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Para que ninguém se esqueça: “Há 33 anos caiu Josimo Tavares, alvejado pelas costas por um pistoleiro de aluguel”

Para que ninguém se esqueça: “Há 33 anos caiu Josimo Tavares, alvejado pelas costas por um pistoleiro de aluguel”

Para manter viva sua memória, voltamos a publicar os versos pungentes do poema de  Pedro Tierra, em homenagem ao mártir da luta pela terra no Bico do Papagaio.

A morte anunciada de Josimo Tavares

Por: Pedro Tierra

Há um dizer antigo
entre os homens da raça dos rios:
a morte, quando se anuncia,
devora a sombra do corpo
e inventa a luz da solidão.

Você se afastou sob o sol.

Era 14 de abril.
Busquei-lhe a sombra
sobre o chão da rua
e não havia sombra.

Ainda busquei tocá-lo.
Falamos da vida
e da morte
(a arma que me matará
já está na oficina…)
E você sorria manso
desde a defendida
solidão dos místicos.
Falamos da luta
e da necessidade de prosseguir
(os tecelões da morte
forçam os teares,
arrematam os fios
do tecido que te cobrirá…)

Incendiaram
nossas casas.
Destruíram plantações.
Saquearam celeiros.
Derrubaram cocais.
Envenenaram as águas.

Invadiram povoados.
Torturaram nossos pais.
Arrancaram as orelhas dos mortos.
Atiraram nos rios corpos mutilados.
Derrubaram a cruz que erguemos,
sinal aceso de nossa memória.

Cortaram a língua dos nossos irmãos.
Violaram nossas filhas.
Assassinaram inválidos.
Queimaram a sangue e fogo
a terra que trabalhamos.
(…)

Todos sabiam dessa morte.

A cerca do latifúndio sabia.
Os pistoleiros, os assalariados da morte,
a polícia fardada e paisana, o GETAT,
os garimpeiros, os bêbados, as prostitutas,
as professorinhas, as beatas,
as crianças brincando no areal da rua
sabiam.

Os homens da terra, os posseiros, os saqueados,
as mulheres alfabetizadas pela dor
e pela espera
sabiam.

O prefeito, o juiz, o delegado, a UDR,
os fazendeiros, os crápulas
sabiam.

As mãos dos assassinos
poliam as armas.

A igreja sabia
e esperava…

A haste orgulhosa do babaçu
sabia.
E dobrava as palmas num lamento
e multiplicava a ciência dessa morte,
os passarinhos, o relógio dos templos
mastigando o comboio da horas
e não se deteve, a água dos rios
não se deteve, fluindo irremediável
a hora dessa morte.

A pedra dos caminhos
sabia
e permaneceu muda,
o vento sabia
e anunciava seu gemido todavia indecifrável

Tuas sandálias sabiam
e continuaram a caminhar.

Eu, que nasci votado à alegria
e vivo a contar o rosário interminável
dos mortos
não fiz o verso,
espada de fúria,
que cindisse em dois
o comboio das horas
e descarrilasse o tempo de tua morte.

Você sabia.
E sorria
apenas.
Como quem se lava
para chegar vestido
de algodão
e transparência
à hora da solidão.

Quem é esse menino negro
que desafia limites?

Apenas um homem.
Sandálias surradas.
Paciência e indignação.
Riso alvo.
Mel noturno.
Sonho irrecusável.

Lutou contra cercas.
Todas as cercas.
As cercas do medo.
As cercas do ódio.
As cercas da terra.
As cercas da fome.
As cercas do corpo.
As cercas do latifúndio.

Trago na palma da mão
um punhado de terra
que te cobriu.
Está fresca.
É morena, mas ainda não é livre
como querias.

Sei aqui dentro
que não queres apenas lágrimas.
Tua terra sobre a mesa
me diz com seu silêncio agudo

– Meu sangue se
levantará
como um rio acorrentado
e romperá as cercas do mundo.
(…)

Goiânia, maio de 1986

 Pedro Tierra, poeta da liberdade

SOBRE A MORTE ANUNCIADA DE JOSIMO TAVARES 

Depois de 33 anos de sua morte anunciada – e consumada a mando do latifúndio –, Josimo de Morais Tavares, mártir da luta em defesa dos trabalhadores rurais sem terra da região conhecida como Bico do Papagaio, na divisa dos estados do Maranhão e (hoje) Tocantins, continua presente nos movimentos e conquistas da luta pela terra.

Em todo o Brasil, centenas de Acampamentos de Sem-Terra e Assentamentos da Reforma Agrária persistem na resistência sob o nome do padre católico, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Bico do Papagaio, assassinado no dia 10 de maio de 1986, enquanto subia as escadas do prédio da Mitra Diocesana de Imperatriz (MA), onde funcionava o escritório da CPT Araguaia-Tocantins.

Josimo foi assassinado aos 33 anos de idade (1963–1986), com dois disparos de uma pistola calibre 7,65 mm, pelo pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa, com a participação de Vilson Nunes Cardoso. Em seus últimos anos de vida, sofreu vários atentados. Com a morte anunciada, registrou seu “testamento” ante a Assembleia Diocesana de Tocantinópolis (MA), em 27 de abril de 1986, poucos dias antes da sua partida.

“… Estou empenhado na luta pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a seu favor?(…) Nem o medo me detém. É hora de assumir. (…) A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados e despejados de suas terras, deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar. É hora de se levantar e fazer a diferença. Morro por uma causa justa! Josimo de Morais Tavares


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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