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Os Anos de Chumbo e os Peões da Fábrica

Os Anos de Chumbo e os Peões da Fábrica
 
Hoje, 31 de março, o 58º aniversário do golpe militar que em 1964,  a pretexto de combater o comunismo, instalou uma ditadura que perseguiu, prendeu, torturou e matou muitos brasileiros. Eu estava lá. Abaixo, um resumo do que vi e vivi naqueles dias sombrios.
 
Por João Rocha 
 
Quando se fala dos anos de chumbo, no período da ditadura militar, são mencionados políticos, intelectuais, jornalistas, estudantes e outros que merecem serem lembrados, mas pouco se diz  dos operários, peões de fábrica que foram  perseguidos pela ditadura. 
 
No dia 30 de março de 1964,  há 58  anos, participei de uma reunião no Conselho da Federação dos Metalúrgicos em  São Paulo.  No fim da tarde, retornei de trem para Campinas. Desembarquei e fui a pé para casa, pois morava próximo da Estação. Por estar cansado pela atividade do dia, não contatei ninguém e fui dormir cedo. Mal sabia que tinha sido desencadeado o golpe militar que iria mudar a minha vida, a de muitos brasileiros e o rumo da história do nosso país.
 
No outro dia, pela manhã fui para o Sindicato –  na rua  Dr. Quirino, 560 – Centro, onde funciona  até hoje. O prédio ainda estava em obras, os escritórios funcionavam provisoriamente nos fundos, numa construção de madeira.
 
Cumprimentei a secretária, fui até minha mesa e comecei a fazer o relatório da viagem. Meia hora depois, liguei o rádio e estranhei as marchas militares, os discursos de duas cadeias que tinham sido formadas. Estranhei, também, que até aquele momento não tinha chegado os demais diretores. Liguei para o presidente e ele disse para que eu saísse imediatamente do Sindicato, não fosse para casa, se possível saísse da cidade e aguardasse instruções. 
 
Foi aí que comecei a entender o que estava acontecendo. Fui para a rodoviária e embarquei em ônibus para uma cidade vizinha. No outro dia retornei a Campinas com o objetivo de pegar algumas roupas, alguns pertences e me desfazer de algum material que poderia ser considerado subversivo. Antes de chegar em casa, comentei a situação com um amigo, ele sugeriu que eu fosse para um sítio que o pai dele administrava em Pedreira – SP, como prevenção,  até as coisas clarearem. 
 
Aceitei imediatamente. No mesmo dia fomos  para Pedreira. Antes de sair foi difícil explicar pra minha mãe que iria ficar algum tempo fora de casa e não podia dizer pra onde eu iria.
 
O sítio ficava numa região alta a cerca de 1 km da estrada vicinal, era formado por um pomar, eucaliptal, uma área de pasto e tinha um pequeno lago.  Fiquei cera de dez dias nesse sítio. Durante esse período ocupava-me em caminhar pela área, pescar e às vezes assumia a cozinha na preparação do almoço. 
 
O homem de perna de bambu
 
De vez em quando, no final da tarde ia até uma venda que ficava na beira da estrada, próxima ao sítio. 
O proprietário era um senhor nordestino, falava alto, com forte sotaque, com o peito para a frente e a cabeça erguida.
 
O que chamava a tenção era que não tinha parte da perna direita na altura do joelho e tinha uma prótese de bambu. Em uma das pontas, acima do nó, foram feitos vários cortes, depois forçados para fora e ficava um alojamento onde ele colocava o joelho previamente protegido.  A base era um dos nós do pedaço de bambu.  
 
Havia uma televisão pequena branco e preto e sempre tinha alguém bebendo e assistindo TV. Eu tinha alguma informação sobre a situação e o desdobramento do golpe. 
 
Durante os dias que ia na venda notei que os frequentadores faziam comentários sobre a notícias. Era uma espécie de torcida, uns torciam para os militares e outros pros civis. Lembro-me que quando alguns políticos começaram a pedir asilo, o dono da venda comentou com um freguês: “a sua turma tá lavando o mio” O que dava para perceber que eles não tinham noção do estava acontecendo.
 
Depois de alguns dias frequentando a venda fiz  amizade com o dono  e alguns dos frequentadores. Eu me apresentei com o codinome Nelson e disse que estava passando férias em Pedreira.
 
Volta a Campinas
 
Eu  tinha mais contatos com os companheiros do Sindicato ou do Partido, pegava recados com uma pessoa encarregada de passar informações. Fui informado que haveria uma reunião e que eu devia comparecer. Na reunião foram nos passadas informações da situação em Campinas, os companheiros que tinham sido presos e que o Sindicato havia sido invadido e vasculhado. 
 
Para cada membro da reunião foi passada uma informação e orientação. Eu, mais dois metalúrgicos fomos aconselhados a não voltar para casa e foi acertado que ficaríamos, até segunda ordem, numa república de estudantes da PUC, no Edifício Aldo Pesagno, na rua Regente Feijó, número 1408, centro de Campinas. Alguns estudantes se deslocaram para outros lugares para que ocuparmos o espaço. 
 
O apartamento era confortável, tinha uma governanta que fazia a limpeza e preparava a comida. Havia um rádio, livros, revistas, um toca-discos. Não tinha televisão. Lembro-me que havia uma coleção de discos de músicas  clássicas, as quais ouvíamos como uma forma de distração, todos os dias. Eu peão de fábrica acabei me tornando adepto desse gênero de música. Foram dias de tensão e incertezas e noites mal dormidas.  
 
Durante três anos fiquei na clandestinidade usando o codinome de Silva trabalhando fora de Campinas sem registro.  Em 1967 consegui um trabalho registrado graças a intervenção de amigos da direção da empresa, ligados a uma organização política de esquerda.  
 
Quero homenagear os dirigentes sindicais da época, que em Campinas que foram perseguidos e presos:  Juracy Beck e Joel Paschoal, presidente e secretário do Sindicato dos Metalúrgicos, respectivamente;  Irineu Simionato (Sind. Alimentação); Pedro Simionato (Sindicato da construção civil);  Bertolinni (Sindicato da borracha); Moacir Salcedo (Sindicato dos vidreiros). 
 
Quero agradecer à direção do Partido Comunista Brasileiro – PCB, de Campinas, na pessoa de Anízio  Bertucci, que,  numa atitude altruísta (correndo riscos), permaneceu a postos, apoiando, orientando os trabalhadores  ativistas que corriam risco de serem presos pela ditadura.
 
João Rocha – Metalúrgico Aposentado
Caraguatatuba – SP – 31 de março de 2022
 
 
 
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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