PABLO NERUDA: “O PAI”

O pai

Pablo Neruda foi um importante poeta e escritor comunista. Chileno e defensor de uma América Latina justa, Neruda utilizava, para além de suas travessias no mundo lírico, da linguagem poética como veículo de expressividade política. 

neruda 1906

Neruda, 1906 –  Fonte:  Biblioteca Nacional do Chile 

Por Pablo Neruda

Terra de semente inculta e bravia, 
terra onde não há esteiros ou caminhos, 
sob o sol minha vida se alonga e estremece. 

Pai, nada podem teus olhos doces, 
como nada puderam as estrelas 
que me abrasam os olhos e as faces. 

Escureceu-me a vista o mal de amor 
e na doce fonte do meu sonho 
outra fonte tremida se reflecte. 

Depois… Pergunta a Deus porque me deram 
o que me deram e porque depois 
conheci a solidão do céu e da terra. 

Olha, minha juventude foi um puro 
botão que ficou por rebentar e perde 
a sua doçura de seiva e de sangue. 

O sol que cai e cai eternamente 
cansou-se de a beijar… E o outono. 
Pai, nada podem teus olhos doces. 

Escutarei de noite as tuas palavras: 
… menino, meu menino… 

E na noite imensa 
com as feridas de ambos seguirei. 

Fonte: Neruda, Pablo. Crepusculario. Andres Bello, 1999. Capa: Arquivo Histórico do Ministério de Relações Exteriores do Chile.

pablo neruda foto bbc

Fonte: BBC
 
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Pablo Neruda

Daniela Diana
Por Daniela Diana/Toda Matéria
 
Pablo Neruda foi um importante escritor e político chileno considerado um dos maiores poetas da literatura latino-americana e contemporânea mundial.

Neruda recebeu diversos prêmios, dos quais se destacam: o Prêmio Lênin da Paz (1953) e o Prêmio Nobel de Literatura (1971).
Segundo ele, fazer literatura:

É descrever o que se sente verdadeiramente, a cada instante da existência. Não acredito num sistema poético, numa organização poética. Irei mais longe: não creio nas escolas, nem no Simbolismo, nem no Realismo, nem no Surrealismo. Sou absolutamente desligado dos rótulos que se colocam nos produtos. Gosto dos produtos, não dos rótulos.

Biografia de Pablo Neruda

Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, nasceu em Parral, no Chile, dia 12 de julho de 1904.
Filho do operário José del Carmen Reyes Morales e da professora Rosa Basoalto Opazo, Neruda ficou órfão de mãe muito cedo, e seu pai casou-se novamente, momento em que sua família se mudou para Temuco, em 1906.
Nos estudos primários, já apontava grande interesse pela literatura publicando seus primeiros poemas no jornal “A Manhã”.
Cursou pedagogia na Universidade do Chile, em Santiago. Ainda jovem, adotou o pseudônimo Pablo Neruda, inspirado no escritor francês Paul Verlaine e o checo Jan Neruda.
Com apenas 19 anos publica seu primeiro livro de poemas “Crepusculário” (1923), o qual fora reconhecido no meio literário. Logo após, publicou uma de suas obras mais famosas “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” (1924).
Neruda foi um poeta muito apaixonado, casando-se três vezes. Primeiro, casou-se com a holandesa Maria Antonieta Hagenaar. Depois com a argentina Delia del Carril e, por fim, com a chilena Matilde Urrutia, com quem permaneceu até os últimos dias.
Além de seu interesse pela literatura, Neruda atuou como diplomata e político, sendo Cônsul-Geral do Chile na Birmânia, França e Espanha, além de embaixador do México de 1940 a 1942.
Pablo Neruda
Foi Cônsul da Espanha durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), momento em que escreve sua obra “Espanha no Coração. Hino às Glórias do Povo na Guerra”.
Durante suas viagens conheceu os escritores espanhóis Federico Garcia Lorca (morto na Guerra Civil Espanhola) e Rafael Alberti.
No Chile, foi eleito Senador pelo Partido Comunista, em 1945. No entanto, permaneceu até 1946, pois teve que viver escondido após a eleição de Gabriel González Videla, momento de censura e repressão no Chile.
Em 1950, publica “Canto Geral”, versos de cunho político em defesa da América Latina; e dois anos mais tarde, regressa ao Chile apoiando a candidatura de Salvador Allende.

Morte de Neruda

Neruda faleceu em 23 de setembro de 1973, em Santiago, no Chile, vítima de um câncer na próstata. Ele morreu 12 dias após o golpe militar de Pinochet, que derrubaria o governo de Allende.

Filme “O Carteiro e o Poeta

Filme o carteiro e o poeta
Cena do Filme “O carteiro e o poeta”
 

Em 1994, foi lançado o longa-metragem “O Carteiro e o Poeta” (Il Postino, em italiano), baseado na obra do escritor chileno Antonio Skármeta. Na obra, ele relata os momentos de Neruda e Matilde (sua terceira esposa) na Ilha Negra.
A casa em que viveram em Santiago foi construída em 1953 e ficou conhecida como “La Chascona”, a qual, mais tarde, se tornou um museu.

a casa de Pablo Neruda
La Chascona:a casa em que viveu Pablo Neruda em Santiago

Obras de Pablo Neruda

Pablo Neruda, possui uma vasta obra literária com mais de 40 livros, escritos entre 1923 e 1973. Sua obra é marcada por um grande teor de lirismo e humanismo das quais se destacam:

  • Crepusculário (1923)
  • Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Deseperada (1924)
  • Canto Geral (1950)
  • Odes elementares (1954)
  • Cem Sonetos de Amor (1959)
  • Memorial da Ilha Negra (1964)
  • Fim do Mundo (1969)
  • Confesso que vivi (1974)
  • O Rio Invisível (1980)
  • Obras Completas (1967)

Poemas de Pablo Neruda

Foto de Pablo Neruda
Segue abaixo dois poemas de Neruda, o primeiro publicado no livro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” e o segundo no “Canto Geral”:

Poema 1

Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
te parecem ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de campônio selvagem te escava
e faz saltar o filho do fundo desta terra.
Fui só como um túnel. De mim foram-se os pássaros
e em mim a noite entrava com sua invasão poderosa.
Para sobrevier-me te forjei como uma arma,
como uma flecha em meu arco, como uma pedra em minha funda.

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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