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Quantas Ágathas mais vão precisar morrer?

Quantas Ágathas mais vão precisar morrer?

Por Iêda Leal de Souza

Ágatha Félix era uma menina negra, carinhosa, estudiosa, sonhadora, amada pela família, pela escola e pela comunidade inteira. Como qualquer outra criança de qualquer outro lugar do planeta, Ágatha merecia viver.

Ágatha merecia, mas não pôde viver. Ágatha perdeu a vida no dia 21 de setembro com um tiro nas costas dentro de uma Kombi no Conjunto de Favelas do Alemão, no Rio de Janeiro.

Como aconteceu com as outras dez crianças assassinadas por “balas perdidas” no Rio somente no ano de 2019, uma bala disparada pela política etnocida do governador Wilson Witzel retirou de Ágatha o sagrado direito de existir.

Fontes da Polícia Civil dizem que a bala que encontrou as costas de Ágatha saiu da arma de PM. O motorista da Kombi reitera que não houve confronto, que a bala assassina foi disparada sem que sequer houvesse uma disputa da polícia com bandidos, fato comum e corriqueiro na capital carioca.

A morte de Ágatha só pode ser atribuída, portanto, à gestão irracional e cruel de um governador que prioriza a ação midiática em vez de vidas humanas, em especial de vidas pobres, pretas e periféricas. Perderam-se, no Rio de Janeiro, todos os parâmetros éticos da dignidade humana.

Predomina, no Brasil, a negligência de um Estado que, dominado por um poder fascista, continua marcando de sangue retinto os becos das favelas onde vivem crianças pobres e negras. A cada dia mais, se rompem os princípios inclusivos e democráticos da Constituição Cidadã de 1988.

Vivemos dias difíceis de enfrentamento ostensivo contra o racismo e o preconceito. Vivemos momentos terríveis de dúvida sobre o futuro da esperança que, de momento, não tem sido capaz de vencer o medo. Vivemos horas de uma inquietante pergunta sem resposta: quantas Ágathas mais vão precisar morrer?

ieda111Iêda Leal de Souza – Tesoureira do SINTEGO. Secretária de Combate ao Racismo da CNTE. Vice-presidenta da CUT-GO. Coordenadora Nacional do MNU. Artigo enviado em 25 de julho de 2019 desde a Tailândia, onde participou do Congresso Mundial de Educação.

 

 

 


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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