RIOZINHO, VOCÊ É MINEIRO, UAI!

RIOZINHO, VOCÊ É MINEIRO, UAI!

Riozinho, você é mineiro, uai!

Por: Iêda Vilas Boas

Depois de criar a Terra e tudo que nela há, o Criador dedicou carinho especial para dar vida ao rio que, tal como criança nascida do ventre da mãe Terra, chorou.

Não se sabe ao certo a razão desse choro. Talvez, tivesse o riozinho recém-nascido premonição de sua triste sina. Ou ainda, com a insegurança própria dos que têm medo do desconhecido, o riozinho chorou. Um choro longo e demorado.

Por horas a fio o riozinho chorou. Era um chororô comprido, uma lengalenga sem fim. Por vezes chorava alto que parecia pororoca quebradeira em desabalada, depois o choro se aplacava e seu som era de água pura de riacho tímido, desses que se curvejam entre as serras.

O riozinho foi crescendo e já menino orgulhava o broto de sua fonte. Encorpou-se e permitiu novas vidas em suas águas cristalinas. Por ali, serpenteavam peixes de todas espécies e cores, uma dança de sutil leveza sacudia as ramagens… uma buliçosa vida aquática fazia festa em suas marolas. Vida boa, pacata e simples a do rio menino.

O moinho do tempo temblando e riozinho virou rio. Volumoso, água farta e generosa. Abundância. Imensidão. Em suas margens foram brotando plantas, bichos e homens.

No começo eram bons. Uma equilibrada e justa convivência estabelecida pelo rio, que de tão bom, passou a ser chamado de Rio Doce como as doces lembranças dos sabiás, cotovias e quero-queros beliscando o dorso do rio. Doce como o espelho do rio confundindo-se com o plácido azul do céu, o dourado do sol e as emanações do argentum lunar.

A cada dia um novo ambiente, uma nova contemplação. A vida do rio seguia rotineiramente, cumprindo seu destino de alcançar o mar. Este era outro medo do riozinho: enfrentar outras águas e mares e lugares. Por mais que se contorcesse, o rio não parava e o rio chorou de novo, com medo da imensidão do mar.

Para cumprir sua sentença e destino, um dia, desaguou no oceano. E chorou, chorou muito. Chorou alto. Suas lágrimas podiam se ver e ouvir de longe. Saltando do sal da água saíam salgadas também. Em seu auxilio a mãe natureza, força espetacular e amorosa, deu seu regaço e acalentou o riozinho. Ele viu que era bom.

Um mundo novo lhe acenava. E seguia seu curso de percorrer caminhos sinuosos, brincar de esconde-esconde com sereias e Iaras para depois abraçar o infinito com a coragem de quem rompeu barreiras e venceu desafios. Era doce seu desaguar, tocando em suas margens a melodia sonora de quem vai levando e trazendo emoções e esperanças.

Um dia houve, brotava aos borbulhões outro rio que o engolia. Rio de lama, de vergonha, de descaso, de tragédia. E dessa vez o rio chorou também, mas seu choro foi abafado e dolorido. O rio não chora mais. Agora, choramos nós.

Rio Doce, meu benzinho, espera que vai passar! Tem fé que você é mineiro, uai!

Riozinho, você é mineiro, uai!

fotos: br.blastingnews.com

Obs.: publicado originalmente em 15 de dez de 2015

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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