Procura
Fechar esta caixa de pesquisa.
Título

Peregrinos do Alvorecer: Como foi sua chegada aos chapadões centrais do Brasil

A chegada dos Peregrinos do Alvorecer aos jardins das plantas tortas nos chapadões centrais do

Por volta de 12.000 A.P., muitas das paisagens que hoje caracterizam o Continente Americano, e a América do Sul em particular, ainda não existiam na forma que existem atualmente.

O planeta Terra vivia o final da glaciação Pleistocênica. Havia muita turbulência. As correntes oceânicas possuíam raios de abrangência diferentes dos atuais, refletiam de forma decisiva nas correntes atmosféricas que, aos poucos, foram modelando as paisagens continentais, consolidando alguns e modificando drasticamente outros. Era a aurora de uma nova era geológica conhecida como o Holoceno.

O planeta estava se aquecendo. As geleiras do Ártico despencavam em blocos sobre o mar ou provocavam sulcos medonhos no interior dos continentes pelas correntes das águas derretidas.  O nível do mar estava subindo e tomando lentamente as partes expostas do que hoje constituem as plataformas continentais. Com isso, a mecânica dos rios foi mudando, transformando-os em cursos d´água menos velozes e mais largos, brindando oportunidades para a formação de planícies de inundação e lagoas marginais.

A temperatura, entretanto, era mais baixa que os padrões atuais. Os ventos de junho e julho provocavam as friagens na parte central da América do Sul, um fenômeno tão forte que causava muitas mudanças de comportamento na fauna nativa.

Por falar em fauna nativa, nessa época ainda existiam, nos chapadões centrais da América do Sul, elefantes, conhecidos como Haplomastodon; , conhecidas como Eremotherium; tatus gigantes, conhecidos como Gliptodontes; e tantos outros gigantes que compunham a megafauna da América do Sul. Perseguindo esses animais, existia um grande carniceiro, oriundo da América do Norte, conhecido pelo nome popular de tigre-dentes-de-sabre, grande felino do gênero Smilodon. Uma fauna de médio e pequeno porte partilhava seus nichos e ecossistemas. Alguns desses animais de médio e pequeno porte conseguiram viver até os dias atuais.

O , com seus diversos ambientes, já existia em toda a sua plenitude e servia de acolhida, como uma manjedoura, para toda a diversidade da fauna, desde os mamíferos até os pequenos insetos polinizadores. Foi nesse cenário que os primeiros seres humanos chegaram ao interior da América do Sul.

Tratava-se de um grupo pequeno, composto de quatro a cinco famílias nucleares, tendo, ao todo, de dezoito a vinte pessoas, incluindo crianças. Pelo que se conhece acerca do comportamento de grupos caçadores e coletores, essa população chegou ao alvorecer. Certamente veio verediando pelo alcantilado de alguma serra, atraída pelo aroma adocicado dos cajuís.

A claridade já permitia a visão de um céu azulado e uma brisa temperada tal qual um manto de algodão que cobria de calor aqueles corpos maquiados com cinzas. Enquanto o sol ia irradiando seu clarão, aquela gente pôde enxergar um pequeno córrego de águas límpidas. Mais ao longe se descortinavam as brumas brancas de uma pequena cachoeira. Bem próximo, uma lagoa e, mais distante, um rio de águas correntes parecia indicar que ainda existiam outros caminhos.

Aqueles humanos sentiam-se quase que alucinados diante de tal abundância. Ao olharem mais adiante, avistavam a testa esbranquiçada de um paredão de arenito. Sua intuição os conduziu ao local. Ali, encontraram vários abrigos naturais. Nos taludes desses, mais embaixo, sempre havia uma mina d´água de excelente qualidade. Talvez o sonho do paraíso estivesse naquele momento se concretizando. O local foi batizado pelo nome Jardins das Plantas Tortas, e assim tornou-se conhecido.

Os homens daquele grupo acamparam no abrigo. Providenciaram uma fogueira, reconheceram melhor o ambiente, escolheram locais mais protegidos para as crianças e se distribuíram pelo abrigo de pedra, conforme suas conveniências. E ali permaneceram.

Nos campos havia abundância de caça, ora mais, ora menos concentrada, de acordo com a época do ano. Nos ribeirões e nas lagoas, havia muitos peixes. Nas vastidões dos cerrados e cerradões, havia, em cada época específica, uma variedade de frutos comestíveis. Também havia uma profusão de meliponíneas, sem ferrão, que recheavam as cavidades dos paredões, das árvores ou do solo com seus deliciosos potes de mel.

Os descobridores dos Jardins das Plantas Tortas tinham à sua disposição proteína animal, vitaminas diversas oriundas dos variados frutos e açúcares provenientes do mel silvestre. Sua dieta ainda era complementada pela cata de ovos e pelo consumo de alguns insetos ou por suas larvas. A sobrevivência era ainda presenteada com espécies lenhosas para as fogueiras e com uma variedade de matéria prima mineral, que utilizavam para fabricar instrumentos.

Não se sabe ao certo se os Peregrinos do Alvorecer usavam algum tipo de vestimenta. Entretanto, é de se supor a existência de algum agasalho confeccionado com couro, principalmente de cervídeos, que lhes servia de proteção contra as friagens. Seu grande arsenal de ferramentas de pedra bem trabalhadas ressalta a presença maciça de raspadores encontrados com marcas de sangue, sugerindo uma associação com o preparo do couro.

O que pode se concluir dessas inúmeras observações é que os efeitos do final da era glacial, tão marcantes noutras partes do planeta, não chegaram a causar modificações bruscas nos chapadões do centro da América do Sul, ocupados pelas vastidões de variedades de cerrados.

Altair Sales Barbosa
Arqueólogo. Excertos do livro “O Piar da Juriti Pepena– Narrativa Ecológica da Ocupação Humana no Cerrado”. Sales, Altair [et al]. Editora PUC-Goiás, 2014.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

PARCERIAS

CONTATO

logo xapuri

posts relacionados

REVISTA