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respeito e adoração

Sagrado Indígena

SAGRADO INDÍGENA: Não confunda respeito com adoração…

Por que, em vez de respeitar e seguir os conselhos dos mestres passamos a dever-lhes culto, adoração e obediência? – Estive matutando sobre isso durante a semana, enquanto participava das discussões sobre a realização da I Conferência Indígena da Ayahuasca, a Yubaka Hayrá.

Por Jairo Lima 

Uma coisa que aprendi nessa convivência de muitos anos com os povos indígenas foi entender  a profundidade da palavra ‘respeito’. Palavra esta extensível a muitas coisas, entre estas a busca espiritual.

Deve ser porque os tempos de minhas andanças mais constantes pelas aldeias no Aquiry foram em épocas em que não existia esse ‘booom’ xamânico de butique, de maneira que, para ter acesso aos ensinamentos profundos dos mistérios encantados do huni (ayahuasca) era preciso encarar muitos dias de viagens, suportando os infernais piuns e as agruras do inconstante e mal-humorado clima amazônico.

Não era uma peregrinação em busca de algo, na verdade.

Acreditem que em nenhum momento eu, nesses idos anos, tenha me aventurado em um empreendimento tão caro de ida a uma aldeia tendo como objetivo somente encontrar um ‘pajé’, ou algum mahatma qualquer que viesse a iluminar-me os caminhos futuros e aliviar as dores presentes.

Até porque – e talvez parte da felicidade fosse isso – as ‘redes sociais’ de então se resumiam aos amigos e demais conhecidos da vida pessoal e profissional, de maneira que não havia propaganda ou endeusamento próprio ou de outrem.

Aqui por estas bandas onde o ‘vento faz a curva’ (creiam-me, faz mesmo), a busca espiritual passava ao largo da cultura indígena, margeando somente as igrejas do Santo Daime.

Em muitas ‘rodas de cipó’ (ritual de ayahuasca) vi, ouvi e senti os encantamentos primevos, de onde a raiz do espírito humano brota. Cantos, assopros, assobios e outros sons estimulantes davam o tom e conduziam estas rodas.

Curas e demais iluminações ocorriam em uma dinâmica discreta e profunda, de maneira que a luz bruxuleante das porongas – ou de uma fogueira – transmutavam as formas humanas presentes, dando à cena um aspecto fantasmagórico surreal. Nesse palco encantado o curador e/ou cantor do ritual (ou pajé, para o entendimento simbólico para os leigos) dominava o ambiente, pondo sob suas asas encantadas tudo o que ocorria ao redor de seu espaço de ação.

Nesses rituais rolava, também, aquelas conversas mais reservadas, sussurradas como se todos os ouvidos do mundo estivessem à escuta do que fosse dito. Conselhos, dicas de dietas, rezas ou outros sortilégios eram falados enquanto a energia do huni mareava os sentidos. As palavras ditas nesse estado de percepção atingiam um nível especial, alojando-se fortemente em nosso ‘entendimento’, como se tivessem sido esculpidas em nossa mente.

Muitas vezes, da maneira desprendida de liturgias ou simbolismos visuais, da mesma maneira que começavam, essas rodas de cipó terminavam, com os participantes se dispersando pelo ambiente, indo para suas redes ‘conversar’ com os yuxin da natureza.

No meu caso, em geral, antes de buscar o refúgio privado da rede, preferia ‘aterrissar’ fumando um cachimbo, sentado de frente para o rio da comunidade, deixando meus pensamentos mergulharem neste rio ou se embrenharem mata a dentro. Os sons noturnos da floresta acendiam pontinhos de luz em meus pensamentos, e os flashes multicores se apresentavam ‘aqui e ali’, enquanto meus olhos perscrutavam o ambiente externo, tentando trazer à razão material alguma explicação para este fenômeno etéreo.

Aprendi a ter respeito pelos curadores e demais navegantes dos mistérios sagrados dos yuxin. Buscando entender os processos de iluminação e cura dentro de uma lógica experimental e simbólica de vida, como base para que toda a experiência vivida tivesse lastro em um entendimento que se firmasse em meu Ser, como um ensinamento a ser guardado para sempre.

Aí que está o ponto: respeito.

No dia seguinte destas rodas, mesmo quando em dieta, esses figuras encantados e cheios de força sempre foram dignos de meu profundo respeito e reconhecimento. Coisa que aprendi com a própria comunidade onde estes viviam. Aprendi que dentro da palavra respeito, cabia todo o sentimento necessário para com estes, sem extrapolar os limites que a ele ou a mim cabiam. E esse limite sempre separou o sentimento saudável doutros questionáveis e até mesmo ridículos: adoração ou endeusamento. – E porque cito isso? Bem… me responda você, caro leitor.

