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Praças recortadas, cidades erradas

Praças recortadas, cidades erradas

Construídas para ornamentar os espaços urbanos, as praças das cidades brasileiras estão sendo suprimidas para dar lugar aos carros…

Por Antenor Pinheiro

O mais difícil não é construir uma praça, mas mantê-la como elemento de composição estética da cidade, seja como valor ornamental, seja como marco referencial para seus habitantes. Contrariando esses conceitos, as praças das cidades brasileiras estão sendo assediadas por gestores pouco conectados com a urbanidade possível e gradativamente sendo suprimidas para dar passagem aos carros e demais usuários motorizados dos sistemas viários urbanos.

Não diferente de outras cidades brasileiras, os gestores da cidade de Goiânia, capital do estado de Goiás, têm se notabilizado nos últimos anos em promover verdadeiro desmanche de seus espaços orgânicos com o intuito de otimizar a fluidez dos veículos motorizados.

Canteiros centrais, praças e outros pontos bucólicos referenciados por árvores centenárias têm sofrido impiedoso ataque em nome de uma discutível modernização dos seus espaços de mobilidade, que na verdade nada mais é que garantir a acomodação de sua frota veicular. Estranha intervenção, pois contradiz todo o discurso oficial da Prefeitura local em defesa da construção de uma “cidade para as pessoas”. E assim a cidade continua sendo recortada, numa eterna e devastadora improvisação.

O mais preocupante, contudo, é que medidas assim são uma constante no jeito de administrar as cidades brasileiras. A falsa ideia de que é possível responder à demanda do transporte individual parece condenar à cegueira os prefeitos e vereadores das cidades. Sabem muito bem esses gestores que, quanto mais se abrem ruas, viadutos, avenidas, túneis para carros e motos, mais carros e motos surgirão para ocupar todos os espaços possíveis. Assim seguem construindo cidades para carros e motos na contramão do que outras sociedades exigem e praticam. Afrontam a Lei Nacional da Mobilidade Urbana, que aponta noutra direção, na medida em que traça diretrizes dedicadas à priorização dos espaços urbanos para pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo. Parecem cometer os gestores sucessivos erros deliberadamente, alimentando um círculo vicioso sem fim, incapazes que são em inovar, ousar e adotar matrizes que humanizem as cidades, devolvendo-as para as pessoas, como manda a lei.

Ainda em Goiânia, já que foi foco de reportagem com a mesma pauta, veiculada no Jornal Nacional (19/10), convém anotar que a atual gestão da Prefeitura tem realizado importantes intervenções em sua estrutura viária, que visam melhorar a qualidade da mobilidade das pessoas, tais como a implantação de corredores preferenciais de ônibus, BRT, ciclovias e ciclofaixas. Mesmo que pontuais, são intervenções que contemplam conceitos modernos, já que priorizam o transporte coletivo e o transporte não motorizado (bicicleta), a despeito das calçadas ainda não merecerem semelhante consideração.

Por outro lado (e paralelamente) ocorrem ações que causam espécie, já que são totalmente contraditórias àquelas, nada havendo de compatível com os mesmos conceitos de sustentabilidade. Assim aconteceu com a retirada das palmeiras da Avenida 85 e dos flamboyants da Goiás Norte; com o acréscimo de faixas de rolamento da mesma 85 e na Avenida Couto Magalhães; com a abertura do túnel da Avenida Araguaia e a construção do viaduto da T-63… e agora, a supressão da Praça do Relógio, em favor da fluidez de carros e a criação de vagas de estacionamento, conforme noticia o jornal O Popular em sua edição de 10 de outubro/2015 – no mínimo, uma gestão claramente bipolar.

É como conclui o professor Paulo César Marques da Silva (UnB) em seu artigo recente no blog do Noblat (site de O Globo, 22/10): “a praça que desaparece hoje vai atrair maiores volumes veiculares, que logo congestionarão praças mais adiante. Como a prefeitura não aprendeu a fazer outra coisa, os novos gargalos farão de novo o verde dar lugar ao asfalto, que atrairá mais carros, até que o povo, enfim, chegará à terra prometida… no meio do deserto”.

avenida_85

Foto: onibusrmtca.blogspot.com

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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