRATO NACIONAL DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

O RETRATO NACIONAL DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

O RETRATO NACIONAL DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

O cenário registrado nas ruas brasileiras no início de dezembro reflete a tendência de agravamento da violência em todo o país. Dados oficiais e pesquisas consolidadas mostram crescimento persistente dos feminicídios, além do avanço de outras formas de agressão que antecedem os casos letais.

Por Guto Alves e Rose Silva  

Segundo o Anuário de Segurança Pública de 2024, o país registrou 1.463 feminicídios em 2023, maior número desde que o crime passou a ser contabilizado. O aumento foi de 6,1% em relação ao ano anterior. A maior parte das vítimas foi morta por parceiros ou ex-parceiros, dinâmica que se repete em todas as regiões.

Os números do Sinesp, plataforma do Ministério da Justiça, indicam que somente no primeiro semestre de 2024 ocorreram 739 feminicídios, com maior concentração no Centro-Oeste, seguido pelas regiões Norte e Nordeste. 

O Ministério das Mulheres aponta que, no mesmo período, houve crescimento de mais de 22% das denúncias ao Ligue 180, que recebe relatos de agressões, ameaças, perseguições e descumprimento de medidas protetivas.

A subnotificação agrava o cenário. Estudos da área de saúde estimam que cerca de 40% das mortes violentas de mulheres podem ser feminicídios não classificados como tal, especialmente nas periferias e áreas rurais. 

Dados reunidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a maior parte das mulheres assassinadas já havia sofrido violência anteriormente e buscado ajuda. O Ministério da Justiça confirma que 86% das vítimas tinham histórico prévio de agressões, muitas vezes já registradas.

A vulnerabilidade é reforçada pelo baixo acompanhamento das medidas protetivas. Em 2023, apenas 7% estavam vinculadas a monitoramento eletrônico do agressor, embora o número total de medidas tenha crescido. O mesmo levantamento aponta que muitos agressores tinham histórico de violência contra outras mulheres da família.

O DataSenado reforça a percepção da gravidade do quadro: 68% das mulheres afirmam conhecer ao menos uma vítima de violência doméstica, e 28% já sofreram agressões de parceiros ou ex-parceiros. A maioria considera que os casos são subnotificados e que mulheres negras e pobres têm menor acesso a atendimento especializado.

Esse conjunto de dados evidencia que a violência contra mulheres no Brasil não se limita aos casos extremos, mas a um ciclo contínuo de agressões, ameaças e vulnerabilidades, mais intenso nos territórios com menor presença do Estado.

guto alves Guto Alves – Jornalista

 

 

 

 

rose silvaRose Silva – Jornalista

 

 

 

Excerto de matéria publicada na Revista Focus Brasil, edição 219, dezembro 2025. Leia a matéria completa em: Fpabramo.org.br.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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