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Raoni Valle

Arqueólogo Raoni Valle sofre atentado na Amazônia

ARQUEÓLOGO RAONI VALLE, COLABORADOR NA RESISTÊNCIA DOS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL, SOFRE ATENTADO NA AMAZÔNIA

Por: Zezé Weiss

“Em cima do medo... Coragem!” – Xicão Xukuru 

  
Raoni Bernardo Valle, 41 anos, doutor em , mestre em História com área de concentração em Pré-História, pesquisador no Seridó Potiguar e Paraibano e no Semiárido Pernambucano no início da carreira, na segunda metade dos anos 90, podia ter seguido investigando os registros rupestres do Nordeste.

Tivesse ficado por ali, talvez Raoni Valle não fosse alvo do atentado que sofreu na noite do último dia 09 de março na varanda de  sua casa de Alter do Chão, no estado do Pará, quando dois homens (possivelmente 3) com rostos encobertos portando “garruchas”, espingardas adaptadas de cano serrado, atiraram contra o arqueólogo.

Imediatamente, ao perceber a invasão, o pesquisador se atracou com os dois homens. O primeiro disparou contra seu
rosto, mas o cartucho explodiu dentro da arma. O segundo ainda mirou mas antes que disparasse, Raoni mergulhou embaixo de sua mesa de trabalho em seu escritório, virando a mesa por cima dos meliantes lhes empurrando contra ela para fora de casa, gritando por socorro. O tiro e seus gritos alertaram moradores e a dupla fugiu. Ainda um terceiro elemento havia sido encurralado por sua esposa e pelo seu cachorro e ao ser ameaçado pelos dois evadiu-se.  O pesquisador sequer viu o terceiro homem.

Mas não, Raoni Valle foi parar nas regiões de conflito da , e se aproximou dos e das populações extrativistas da floresta.  Desde 2005, o arqueólogo realiza levantamentos fotográficos de sítios rupestres nas bacias do , Branco, Jaú, Jauaperi, Tapajós e Erepecuru.

Mais: o inquieto acadêmico – hoje Professor Adjunto no Programa de Antropologia e Arqueologia (PAA) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e Coordenador do curso de Arqueologia deste Programa, inovou num trabalho experimental de capacitação em arqueologia para professores indígenas da etnia Mura do baixo rio Madeira, nos anos 2005-2007.

Trabalhando com os Professores Mura, Raoni coordenou, entre 2007 e 2008,  o projeto Yandé Anama Mura – Documentação Audiovisual do Patrimônio Imaterial dos Pajés e Pearas Mura, e não mais parou. Na Ufopa, desenvolve, junto com alunos Munduruku, o Programa de Pesquisa e Extensão Kuyjeat Etaybinap – Arqueologia da Oralidade nas Aldeias Munduruku do Médio Tapajós – uma proposta de “Arqueologia Indígena”; através da documentação audiovisual da História Oral da etnia, premiado pelo Edital Mec-Proext 2014.

Além de parcerias intelectuais com pensadores e pesquisadores Indígenas do Alto rio Negro, , o pesquisador desenvolve, também, o projeto Pedra do Sol – Contextualização Arqueológica e datação Indireta de Gravuras
Rupestres na Amazônia Brasileira (Roraima), dedicado a situar referenciais crono-estratigráficos para as Gravuras Rupestres Amazônicas.

Isso sem contar na sua profícua e premiada produção de documentários  sobre a questão indígena no , junto à produtora de cine-vídeo Telephone Colorido de Recife, PE. Um deles, “Figueira do Inferno”, levantou mais de uma dúzia de prêmios de melhor documentário em 2004. Além, de parcerias intelectuais com pensadores e pesquisadores Indígenas do Alto rio Negro, Amazonas.

Era de se esperar então que um cidadão com significativas contribuições ao avanço do conhecimento arqueológico da Amazônia brasileira, sobretudo no campo das Gravuras Rupestres, fosse capaz de gerar admiração e respeito, e não a ira da bandidagem que hoje impera em várias partes da floresta. Só que, com seu incondicional apoio aos povos indígenas, em particular por seu
trabalho com os Munduruku, Raoni Valle passou a ser percebido pelos inimigos dos povos indígenas na Amazônia como uma presença incômoda.

Por essa razão, Raoni suspeita da possiblidade de que o ataque do dia 09 tenha alguma relação com sua defesa dos Munduruku e sua militância contra os desmandos na construção do Complexo Hidroelétrico do Tapajós. Embora a princípio resista à ideia de um atentado premeditado e encomendado, Raoni não hesita em dizer que “…depois que 0 cara tentou me matar, passei a perceber que as coisas estão meio estranhas, pois voltaram em minha residência antiga e mexeram em várias coisas, mostrando uma ação reiterada orientanda para implantação de medo e terror seletivo em algumas pessoas, os assaltos que assolam Alter podem não ser um fim em si mesmo, mas um instrumento político para outros fins…”

Segundo Raoni, “há um padrão nas ações de que ocorrem na região, há um design nisso tudo, que remete a uma arquitetura mais ampla do que os devaneios da bandidagem pequena na ponta de lança, é de envergadura política,
sempre, acho que se relaciona a algum tipo de processo de gentrificação planejada do Oeste do Pará orientada por um
vento fascistoide que tomou conta do nosso presente etnográfico.”

Para a também arqueóloga e historiadora Alenice Baeta, colega de Raoni, o ataque visa atingir o trabalho corajoso do arqueólogo em defesa dos povos indígenas e dos . “Este atentado é mais uma mostra dos tempos perigosos que estamos atravessando onde pessoas de bem estão sendo aniquiladas simplesmente por lutarem por justiça social e ambiental. Estarei a
seu dispor Raoni”, diz a professora.

Acuado pela violência que, nos últimos anos ceifou a vida de 25  lideranças políticas brasileiras, desde o dia 09 o professor deixou sua casa, e está vivendo refugiado com sua família, temendo  por sua vida e a vida de sua esposa, bem como por seu emprego na Universidade.

Denúncias de casos similares têm algumas vezes conseguido evitar assassinatos de indígenas,  extrativistas e das pessoas que defendem os . Oxalá seja este o caso. Longa vida para Raoni Valle!

Raoni VAlle Capitao Potiguara e Bacurau Xukuru

ANOTE AÍ:

Fotos: Acervo Raoni Valle

Uma resposta

  1. Que pena! Lamento que os bandidos da Amazônia sejam os senhores sobre a vida e sobre a morte de quem só faz o bem por povos indígenas e outras minorias, são bandidos sem escrúpulos que precisam ser presos e pagar por seus crimes.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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