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Rainha Nzinga Mbandi: a forte de Angola

Rainha Nzinga Mbandi: Negra, bela, exótica, excêntrica e uma das maiores governantes da história da África

Por Iêda Vilas-Bôas

“(…) acima das lembranças dos heróis,
Ngola Kiluanji
Rainha Ginga.
Todos tentavam erguer bem alto,
a bandeira da independência.”

(Trecho do poema: O Içar da Bandeira – Agostinho Neto, poeta e 1º Presidente de Angola).

Rainha Nzinga Mbandi Kiluanji (pronuncia-se inzinga imbandi quiluange): negra, bela, exótica, excêntrica e uma das maiores governantes da história da África.

Também conhecida por Ngola Nzinga Mbande ou Dona Ana de Sousa (nome recebido quando se converteu oportunamente ao cristianismo), Rainha N’Ginga, Rainha Ginga, Rainha Nzinga, Nzinga I, rainha Nzinga Ndongo,  Jinga, Singa, Zhinga, Ginga, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga de Matamba, Rainha Nzingha de Ndongo, Ann Nzingha, Nxingha e Mbande Ana Nzingha.

Foi rainha dos reinos do Ndongo e de Matamba, no Sudoeste da África, no século XVII. O seu título real na língua  kimbundu, Ngola, deu origem ao nome utilizado pelos portugueses para denominar aquela região de Angola.

Dela podemos dizer o ano de nascimento 1582, o de seu falecimento sendo o ano de 1663, aos 81 anos, e ainda, de sua brilhante carreira diplomática e política. A Rainha será para sempre lembrada como o maior símbolo da resistência e enfrentamento à colonização africana pelos europeus, principalmente os portugueses e holandeses

Falar de Nzinga é trazer para o momento atual a diáspora africana, para o agora toda nossa africanidade.  Ela nasceu na tribo Ambundo, de africanos falantes da língua banto ou bantu.  Os bantus constituíam uma comunidade cultural, um grupo etnolinguístico e que englobava cerca de 400 subgrupos étnicos diferentes. Com sua ascensão ao trono passou a ser a rainha do Ndongo, atual Angola.

Nos anos cruéis da escravatura seu povo era capturado, escravizado e trazido,também, ao Brasil. Aqui, o valente e alegre povo Banto nos ensinou o samba e a capoeira. O povo de Nzinga, o povo Banto, portanto, está muito presente em nossa raiz, em nossa identidade social e cultural.

A rainha entrou merecidamente para a história como uma combatente destemida, exímia estrategista militar e diplomata astuciosa. Ela chefiou pessoalmente o seu exército até os 73 anos de idade e era tão respeitada pelos portugueses, de maneira que Angola só foi dominada depois da sua morte.

Estrategicamente formou uma aliança com o povo Jaga, desposando o chefe desse povo e, subsequentemente, conquistando o reino de Matamba. Ganhou notoriedade durante a guerra por liderar pessoalmente as suas tropas e por ter proibido de a tratarem como “Rainha”, preferindo que se dirigissem a ela como “Rei”.

O Reino de Ndongo, inicialmente, sofria com a invasão lusitana e com batalhas territoriais com os Jagas, povo africano forte, por natureza guerreiro e saqueador. O reino vivia em constantes guerras. Entretanto, essa não era sua maior batalha. O fato de ser mulher, filha de escrava e estar no comando de seu reino fazia com que Nzinga tivesse ferrenha oposição interna.

A mancha da escravidão era um fator de enfraquecimento em sua gestão. Na África, as relações de poder se baseavam na tradição familiar e no parentesco. Sorte grande da heroína Nzinga foi ter sido criada por seu pai, o rei Ngola Jinga Mbandi, que percebendo a garra e coragem da jovem princesa, deu-lhe treinamento militar e preparou-a para ser uma guerreira e para sucedê-lo.

Quando da morte de seu pai, em 1617, o irmão dela, Ngola Kia Mbandi, assumiu o trono, contrariando a vontade do pai e de seus conselheiros, que reconheciam a supremacia e liderança de Nzinga. O Rei Kia iniciou seu governo com ferrenha luta entre seu povo, poucos a seu favor e grande maioria com Nzinga. Numa drástica e traiçoeira medida, o Rei Kia manda assassinar o filho único da princesa, que na ordem real, seria seu principal concorrente.

