POR QUE CANTAM AS CIGARRAS?

POR QUE CANTAM AS CIGARRAS?

Por que cantam as cigarras?

Brasília tem belas quadras arborizadas. Nelas vive uma infinidade de cigarras, inseto pequeno, de até 6 centímetros de comprimento. No Cerrado, no Pantanal, em todos os biomas brasileiros, vivem milhões de estridentes cigarras.

Por Nina Simões

Estridentes por pouco tempo, dentro de sua relativamente longa (para o mundo dos insetos) existência, que vai de 2 a 17 anos.  A maior parte do tempo, as cigarras ficam inertes, em forma de letárgicas ninfas, acopladas às raízes das árvores, alimentando-se de seiva, integradas ao ambiente. Dormem, por assim dizer, grande parte do ano, todos os anos.

Com as primeiras chuvas, brotam da terra em forma de insetos cantadores (só os machos cantam), em corais contínuos, uníssonos, sincronizados, de 120 decibéis por indivíduo. Assim permanecem, nessa desandada cantoria sem-fim, nos troncos das árvores, pelas duas ínfimas semanas em que vivem sob a forma de inseto alado, no planeta Terra.

Assim atraem suas fêmeas, acasalam, asseguram a sobrevivência da espécie. Assim, atormentam os tímpanos humanos. Assim, ainda que somente por duas semanas, garantem alimento farto para as aves do Cerrado, que não matam as cigarras, apenas comem as cascas que elas vão deixando para trás.

Assim, desse jeito estranho, as cigarras ajudam a conservar a vida na Terra.

Nina Simões
Artista, Musicista

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Processo de troca de exoesqueleto da cigarra dura até duas horas, o que explica a estrutura intacta — Foto: Celso Silvério/Acervo Pessoal

Processo de troca de exoesqueleto da cigarra dura até duas horas, o que explica a estrutura intacta — Foto: Celso Silvério/Acervo Pessoal

Basta uma chuvinha na época de Primavera para um som típico dessa estação potencializar seu volume. As ninfas cigarras, muito conhecidas pelo ritmo barulhento da “cantoria”, vivem instaladas em troncos de árvores ou paredes à espera da metamorfose e do período reprodutivo.

A sinfonia começa a aparecer com a chegada Primavera e permanece em alta até março, com seus adultos em plenos pulmões. Apesar de espécies muito conhecidas, sua importância ecológica e os hábitos desenvolvidos não são tão famosos assim.

Diversas cigarras se prendem às arvores durante a Primavera — Foto: Maurício Brotto/Acervo Pessoal

Diversas cigarras se prendem às arvores durante a Primavera — Foto: Maurício Brotto/Acervo Pessoal

Apesar de surgirem, especificamente, nos períodos quentes, as cigarras se abrigam debaixo da terra por anos. Percorrendo túneis escavados, lá vivem de três a 17 anos (em caso de algumas espécies dos Estados Unidos), se alimentando da seiva das raízes, até que estejam prontas para o acasalamento.

Ao saírem, os pequenos insetos vivem por semanas, até que cumpram com o seu papel reprodutivo e morram logo após da deposição dos ovos em rachaduras nos caules de plantas hospedeiras e o nascimento dos filhotes.

Cigarras rompem o exoesqueleto quando crescem e mudam de estrutura — Foto: Pedro Santana/Acervo Pessoal

Cigarras rompem o exoesqueleto quando crescem e mudam de estrutura — Foto: Pedro Santana/Acervo Pessoal

O som do movimento

Ao contrário do que possa parecer, a cigarra não emite o som com a boca ou com alguma vibração vocal que realiza. É o esfregar das asas no próprio corpo, em um par de estruturas abdominais chamadas timbales, que consegue produzir e amplificar essa sinfonia.

São conhecidas mais de mais de 1,5 mil espécies de cigarras em todo o mundo e cada uma delas apresenta um canto específico, com medidas em decibéis diferentes. É a própria emissão de som que vai permitir às populações diferenciarem o macho da fêmea e se relacionarem durante o acasalamento.

Transformação das cigarras recebe o nome de ecdise ou muda  — Foto: Celso Silvério/Acervo Pessoal

Transformação das cigarras recebe o nome de ecdise ou muda — Foto: Celso Silvério/Acervo Pessoal

Cantiga de amor

O som emitido pelas asas das cigarras é parte de uma estratégia de atração. O macho utiliza esse recurso para se aproximar a fêmea, que, ao contrário dele, tem um som quase imperceptível. Há, ainda, estudos sobre a possibilidade do “canto” ser também uma estratégia de defesa contra predadores.

Seu canto é um estouro

Ao contrário do que se pensa, as cigarras não cantam até “estourar”. O casulo é a última fase da ecdise, o nome do processo de metamorfose vivido por elas. Assim, o inseto se liberta do esqueleto externo para que, crescido, mude de estrutura e obtenha asas.

Uma fenda aparece ao longo das costas da ninfa, por onde sai o indivíduo adulto — Foto: Silvana Fernandes/Acervo Pessoal

Uma fenda aparece ao longo das costas da ninfa, por onde sai o indivíduo adulto — Foto: Silvana Fernandes/Acervo Pessoal

Dieta de pássaros

Não só barulhentas e filhas de uma grande transformação, as cigarras também são especiais por apresentam um importante papel ecológico na cadeia alimentar. As aves se alimentam de muitas cigarras quando elas saem de seus esconderijos e esses insetos são encontrados facilmente graças som forte que emitem, facilitando a localização.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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