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Palavras Quentes

Palavras Quentes

Conscientizara-se. Até algum tempo atrás, sua mente queimava, seu corpo parecia febril, o coração fumegava. Agora não mais. Cumpriria seu destino. Entendera não poder se esquivar do legado deixado pelos seus, que não puderam escapar dos interesses gananciosos, nada defensáveis de forças muito poderosas com interesses escusos.

Por Evandro Valentim de Melo

A fim de protegê-lo, ainda criança, enviaram-no para longe de sua infância, de sua família… Porém, ao acordar,  nesta manhã, as lembranças se descortinaram. Seguiria de volta à terra natal.

O clima estava abafadiço, abrasador ao descer do ônibus. “Adeus ar condicionado” – pensou. Universitários o aguardavam. Seu sobrenome se antecipou à sua chegada.

Agregaria estudantes, ambientalistas, imprensa. A meta consistiria em inflamar a vontade da população local, contagiá-la, convidando-a a replantar milhares de árvores em substituição às recentemente vitimadas. Chamas criminosas; ações em troca de 30 moedas; incêndios criminosos negociados por vendedores que comercializam o que não lhes pertence.

Dias a fio a floresta incandesceu; troncos seculares tornaram-se brasa; animais foram carbonizados, mergulhados em lava de uma atmosfera vulcânica e causticante. A vida perdeu imenso tesouro.

Argumentos contrários a tamanha mostruosidade foram intensos e aqueceram corações. “Armas” às mãos, imenso contingente humano marchou rumo às matas, guiado por efervescente vontade de fazer o bem, de forma simples: plantar, plantar e plantar. As “armas” germinariam se bem cuidadas, e cuidados nãos lhes faltariam, se dependesse daquela população.

Sementes de andiroba, pará-pará, maçaranduba, cajuaçu, tatajuba, angico e tantas outras. Cada uma em um berço aberto no castigado solo para acolhê-las. Há muito o que fazer, mas ele se sentia bem. É incrível o quanto o ato de plantar árvores traz consigo o potencial de fazer as pessoas felizes. A floresta, agora, ganhou novos aliados. A vida agradece.

Nota do Autor: Conto inspirado pela canção (Ar) Árvores, interpretada por Zé Roraima. O Conto recebeu menção honrosa no IV Concurso Literário Internacional Palavradeiros, em 2019.


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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