Refletir a morte hoje

Refletir a morte hoje

Antonio Villarreal nos apresenta uma necessária reflexão sobre a morte e sobre a dor da perda e os passos de quem fica: choro, lembranças, arrependimentos, luta diária para superar e por fim, o esquecimento. Nos apresenta a condição de quem sobrevive hoje após perder uma pessoa querida. Lembra- nos que  coronavírus traz a ameaça de morte sobre todos e. ela aparece sem escrúpulos e sem pedir licença.

Por Antonio Villarreal 

Se tem um assunto do qual não gostamos de abordar é a morte. Lembramos de forma distante. Mas, atualmente, não há como se afastar desse fato. É torturante para todos e nos causa uma dor diferente de todas as dores: é quase insuportável.

Nos traz arrependimento, frustração, culpa e um aperto no coração.  Ficamos sem chão, sem voz. A morte vem e leva a todos, simples assim.

A partir daí a dor que passamos a sentir nos envolve com lembranças pela perda que nos faz afastar de nossa rotina e dá aquela vontade de relembrar e chorar.

A dor nos abala e nos deixa sem palavras. Os olhos ficam vermelhos cheios e de lágrimas. Passamos a lutar com nossos próprios sentimentos.

Estamos tão ocupados com nossos afazeres e, projetos de vida que os recursos mais usados por alguns de nós é o esquecimento. Sempre é melhor esquecer e seguir em frente sem refletir e sem entender essa dor.

Nesse momento de pandemia, piora a situação, uma vez que o tema é notícia obrigatória em todas as mídias. Falam de quantidades de mortos, das famílias em desespero, dos cuidados para o vírus não se alastrar, da necessidade de enterrar com rapidez para não transmitir a coronavírus. Até o velório, que nos reúne para lembranças e homenagens, ficou descartado e a morte se tornou mais do que um pesadelo.

Neste tempo de pandemia da Covid-19, por mais que possamos driblar a morte, ela aparece sem escrúpulos e sem pedir licença. Está presente e não adianta tentar esquecer, pois ela está em tudo o que nos rodeia. Está em qualquer lugar. É o assunto principal. Quando o silêncio do distanciamento social nos faz começar a esquecê-la, as sirenes das ambulâncias não param de nos alertar e a nos angustiar a alma.

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A morte existe e temos de enfrentá-la com coragem e humildade, entender seu significado e guardar na memória com carinho as vidas que se vão. Dia 2 de novembro de 2020, será marcado como um Dia de Finados diferente. Este ano, será uma data que nos fará, certamente, refletir sobre uma mudança necessária dentro de nós e na nossa sociedade individualista e excludente. E isso é o que importa, pois a alma que não se sensibiliza jamais realizará seus sonhos e desejos.

Menos elitismo e mais humanidade, talvez nos façam mais humanos, com nós mesmos e com o próximo, e, por conseguinte, vamos reaprendendo a dar maior valor à vida. Com mais humanidade, teremos mais capacidade de nos comprometermos e não ficar alheios e distante. Com menos elitismo, melhoramos nossas atitudes e buscaremos o bem-comum, a paz, a justiça e a igualdade em nosso planeta.

Antonio Villarreal é professor do Sinpro-DF

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora