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Paulo Lima deixa legado para educação e inclusão digital na Amazônia

Paulo Lima deixa legado para educação e inclusão digital em comunidades da Amazônia

Aos 56 anos, o historiador, jornalista, professor e coordenador do Projeto Saúde e Alegria faleceu vítima de um infarto fulminante. Com uma enorme trajetória de luta pela defesa dos direitos humanos e pela garantia de acesso à internet em regiões isoladas da floresta, Plima, como era carinhosamente chamado, deixa legado para o mundo. Essa matéria é uma homenagem do Projeto Saúde e Alegria para o eterno São Nunca do PSA. Entenda;

Por Projeto Saúde e Alegria 

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Em meados dos anos 2000, Paulo Lima chegou à Amazônia, com o desejo de contribuir para a vida de populações ribeirinhas. Era um sonho particular, poder diminuir as gigantescas diferenças sociais para quem mora distante dos centros urbanos. Do campo da Inclusão Digital desde o fim da década de 1980, Plima acumulava passagens pelo Ibase / Alternex, Secretaria Executiva da Rede de Informações para o Terceiro Setor (RITS) e, desde 2007 atuava na Coordenação de Inclusão Digital do Projeto Saúde e Alegria.

“Em nossa região implantamos cerca de 40 Telecentros Culturais (desde 2001, quando estava ainda na Rits) e hoje atuamos regionalmente com o Projeto da Escola de Redes Comunitárias da Amazônia, com 7 organizações do Acre, Pará e Amazonas. Estamos também coordenando ações de Telemedicina nos municípios de Santarém, Aveiro e Belterra. Temos muito interesse em contribuir no Conselho do FUST que vimos nascer lá em 2000 e que tanto lutamos para que fosse enfim aplicado para o que foi pensado”, escreveu o próprio, há menos de uma semana sobre sua trajetória.

Paulo Lima, historiador e Mestre em Recursos Naturais da Amazônia, era um apaixonado pela arte de ensinar. Atuava há treze anos como professor no Iespes, onde lecionava para os cursos de direito e jornalismo. Contribuiu com a formação de muitos profissionais, dentre eles, esta jornalista que tem a difícil missão de escrever essa matéria. “Era uma pessoa generosa, um ser humano incrível e de uma sensibilidade fora do comum. Como colegas de trabalho no Projeto Saúde e Alegria e no IESPES, fui privilegiada de poder aprender com ele que tinha uma capacidade de conduzir processos, muitas vezes complexos, com maestria e humanidade”, conta Samela Bonfim, jornalista e professora, que teve Paulo como orientador na graduação e especialização.

Paulo, que foi consultor da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), era também especialista em avaliação e gestão de projetos sociais. Com experiência na área de História, Sociologia Rural, Ciências Ambientais, Ciência Política, Redes Comunitárias e Comunicação Social, atuava com comunidades tradicionais, Amazônia, sociedade da informação, comunicação alternativa, história, sociedade civil e movimentos sociais.

Estava animado com um novo projeto de inclusão digital que havia iniciado recentemente, o Conexão dos Povos da Floresta, dos Mundurukus ao baixo Tapajós, que levaria conexão de internet para populações indígenas e ribeirinhas da floresta. Na última quinta-feira 13/04, realizou testes com as primeiras antenas e muito entusiasmado, chamou a equipe do Projeto de Redes Comunitários, a qual coordenava para compartilhar o sucesso da experiência. “Foi curioso porque ele me chamou na sala, explicou todos os detalhes e fez até uma retrospectiva da sua trajetória na Amazônia. Algo incomum. Parece que ele estava fazendo uma despedida”, relatou Sabrina Costa, gerente de projetos.

