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Pataxó: quando fogo e palavras se cruzam

Pataxó: quando fogo e palavras se cruzam

Pataxó: quando fogo e palavras se cruzam

“Pataxó é água da chuva batendo na terra, nas pedras, e indo embora para o rio e o mar”.  (Kanátyo Pataxó. Txopai e Itôhã. 1997)…

Por José Bessa Freire 

Sentado num lugar que a pudibundez me impede nomear, começo a fazer meu exercício cotidiano de Palavras Cruzadas – um brinde diário da Folha S. Paulo a seus assinantes. Dizem que essa atividade fortalece o cérebro e reduz o risco de doenças mentais. Funciona como uma academia de musculação não do corpo, mas da alma, ou melhor, da cognição. Da mesma forma que os exercícios físicos, é preciso que sejam frequentes e regulares para obter benefícios – aconselha um amigo, filho da dona Marina e do seu Tarcísio. 

Este pudibundo aqui que vos fala entra no “gabinete” com a edição da Folha de 30 de agosto sob o braço e, concomitantemente, vai fazendo o que tem de fazer, enquanto exercita neurônios e conexões com as cruzadinhas, iniciando pelas horizontais: 

Um objeto com que se desenha” com cinco letras. Testei “Pincel”, mas sobrou uma letra. Tento outra vez: LÁPIS. Acertei. Tirei de letra.  

Casa de Negócios mal-afamada é a seguinte, penso nas 51 casas e mansões do Coiso compradas com “rachadinhas”, mas ignoro o nome por causa do sigilo de cem anos. No entanto, na medida em que os quadradinhos em branco vão sendo preenchidos, brotam automaticamente letras para formar outras palavras. Com ajuda delas, vejo que a resposta certa é ARAPUCA.

 Ato completamente inoportuno”. Será que se refere ao grito imbecil do “imbrochável” e sua misoginia criminosa? Como nomear isso em quatro letras? Deixo em branco por enquanto. Interrompo para dar um chega-pra-lá na minha gata Leona, que desenrolava o rolo de papel higiênico. Ela mia, eu prossigo:

Cidade pernambucana próximo a Limoeiro: É fácil: CARPINA. Resolvi corretamente graças à visita que há anos fiz à Zona da Mata. Eu fui pra Limoeiro e gostei do forró de lá.  No caminho, passei por Carpina, onde assisti uma banda de pífano. Isso a gente nunca esquece.

Depois, algo que até minhas netas pequenas sabem: 

“(inglês) O compartimento do chuveiro” com três letras. Sentado onde estou, olho pro meu lado, vejo e escrevo: BOX.

“Sarcástica” com sete letras é comigo mesmo: IRÔNICA.

 

O FOGO DE 51

 No entanto, feitas as Horizontais, a coisa começa a feder nas palavras que foram se formando nas Verticais. Diante do comando: “Um indígena de tribo (sic) já extinta da BA e do ES”, apareceu PATAXÓ de forma assustadora.

Extintos? Como assim, se o Censo Demográfico 2010 do IBGE registra um total de 13.588 pessoas Pataxó? O Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (SIASI) da Funasa calcula a existência, em 2022, de mais de 15.000 Pataxó que vivem em 36 aldeias distribuídas em seis Terras Indígenas de quatro municípios da Bahia e em três de Minas Gerais. Por que o autor do jogo de Palavras Cruzadas da Folha extinguiu de uma canetada milhares de indígenas?

Desde o período colonial, muitas tentativas de extermínio ocorreram, como aquele mais recente que ficou conhecido como o Fogo de 51, ocorrido há 71 anos no Sul da Bahia. Todas as casas da aldeia de Barra Velha próxima a Porto Seguro foram incendiadas, seus moradores presos, torturados e chicoteados por tropas da Polícia, muitas mortes. Mulheres sangravam com talhos na cabeça. Os sobreviventes do massacre organizaram a resistência e a retomada das terras invadidas.

Esses Pataxó foram, então, reconhecidos formalmente na década de 1970. Hoje, apresentam várias formas de resistência, cantando e dançando o Awêcom coreografia diversificada. Inspirados nos “Jogos Indígenas Nacionais” criaram edições anuais dos “Jogos Indígenas Pataxó”, com diferentes modalidades esportivas e culturais, cujo lema é “celebrar e não competir”:  futebol, corrida de tora e maracá, arremesso de tacape, arco e flecha e outras. Festejaram várias conquistas relacionadas à terra, escola, língua.

