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Prêmio à luta pela terra

Prêmio à luta pela terra

A líder indígena Alessandra Korap, do povo Munduruku, que vive na Amazônia, é uma das ganhadoras do Goldman. Ela tem denunciado a invasão de terras dos povos originários por garimpeiros e outros envolvidos em crimes ambientais.

Por Revista Focus

A defesa das terras indígenas no Brasil e a proteção à floresta tropical renderam à ativista Alessandra Korap o Prêmio Ambiental Goldman, concedido na segunda-feira, 24, a militantes de base em todo o mundo que se dedicam a proteger o meio ambiente e promover a sustentabilidade. Ela é uma das novas lideranças indígenas surgidas no país e que tem se insurgido contra o cerco às terras do povo Munduruku, espalhados no Pará e Mato Grosso.

“Este prêmio é uma oportunidade de chamar a atenção para a demarcação do território Sawre Muybu”, diz Korap, apontando a reserva localizada no estado do Pará, identificada pelo governo Dilma Rousseff ainda em 2016, mas ainda à espera de demarcação. “É nossa principal prioridade, junto com a expulsão de garimpeiros ilegais”. O povo Munduruku vive na bacia do rio Tapajós e tem sido ameaçado pela mineração ilegal e outras atividades econômicas perigosas conduzidas de maneira predatória e estimuladas pelo governo anterior.

Alessandra Korap e outras mulheres Munduruku assumiram a responsabilidade de defender seu povo, derrubando a liderança tradicionalmente masculina. Organizadas em suas comunidades, elas orquestraram manifestações, apresentaram provas contundentes de crimes ambientais à Procuradoria Geral da República e à Polícia Federal e se opuseram veementemente a acordos ilícitos e incentivos oferecidos aos Munduruku por garimpeiros, madeireiros, corporações e líderes políticos sem escrúpulos que buscam acesso às suas terras.

O território Sawre Muybu é uma área de floresta tropical virgem ao longo do rio Tapajós abrangendo 178.000 hectares. O reconhecimento oficial da terra, ou demarcação, começou em 2007, a terra indígena foi identificada em 19 de abril de 2016, ainda no governo Dilma Rousseff. As etapas seguintes que levariam à demarcação e homologação da terra foram congeladas durante o governo do líder da extrema-direita de Jair Bolsonaro.

Ainda assim, o povo Munduruku comemorou uma vitória em 2021, quando a mineradora britânica Anglo American desistiu de tentar desenvolver a mineração dentro de territórios indígenas no Brasil, incluindo Sawre Muybu. Os 168 indígenas Munduruku que vivem na área estão constantemente ameaçados pelo garimpo ilegal, bem como os índios Kayapó, que também vivem no estado do Pará.

O Ministério dos Povos Indígenas já anunciou um plano de ação de retirada de invasores, que inclui territórios indígenas em Rondônia, no Maranhão e no Pará. A prioridade no primeiro momento foram os índios ianomami, que vivem em Roraima, assolados por grave crise humanitária e sanitária. Dados do Mapbiomas mostram que a prática do garimpo ilegal nos três territórios indígenas — Kayapó, Munduruku e Yanomami — explodiu nos últimos anos.

Entre 2010 e 2020, a área de garimpos em terras indígenas cresceu 495%. Há três anos, 9,3% das áreas de garimpo já estavam localizadas dentro de áreas indígenas. Em 2021, o território Kayapó concentrava 11.542 hectares de garimpo ilegal. Em segundo lugar, a terra Mundukuru, com 4.743 hectares. E, em terceiro, a área Ianomami, com 1.044 hectares. Os povos indígenas têm sofrido com a exposição ao mercúrio, usado para facilitar a extração do ouro, por meio da alimentação baseada no consumo de peixes.

Estudos têm mostrado que as florestas controladas pelos indígenas são as mais bem preservadas da Amazônia. Quase metade da poluição climática do Brasil vem do desmatamento. A destruição agora é tão grande que a Amazônia oriental, não muito longe dos Munduruku, deixou de ser um sumidouro de carbono, ou rede absorvedora do gás, para se tornar uma fonte de carbono, segundo estudo da revista Nature.

Korap, no entanto, sabe que os direitos à terra por si só não protegem a terra. Na vizinha terra indígena Munduruku, garimpeiros ilegais destruíram e contaminaram centenas de quilômetros de cursos d’água em busca de ouro, mesmo a demarcação tendo sido reconhecida em 2004. Desde que assumiu a Presidência da República, o líder Luiz Inácio Lula da Silva anunciou operações para expulsar os garimpeiros de áreas indígenas. Ele também anunciou a criação do Ministério dos Povos Indígenas, comandado por Sonia Guajajara, e designou a ex-deputada Joênia Wapichana para a presidência da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Fonte: Revista Focus  Capa: Reprodução/Revista Focus


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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