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Wilsão, os índios e os estados gerais da cultura

Wilsão, os índios e os estados gerais da cultura

José Ribamar Bessa Freire apresenta a história do sindicalista Wilson Pinheiro, líder do movimento Mutirão contra a jagunçada e também a sua, na tentativa de discutir o Brasil, o genocídio aos indígenas e suas políticas culturais

Que importa o chapéu de palha, o traje, o rude perfil.

Ele é um homem que trabalha, ele é o filho do Brasil”.

(“Infância Brasileira”, livro didático da década de 1950)

Mãe? Ninguém sabe quem era. Pai, muito menos. Ele era filho do Brasil como tantos outros cantados em quadrinha de autor cujo nome não lembro mais. De pais desconhecidos, Wilson Pinheiro de Souza nasceu por volta de 1933, sabe-se lá em que dia e mês, no Careiro (AM), distante de Manaus umas quantas horas de barco, onde aprendeu a nadar nas águas do rio Castanho.

De lá foi parar no Acre, na fronteira com a Bolívia. Trabalhou em seringal e foi eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, quando o conheci em abril de 1979, numa reunião com os índios Apurinã no Teatro de Arena do SESC, em Rio Branco.

Ele seria mencionado na abertura da minha fala no 5º Encontro dos Estados Gerais da Cultura (EGC), programado para domingo, 6 de setembro, sob a batuta do cineasta Silvio Tendler, organizador do movimento que pretende recriar o destroçado Ministério da Cultura. Desde julho, aos domingos, uma centena de pessoas se reúne para discutir o Brasil e suas políticas culturais.

No meu dia, quando eu ia começar a falar, uma horda de bárbaros invadiu com palavrões a sala do zoom aos gritos de “mito, mito”, exibindo imagens do capitão armado.

– Estamos incomodando, fomos reconhecidos pelo adversário, passaram recibo – celebrou Silvio Tendler, um guerreiro da paz.

A Escola Superior da Paz foi criada pelo movimento EGC com objetivos diferentes aos da Escola Superior de Guerra e, segundo a jornalista Tânia Fusco, já conta até com um reitor, o historiador Célio Turino, que como secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura (2004–2010) criou o Programa Cultura Viva, responsável por mais de 2.500 Pontos de Cultura em mais de mil municípios brasileiros. A Escola da Paz defende a Doutrina de Segurança Emocional para exigir trégua nas comunidades das periferias brasileiras, contando para isso com as amadíssimas Forças Amadas.

O TERRITÓRIO INDÍGENA

Por sugestão das Forças Amadas, o 5º Encontro dos EGC foi, então, transferido para a plataforma da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde fiz um resumo da palestra sobre “O lugar dos povos indígenas na política cultural do Brasil”, devendo desenvolver o tema de forma ampla no início de outubro. Não é possível fazer uma discussão séria sobre políticas culturais, deixando os índios de fora. Mas qual é o lugar do Wilsão nessa história se ele não é indígena?

Um episódio vivido por Wilsão com os Apurinã, do qual eu participei, serviu para introduzir o tema da demarcação dos territórios indígenas e relacioná-los com a cultura. A terra indígena não é só um espaço físico, um bem material, vista pelo agronegócio e as mineradoras apenas como valor de mercado. Ela é muito mais do que isso, é um bem cultural, como ficou evidente no diálogo entre índios e trabalhadores rurais, ocorrido no dia 19 de abril de 1979, um ano e três meses antes do assassinato do Wilsão.

Foi assim. Nos anos 1970, o grileiro paranaense João Sorbile, apelidado de “Cabeça Branca”, aproveitou a longa temporada de caça dos índios Apurinã e com a conivência do Cartório de Boca do Acre (AM) loteou a terra indígena, vendendo os lotes para colonos vindos do Paraná. Quando os índios retornaram da caçada encontraram lá outros “donos”, que exibiam recibos do pagamento feito ao grileiro. Armou-se um conflito feio entre índios e posseiros.

