Projeto Uxirana: artesanato caboclo realiza Vivências Arte na Mata, caminhada em trilhas na FloNA do Purus para reconhecimento de espécies

PROJETO UXIRANA: ARTESANATO CABOCLO

Projeto Uxirana: artesanato caboclo realiza Vivências Arte na Mata, caminhada em trilhas na Flona do Purus para reconhecimento de espécies

Vivência Arte na Mata é uma ação do Projeto Uxirana: artesanato caboclo, projeto contemplado pelo Edital de Chamamento Público Nº 13/2024, Fomento à Execução de Ações Culturais de Cultura Popular, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB/Lei Nº 14.399/2022), do Termo de Execução do Governo do Estado do Amazonas, por meio do Fundo Estadual de Cultura

Por Juliana Belota

Duas vivências foram realizadas, no contexto do projeto. Segundo a proponente, a mestre artesã, Arlete Maciel, as vivências foram focadas no estudo do processo tradicional de identificação, coleta, higienização e acondicionamento adequado das sementes para o beneficiamento, que será finalizado em etapa seguinte, na oficina de beneficiamento da Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza, na comunidade Vila Céu do Mapiá, localizada na Floresta Nacional (FloNA) do Purus.

“O objetivo das vivências é estudarem árvores, palmeiras e cipós, porém as vivências tem foco no estudo específico sobre cada semente trabalhada no projeto”, explica Arlete Maciel. Nestas duas vivências, foram pesquisadas as sementes da Uxirana (Vantanea Parviflora) e do Marajá Mirim (Bactris maraja). “As aulas começam pela teoria, nos livros, e seguem para a vivência prática para conhecerem o habitat, a fenologia e a estrutura morfológica das plantas”, explica e acrescenta:

“Quando começamos a trabalhar com a semente no artesanato, os alunos já estão conectados com toda a caracterização da paisagem, sabem onde encontrar, identificar se está a montante ou a jusante do igarapé, em terra firme, na várzea ou no charco, enfim, sabem localizar e identificar onde há o maior índice daquela planta.”

Para a produtora executiva do projeto, Bianca Squarisi, a importância fundamental das vivências, no projeto Uxirana, é que elas são uma ponte entre os oficineiros do projeto e os mateiros da comunidade. “Essa parceria é essencial para o artesanato, todos os alunos das turmas participam, esta é uma parte muito importante do ensino”, diz Bianca Squarisi.

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Coleta semente Uxirana

Além dos alunos, são convidados para fazer parte das vivências, outros mestres de cultura popular da comunidade e visitantes que se inscrevem para a atividade, é lá que aprendem com os mateiros a pensar a sustentabilidade e respeitar a floresta”, explica a produtora.

Foram realizadas durante as vivências, trilhas interpretativas com a participação de cientistas e ambientalistas parceiros do projeto, como o engenheiro florestal, João Coutinho, diretor de produção madeireira do manejo comunitário da FloNA do Purus, realizado pela Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus (Cooperar).

“As vivências ocorrem nesse espaço que é um laboratório vivo, a Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza, que acaba de ganhar o status de Escola Livre do Ministério da Cultura”, destaca

João Coutinho contribui com o reconhecimento de espécies florestais. “O importante das vivências é o somatório de conhecimento que acontece nelas, os jovens aprendizes observam as espécies situadas em seus habitats e compreendem quais outras espécies se associam e a disposição delas no ecossistema local”.

Além disso, falamos de particularidades do tronco, das folhas e da maturação dos frutos até o cair da semente, quando se se faz a coleta manejada in loco, explica.

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O resultado é a integração dos alunos com as espécies trabalhadas e a descoberta de outras espécies com potencial produtivo. “Isto agrega valor ao projeto e aumenta o entendimento sobre essa capacidade que a floresta tem de ser sustentável em suas cadeias produtivas, afirma e acrescenta: “Assim há possibilidade de os alunos do projeto conhecerem integralmente a floresta, unindo ciência e sabedoria popular, nas aulas deste que é um museu a céu aberto, onde os alunos podem trabalhar com mais inteireza o tema do artesanato”, conclui.

Para Coutinho, as peças produzidas com os resíduos florestais, além de agregarem valor ao manejo florestal, revelam a importância da floresta em pé. “É na integração entre fauna, flora, recursos hídricos e florestais que compreendemos que tudo está interligado, a floresta é uma composição de biodiversidades e, neste ciclo, cada espécie precisa da outra, então o projeto Uxirana não fala só da produção do artesanato, mas de toda essa preservação, de tudo que a floresta produz”.

A primeira Vista

Foi vista pela primeira vez, numa das Vivência Arte na Mata o pássaro, popularmente conhecido como Mãe de Lua (Urutal ferrugem), próximo ao roçado geral da comunidade, na FloNA do Purus. O registro foi feito pela aluna do projeto e pesquisadora, Mariana Arruda, após Bianca Squarisi avistar a ave.

Mariana Arruda atua no Manejo Florestal Comunitário da Vila Céu do Mapiá, desde 2019, onde está sendo realizado o inventário da avifauna local, tema que promove aliança entre o monitoramento ambiental, o turismo e a educação de base comunitária. O projeto Formação de Monitores Ambientais para Turismo de Observação de Aves, na Floresta Nacional do Purus, Pauini (AM), vem de encontro ao Plano de Manejo da FloNA do Purus, que sugere a promoção do turismo ornitológico (centrado na observação de aves) e o desenvolvimento de pesquisas para um maior conhecimento da biologia e ecologia deste grupo na área.

Projeto Uxirana: artesanato caboclo realiza Vivências Arte na Mata, caminhada em trilhas na FloNA do Purus para reconhecimento de espécies
Mãe da Lua (Urutal ferrugem)

Em uma parceria do Instituto Chico Mendes (ICMBio) e da Cooperar, até o momento, já foram registradas 356 diferentes espécies de aves na FLONA do Purus, com registro fotográfico de grande parte delas.

O conteúdo das pesquisas resulta na publicação “Passarinho verde: aves da FLONA do Purus”, um livro organizado por Clezio Kleske, com fotografia de Pedro Adnet e diagramação de Tom Adnet, com participação especial de Olímpio Mendes, descendente de mateiros, mestres do conhecimento tradicional, na Vila Céu do Mapiá, Damião Rocha e Maria Mota.

Todo o conteúdo do livro foi disponibilizado ao sistema SISBIO (ICMBio) e publicado no site: https://www.wikiaves.com.br/– uma página de conteúdo interativo direcionada ao observatório de aves do Brasil.

O curso acontece em parceria com a Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza, num projeto piloto para o desenvolvimento de diversas outras temáticas de formação profissionalizante que estão sendo planejadas a partir das vocações locais. A proposta do projeto é contribuir para o desenvolvimento de estudos da avifauna local, estimulando a realização de atividades educativas e turísticas, associadas ao monitoramento ambiental participativo.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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