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Os povos originários nos ensinam o Bem-Viver

Os povos originários nos ensinam o Bem-Viver

Nas tradições indígenas de Abya Yala, nome indígena para o nosso continente índio-americano, ao invés de “viver melhor” se fala em “bem-viver” e “bem com-viver”. Essas categorias entraram nas constituições da Bolívia e do Equador como objetivo social a ser perseguido pelo Estado e por toda a sociedade.

O “viver melhor” supõe uma ética do progresso ilimitado e nos incita a uma competição com os outros para criar mais e mais condições para isso. Entretanto, para que uma minoria possa “viver melhor”, milhões têm que viver mal. É a contradição capitalista.

O “bem-viver” andino visa a uma ética da suficiência e da decência para toda a comunidade, e não para o indivíduo, supõe uma visão holística e integradora do ser humano, inserido na grande comunidade terrenal que conta, além do ser humano, com o ar, a água, os solos, as montanhas, as árvores, e os animais.

A preocupação central não é acumular. A Mãe Terra nos fornece tudo do que precisamos. Nosso trabalho supre o que ela não pode nos dar ou a ajudamos a produzir o suficiente e decente para todos, também para os animais e as plantas. “Bem-viver” é estar em permanente harmonia e em equilíbrio com o todo.

O “bem-viver” nos convida a não consumir mais do que o ecossistema pode suportar, a evitar a produção de resíduos que não podem ser absorvidos com segurança pela natureza e nos incita a reutilizar e a reciclar tudo o que tivermos usado.  Será um consumo reciclável, sóbrio e frugal. E não haverá escassez.

Os povos originários se fazem nossos mestres e doutores. Povos humildes, mas profundamente arraigados ao chão da vida, respeitosos de todos os seres e sintonizados com cada sinal que a natureza dá. Eles nos apontam para um tipo de comportamento e de uma forma de viver que nos poderá devolver a alegria de ser e a esperança de que a tragédia que se anuncia se transforme numa crise que nos purifica e nos fará melhores.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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