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Pescaria indígena: apenas o suficiente para o sustento da família

Pescaria indígena: mergulhos em rios cristalinos e fartos, até quando serão possíveis?

Por Adriano Gambarini/Conexão Planeta

Apesar de ser bastante conhecido como o “fotógrafo de cavernas e das onças”, não é de hoje que me dedico a documentar comunidades tradicionais, sejam elas ribeirinhas, sertanejos ou povos indígenas. Beirando meus 30 anos de carreira, já documentei e convivi com mais de 15 povos indígenas da Amazônia e do Cerrado. Cada qual com suas culturas, tradições e maneira de viver. Alguns em situações relativamente tranquilas, em suas terras reconhecidas e demarcadas. Outros à sombra de projetos que podem mudar negativamente o rumo de suas histórias.

Este é o caso dos povos Nambiqwara, Manoki e Pareci, cujas terras são banhadas por rios cristalinos e com fartura. Os três mantêm a tradição de mergulhar em busca de peixes, e ao longo de anos foram aperfeiçoando a técnica de pesca subaquática à qual deram o curioso nome de Mascreação e que pode se tornar Patrimônio Imaterial da Humanidade. Para a prática, usam equipamentos que eles mesmos produzem: as máscaras são feitas com câmeras de pneu e os arpões com vergalhões de ferro – sim, aqueles usados em construção civil!

Mergulham assim há décadas, em grupos de cinco ou seis, com estratégias próprias para cercar os cardumes. Com um detalhe: pescam apenas o suficiente para o sustento da família, promovendo uma pesca equilibrada e sustentável. E ainda respeitam e mantêm tradições místicas, dedicando uma parte da pesca como oferenda em agradecimento aos ‘espíritos do rio’.

Mas tudo isso vem sendo encoberto por uma ameaça eminente, não apenas para esta tradição mas também para o meio ambiente. Vários projetos de barragens e PCHS (Pequenas Centrais Hidrelétricas) colocam em risco a ecologia dos rios locais, principalmente no que se refere ao fluxo e migração dos peixes. E a pescaria, qualquer forma que seja, é uma atividade primordial para todos os povos indígenas brasileiros.

Dessa forma, a tradição e a cultura destes povos estão ameaçadas pela triste perspectiva de se tornarem, num futuro não muito distante, apenas parte de uma história oral contada na roda da fogueira.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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