Acho por demais estranho ver muitos endeusarem ou adorarem alguém, de carne e osso, com tripa e nó, assim como todos nós. Acharem que o cara (ou ‘a’ figura), por tomar um cipó conosco, nos iluminar com suas canções ou, ainda nos ajudar a alcançar a cura  – vejam bem, o figura não cura ninguém, este auxilia os espíritos a assim fazerem – devam, então, serem adorados e seguidos tal qual um pastor de ovelhas, ou, ainda, que sejam objetos de culto, como se tudo o que emanasse destes fosse oriundo de uma divindade contida em um corpo humano…

Falo isso tudo porque fico só de olho nas coisas, ou mesmo, de ouvidos, e até mesmo presenciando situações que, de tão ridículas, não servem nem para dar umas boas risadas. Tudo bem, que, como já mastiguei em trocentos textos antes deste, nós, crias dessa civilização ocidental sequelada por séculos de todo o tipo de besteirol, superficialidades e dogmas, temos uma carência doentia por gurus e pastores que nos guiem, tal qual faróis de sapiência e luz divina… que bobagem.

Já testemunhei cenas hilárias, como, certa vez, conversando com um querido amigo indígena, de muita luz e força espiritual, observei que, enquanto andávamos conversando uma série de assuntos (entre estes alguns nada espirituais), uma pessoa nos seguia, carregando em uma das mãos um pequeno banquinho (daqueles de pescador) e uma garrafinha térmica, que, certamente deveria ser água. Mesmo com toda proximidade e amizade com esse amigo evitei perguntar o motivo de tão estranha companhia, já que, estava claro que o figura era uma espécie de pajem. Assim, fazendo ‘cara de crepúsculo’ toda vez que de nós se aproximava, acabei por aceitar sua presença, rindo por dentro quando, fazendo menção de sentar-se, rapidamente o figura pôs o banquinho pro txai sentar. Gente, juro a vocês que essa cena descrita é verdadeira.

Então. Moral da história: É preciso entender que devemos ter muito respeito por todos que nos ajudam em nossa vida espiritual e material. Estes merecem ter seu espaço em nossos corações e considerações. Merecem nosso apoio e, ainda, nossa ajuda quando necessário em seus projetos comunitários e, em alguns casos, até mesmo em projetos pessoais (tendo sérias ressalvas quanto a certos projetos pessoais que envolvam construção de templos, ou que envolvam enriquecimento). Porém, elevar à altura de uma divindade digna de adoração é algo prejudicial a todas as partes: tanto a quem ‘adora’ quanto a quem é ‘adorado’.

Não posso dizer que fico ‘de cara’ com quem ache ser todo txai uma espécie de Dalai Lama, cheio de estudo e sabedoria filosófica da vida. Gente…É preciso evoluir espiritualmente a cada experiência, rompendo com essa necessidade de gurus, pois, não é possível evolução quando se está preso em algo tão básico quanto a adoração a um semelhante. E digo que somente os tão interiores quanto nós mesmos fazem questão de ser foco desse estado de adoração constante.

Respeitar de verdade é isso: reconhecer e valorizar toda a força e presença espiritual desses curadores que nos mostraram (e mostram) o caminho sagrado, mas, entendendo que estes são tão humanos e com as mesmas ‘imperfeições’ que nós.

Essa palavra, respeito, em nossa sociedade hipócrita, não tem um significado tão profundo, mas, acreditem, para os povos indígenas, em geral, é a base das relações e do reconhecimento espiritual do indivíduo.

Para que essa expansão benfazeja do mundo espiritual indígena atinja realmente seus objetivos, trazendo para o entendimento espiritual nossa combalida cultura, é preciso que se evitem os excessos e os vícios da mesma, sendo que a divinização de alguém é o pior desses vícios.

Termino essa reflexão de hoje com os pensamentos voltados ao grande evento que teremos em dezembro, e sobre o qual citei no começo do texto. Trata-se da primeira conferência indígena, no Juruá acreano, sobre a ayahuasca. Uma atividade que certamente trará muitas informações e assuntos para ‘matutarmos’ nos tempos que se seguirão após seu encerramento.

Estarei lá, com certeza. Minha mochila está pronta muitos meses antes deste evento ser confirmado, pois, logo após a Aya Conference 2016 que ocorreu no Acre, um ‘passarinho’ me disse que este ano não terminaria sem que os indígenas dessem seu recado, sem interferências e sem o assédio dos ‘nawa’ (não-índios). Quem foi esse passarinho? Bem… quem me encontrar durante o evento e me perguntar responderei com todo prazer.

ANOTE AÍ! 

 

 

Jairo Lima – indigenista e escritor acreano. Jairo gentilmente cede seus escritos, publicados semanalmente  em seu blog cronicasindigenistas.blogspot.com.br para publicação também aqui na Xapuri. Gratidão!

 

 

 

 

 

 

 

https://xapuri.info/elizabeth-teixeira-resistente-da-luta-camponesa/

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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