No ano de 1624, durante uma rebelião interna o Rei Kia foi assassinado e Nzinga virou rainha aos 39 anos de idade. A jovem assumiu o poder durante grave crise em seu reino. Ndongo perdia terreno para os portugueses e era preciso agir com sabedoria e cautela. Dizem que por trás da morte do Rei Kia estava Nzinga, nem tanto pelo poder, mas sim, pelo sofrimento de mãe ao ter perdido seu amado filho.

Ainda sob a liderança de seu irmão, o Rei Kia, Nzinga iniciou sua brilhante carreira diplomática. Kia precisava de alguém capacitado para negociar com os portugueses e enviou sua irmã para Luanda com a missão de negociar um acordo de paz com os invasores lusitanos.

Nzinga era fluente na língua portuguesa, tendo aprendido o idioma nas incursões e negociações em que acompanhava seu pai. Em sua chegada, a jovem princesa recebeu homenagens efusivas e calorosas como salvas de canhões, soldados perfilados e tapetes cobrindo toda a extensão do trajeto.

Mas era mulher e isso incomodava. Quando se encontrou com o governador de Luanda, percebeu que não lhe destinaram cadeira no salão, isso significava que deveria sentar-se sobre almofadas, no chão. Lugar destinado às mulheres de homens importantes.

Assumindo atitude desafiadora para aquele tempo, Nzinga imediatamente ordenou que uma escrava se ajoelhasse e sentou sobre ela, para mostrar a todos sua superioridade e soberania. Assim, também, mostrou aos portugueses que não seria mais um vassalo do domínio português. Seria tratada como igual.

Suas missões diplomáticas tornaram-se lendárias. Já coroada como Rainha Nzinga Mbandi de Ndongo, ela conseguiu feito inédito: através de bem sucedida manobra política, realizou a união com o povo Jaga, os terríveis. Para que tal aliança acontecesse, a Rainha teve de adotar muitos costumes estranhos à cultura de Ndongo, entre eles o“cbadiomo” um ritual de canibalismo, que segundo a crença dos Jagas ajudava a manter a disposição e força física dos soldados para o enfrentamento nas batalhas. Tomou para si uma cultura diferente para aproveitar-se do poderio militar dos jagas.

De acordo com a oralidade, veículo transmissor em que viajam as fantásticas histórias, diz-se que, em certos rituais de fertilidade, Nzinga se vestia de homem e obrigava seus inúmeros amantes a se fantasiarem de mulher. Sob a ótica contemporânea, podemos dizer que a Rainha Nzinga subvertia tradições.

Talvez fosse uma maneira encontrada por ela para reafirmar o próprio poder e espaço em uma sociedade que não aceitava uma mulher como soberana. Era preciso demonstrar força, masculinidade, frieza e até certa crueldade para ser aceita e respeitada.

Lembremo-nos do período histórico em que reinou Nzinga para justificarmos e entendermos as contradições comportamentais da Rainha. Por exemplo, Nzinga lutou contra a escravidão do seu povo, mas vendia seus aprisionados de guerra para os portugueses.

Defendia a livre expressão religiosa em seu reino e depois obrigou seu reino a adotar muitos costumes católicos. Nzinga usou seu poder de encantamento feminino, seu poder de manipulação e sua inteligência para manter-se por extenso período como mulher líder de seu povo. Esse fato deve ser reconhecido e rememorado.

Com tantas adversidades, seu reinado tinha tudo para fracassar, porém tornou-se uma das maiores governantes da história da África, através do exercício da arte política e diplomática conseguiu manter a independência do seu povo por quarenta anos.

Hoje permanece figura de destaque no panteão central da cultura angolana, país que ainda vive e sofre por conflitos internos. No Brasil, essa extraordinária mulher é pouco conhecida, mas é homenageada nas festas populares de origem do povo banto, como a Congada, No rito, a coroação do rei do Kongo e da rainha Nzinga simboliza o sincretismo religioso no Brasil.

Pela sua determinação, coragem e espírito guerreiro, salve a Rainha Nzinga Mbandi.

(Rainha Nzinga Mbandi – Imagem, Leonardo.ai)

Publicado originalmente em 31 de janeiro de 2019


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

 

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