Para lutar contra o grileiro em vez de brigar entre si, índios e posseiros se reuniram no Teatro de Arena do SESC, em Rio Branco, com a participação de lideranças de várias entidades, entre as quais Wilson Pinheiro de Souza, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia e Chico Mendes, ex-secretário do sindicato que se elegera vereador em Xapuri. Daí nasceu o Comitê Índios x Posseiros, berço do movimento “Aliança dos Povos da Floresta”.

LUGAR DE MEMÓRIA

Na ocasião, foi encenada a peça “A Grilagem do Cabeça” dirigida por Vera Froes do Grupo Testa, descrevendo toda a trama sórdida. Depois do espetáculo Wilsão manifestou durante a reunião que não entendia por que os índios não se sindicalizavam.

Numa intervenção pública perguntamos a ele:

– Você aceitaria trocar a terra onde está, em Brasileia, por uma terra fértil do mesmo tamanho aqui perto do mercado consumidor?

Wilsão respondeu:

– Quem não aceitaria? A distância de lá para cá é de mais 200 km por uma estrada intransitável cheia de lama e buracos.

A mesma pergunta foi dirigida a Manuel Apurinã ali presente. Ele disse que não trocaria nem por um terreno dez vezes maior. É que para ele a terra era um lugar de memória, um espaço sagrado, onde estavam enterrados os seus mortos, com numerosas referências às narrativas míticas. Sem ela, a cultura Apurinã se esfacelava.

Manuel cantou, então, para uma plateia silenciosa e reverente, uma canção em língua Apurinã. Embora desconhecesse a língua, Wilsão entendeu tudo, percebeu que estava diante de outra cultura, com sua forma específica de ver e lidar com a terra. Manuel disse algo assim como “não é a terra que nos pertence, somos nós que pertencemos à terra. Por isso não podemos sair de lá”. Na versão Guarani, sem tekoá (aldeia) não há tekó (cultura). É no território que eles cultivam o nhanderekó (o “nosso jeito de viver”), que dá conta das relações internas pautadas pela ética do parentesco e pelo ideal de boa convivência.

FORÇAS ARMADAS

Portanto, quando o governo Bolsonaro impede a demarcação das terras indígenas, tal medida, que contraria a Constituição, golpeia culturas milenares e destrói línguas, saberes tradicionais, arte, música, literatura oral. A Funai bolsonarista editou uma instrução normativa que permite o registro de propriedades privadas sobrepostas a terras indígenas em processo de homologação, oficializando assim a grilagem. A juíza federal do Pará acaba de suspender tal excrecência.

Durante quase cinco séculos os índios perderam mais de 87% de seus territórios e com eles suas culturas, que são vitais não apenas para os povos originários, mas para o Brasil e para a humanidade. Por isso, a Constituição de 1988 repactuou: o que os povos ameríndios perderam, perdido está, mas o Estado garante daqui em diante o usufruto das terras que permaneceram ocupadas.

A atual política de um governo que nega aos índios, em plena pandemia, o acesso à água potável, mostra que esse pacto está sendo violado. A garantia da terra aos povos indígenas, como assegura a Constituição, não é apenas uma medida no campo da economia, mas faz parte da própria política cultural. É isso que, entre outras questões, os invasores da reunião não queriam que fosse dito e discutido.

Wilsão era um homem da paz. Liderou o movimento Mutirão contra a jagunçada, que levou centenas de posseiros a tomar dezenas de rifles dos pistoleiros contratados por grileiros, entregando as armas ao Exército.  Wilsão foi assassinado, aos 47 anos, com um tiro pelas costas, mas parece que continua incomodando. E nós com ele. Três vivas aos Estados Gerais da Cultura, à Escola Superior da Paz e às Forças Amadas.

José Ribamar Bessa Freire – Escritor. Professor. Matéria orginalmente publicada no site www.taquiprati.com.br administrado pelo professor Bessa Freire.

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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