A notícia da morte sensibilizou a todos que conviviam com ele. Estava bem, em casa, quando sofreu o infarto. Para o coordenador geral do PSA, Caetano Scannavino, um baque: “Uma pessoa do bem, generosa, de boas energias, vinte anos trabalhando juntos para levar mais saúde e alegria. Nos deixou para poder levar essa energia boa para o universo a fora. A gente sabe a dor e saudade, mas a gente tem que respeitar essas decisões de vida e morte que cabem aos deuses. Que essa dor dos que ficam, nos nutra de um legado de um exemplo de um ser que deixa coisas muito boas. Eu agradeço pela oportunidade, privilégio e prêmio ter nos colocado juntos”.

De sorriso fácil, era um defensor dos direitos humanos e da equidade. Buscava nos projetos executados por ele, garantir participação social e valorizar os anseios das comunidades beneficiárias. Era querido em todos os lugares que passava. Quando chegava nos territórios, o chamavam de São Nunca. “Sempre alegre e brincalhão, com nosso outro camarada, o Magnólio, que também se foi, ganhou logo o apelido de São Nunca, por causa da aparência com um personagem de uma propaganda na TV, que brincava com o dia que as pessoas conseguiriam realizar um sonho, Quando Magnólio perguntava no circo: qual dia vai chegar internet nas comunidades? Só no dia de São Nunca! E eis que você aparecia com a careca reluzente trazendo a boa notícia, o São Nunca chegou hehe”, escreveu o coordenador do PSA, Fabio Pena, que conheceu Plima em 2007 nas comunidades do Tapajós.

Nas muitas atribuições do coordenador de instituição do terceiro setor, a de resolver questões burocráticas e institucionais, uma missão partilhada com a coordenadora Administrativa do PSA, Adriana Pontes, que lamentou a morte. “Perdi um amigo e colega de trabalho. Uma pessoa generosa, que antes de profissional, era um ser humano incrível! Estávamos ali todos os dias na batalha diária no comando da nave PSA. Ele era o meu “guru”, que diante de qualquer problema, sempre me ouvia, me aconselhava e era tão leve como ele me ajudava a resolver. Era acolhedor, conciliador, justo, puro coração, mediador, muito educado, inteligente e amigo”.

Um adeus doloroso para o fundador do PSA, Eugênio Scannavino, que partilhou duas décadas ao lado do mediador – pois assim era conhecido na ONG. “Um companheiro, um amigo de todas as horas. A gente sempre fez tudo junto. Vinte anos de convivência. Um cara equilibrado, carinhoso, empático, simpático, mediador. Para qualquer pessoa que tivesse uma questão, ele era o ouvidor. Emocionante. Foi uma honra ter tido ele nas nossas vidas”.Plima 6

A partida gerou muita comoção. Muitas instituições parceiras, entidades, amigos, familiares e comunitários fizeram questão de deixar sua mensagem. Confira abaixo alguns dos muitos depoimentos compartilhados nas redes do Projeto Saúde e Alegria, do Paulo e encaminhadas aos colegas de trabalho:

Gostaríamos de expressar nossas sinceras condolências a todos. O nome de Paulo Lima estava firmemente ligado ao trabalho e à excelência do Saúde e Alegria” – DW Akademie.

“Profundo pesar pelo falecimento do senhor Paulo Lima, professor e integrante do grupo que projetou o curso de direito do IESPES e coordenador do Projeto Saúde e Alegria, ONG que atua na Amazônia com saúde, desenvolvimento econômico, educação e defesa do meio ambiente com alegria e bom humor. Nessa oportunidade, a Ordem Santarena presta solidariedade aos familiares e amigos, pedindo a Deus que lhes conforte neste momento de dor” – OAB Santarém.

“Deixou para nós uma lição: nada pode nos distrair e nos tirar a alegria de alimentar o carinho pelas amizades que fizemos pelos caminhos que ousamos trilhar. Estamos gratos e estarrecidos! As articulações que fizemos seguirão com a força do que você compartilhou”, Beatriz Tibiriçá.

“Muito triste. Vamos continuar firme e forte na luta. Mesmo que o nosso amigo se foi, nós vamos dar continuidade ao trabalho dele. Fazer o sonho dele se realizar” – Edvaldo Poxo Munduruku.

“A Fundação Esperança vem a público externar o mais profundo sentimento de pesar pelo falecimento do nosso professor Paulo Henrique Lima, cuja atuação no Iespes iniciou no ano de 2010, garantindo o fortalecimento da nossa missão de transformar vidas na Amazônia, por meio da formação acadêmica. Professor Paulo marcou a nossa história, atuando mais recentemente nos cursos de jornalismo e direito. Ficam a nossa gratidão e o nosso reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Fundação Esperança”.

“Agora nossas memórias e lembranças precisarão trabalhar a nosso favor, é preciso manter viva a gargalhada, a perspicácia, a genialidade, a generosidade em compartilhar do afeto à inteligência, a prestatividade, sempre pronto pra nos receber com carinho e um bocado de ideias importantes para a construção de ferramentas pra realização de nossos sonhos coletivos” – Rayanna Dolores. 

“O legado de Paulo pra comunicação comunitária é de resiliência e amor. Um abraço forte e muita saúde para sua família e pra todos do Saúde e Alegria. Nossos mais profundos sentimentos” – Oana Castro.

“Assim como todos que tiveram o privilégio de compartilhar da sua jornada com o povo ribeirinho, agradecemos por todo o legado deixado por ele para o povo da Amazônia. Especialmente para a juventude” – Khris Benttes – Sucuacá. 

“Paulo como um grande professor, me incentivou na escolha da minha profissão. Paulo foi um grande profissional, que passou o amor pela comunicação para muitos jovens aqui no baixo Tapajós” – Priscila Tapajoara. 

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“Um amigo. Ele ingressou em 2009 no curso de jornalismo do IESPES. E nesses anos todos as contribuições do professor Paulo Lima, deixa um legado na vida dos profissionais. Ele tinha sabedoria de conduzir os trabalhos de uma visão histórico-crítica do contexto que é uma necessidade muito grande pra quem vai exercer a profissão na comunicação” – Milton Mauer, professor do IESPES.

“É um momento de tristeza. Ele era uma figura que cativava, era um cara inteligente, de boa conversa, flamenguista. Um cara de bem. Na criação do IHGTAP ele participou das reuniões, sempre era um cara bem humorado” – Cristóvão Sena. 

“Tive a oportunidade de ser aluna dele e colega de trabalho. Paulo sempre foi uma pessoa de referência, com quem sabia que ia ouvir as melhores palavras e opiniões. Essa é uma lição que a convivência com ele nos deixa. A necessidade de termos serenidade nas discussões, de nunca elevar a voz. O Paulo tinha competência grandiosa e sempre mantendo a calma, a serenidade, a humildade. Ele marca a vida de muitas pessoas” – Rosa Rodrigues. 

“A Sapopema lamenta a morte precoce de Paulo Lima, coordenador do Projeto Saúde e Alegria e se solidariza com a família e amigos de nosso companheiro de várias batalhas em defesa dos rios e da floresta amazônica. Há mais de vinte anos, Paulo veio para a Amazônia e contribuiu muito com a inclusão digital, com a formação de jovens comunicadores e fortaleceu projetos de apoio às áreas ribeirinhas” – Sapopema.

“Agradecemos ao Paulo pelas muitas oportunidades que nos proporcionou de aprendizagem e parceria. Nosso abraço fraterno a família e amigos” – TNC.

O Projeto Saúde e Alegria agradece por toda a dedicação e empenho nesses anos e manifesta à sua família, amigas e amigos, sinceros sentimentos.

Nota da Redação: Neste momento de dor e tristeza, enviamos nosso abraço solidário à família biológica e à família Saúde e Alegria do companheiro Paulo Lima. Paz e Bem. 


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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