 

OS FANTASMAS

 A língua da família linguística Maxakali, do tronco Macro-Jê, que estava anêmica, foi repescada e revitalizada. O Patxohã – “Língua de Guerreiro” – passou a ser usado desde a década de 1990 na Escola Indígena de Barra Velha, junto com os cânticos, as danças e os rituais, assim como em escolas de outras aldeias, cujo número cresceu, graças à retomada de parcelas do seu território tradicional. Embora ainda não tenha ocorrido a regularização fundiária de todas as terras, em cada aldeia funciona uma escola.  

Uma professora, a Mestra Japira Pataxó, em fevereiro deste ano recebeu da Universidade Federal de Minas Gerais o título de doutora por notório saber. Com quatro colegas, fiz parte da banca de doutorado de Japira Pataxó, líder política, xamã, curadora, condutora de cantos e danças, contadora de histórias de seu povo e autora do livro Saberes das terras Pataxó: da Beira Mar à Mata Atlântica”. Folha, com as Palavras Cruzadas exterminadoras, foi mais eficaz que os massacres coloniais e o Fogo de 51, ao garantir que Mestra Japira não existe.

Mas ela está viva. Seu neto Vitor Braz, de 22 anos, é que foi assassinado a tiros em Porto Seguro, em março. O autor dos disparos foi identificado e diz-que a polícia começou a procurá-lo. Um mês depois, Iris Braz, 44 anos, tio de Vitor, foi baleado e morreu. A mídia, extremamente chorosa com a morte da Rainha Elizabeth, 96 anos, minimizou todas essas mortes Pataxó. Não se trata de “algumas” mortes, mas de um genocídio em curso.

Não foram atos isolados. O pataxó Gustavo da Silva, adolescente de 14 anos, foi morto a tiros no último domingo (4), três dias antes da comemoração do bicentenário da Independência. “Independência pra eles, morte para nós” – escreveu em sua coluna da Folha Txai Surui, cuja terra indígena se chama ironicamente “Sete de Setembro”. Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) denunciou pistoleiros que cometeram o crime com armas calibre 12, 32, fuzil ponto 40 e bomba de gás lacrimogêneo.

Os caciques Pataxó igualmente exigiram a identificação e criminalização dos “assassinos de nossos parentes, os agentes locais que operam na propagação de mentiras e fake news para dar suporte e justificar a violência”. Eles informaram que “os autores dos disparos, que já chegaram ao local em um Fiat Uno, permanecem na região, ameaçando lideranças indígenas”.

 

DESCRUZANDO AS PALAVRAS

 Se Gustavo, Vitor e tantos outros Pataxó estavam extintos, então não houve crime. Ninguém pode matar quem não existe. Na verdade, o Pataxó de 14 anos foi morto duas vezes: pela bala de fogo e pela palavra cruzada, que tem o poder de fixar preconceitos.

O jogo de Palavras Cruzadas me foi apresentado no então Curso Primário do Colégio Aparecida, não lembro mais se pela irmã Dolores, no 1º ano C, ou pela irmã Paula, no 2º ano. Seu uso em sala de aula como suporte pedagógico e lúdico estimula o pensamento, a linguagem, a ortografia, a memória, e desperta a curiosidade, o que facilita a construção do conhecimento. Desde criança, tomei gosto pela coisa.

Há alguns anos, retomei os exercícios diários, prática reforçada quase em tom de brincadeira – ele é um gozador – em uma conversa com o médico José Augusto Messias, professor titular na área de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ, ex-presidente da Associação de Gastroenterologia do Rio de Janeiro e membro da Academia Nacional de Medicina, quando apresentou a memória “Câncer gástrico: entre o desejo e a realidade”.

Nesses tempos de negacionismo, vale lembrar que ele é membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da New York Academy of Sciencesda American Association for the Advancement of Science, da National Geographic Society e fundador da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva. No entanto, sua maior titulação é ser filho da dona Marina e do seu Tarcísio, o que confere um peso imensurável às suas palavras, que não são cruzadas. 

Folha nos oferece uma ocasião para pensar na responsabilidade que palavras, dicionários, livros, jogos de entretenimento e lazer têm de estabelecer “verdades”, que contradizem a ciência e a história e acabam circulando no senso comum. Os Pataxó estão vivos.

Quando terminei o jogo das cruzadinhas, fiz o contrário do Rei Charles III: levantei-me do trono. Indignado, rasguei o fogo cruzado da Folha e puxei a descarga.

José Bessa Freire – Escritor, membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri,

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https://xapuri.info/dor-nao-passa-enquanto-existir-ameaca/

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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