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Sertanista recebe homenagem de indígenas após protesto contra Bolsonaro

Sertanista recebe homenagem de indígenas após protesto contra inominável

Sertanista recebe homenagem de indígenas após protesto contra Bolsonaro

Durante a  mesa “Pelas vidas dos povos indígenas isolados e de contato recente”, no 18° ATL, lideranças denunciaram a negligência na proteção dos povos

Por Cristina Ávila/via Amazonia Real

O vazio deixado pela devolução da medalha e do diploma de Mérito Indigenista que o sertanista Sydney Possuelo fez ao Ministério da Justiça foi preenchido com uma homenagem que ele recebeu na plenária do 18o. Acampamento Terra Livre (ATL), na quinta-feira (7), onde sete mil pessoas de 200 povos originários discutiam as preocupações e os cuidados que têm com os parentes isolados ou de recente contato. A iniciativa serviu também como protesto contra o governo de Jair Bolsonaro (PL), cujas ações e omissões colocam em risco os povos indígenas isolados ou de recente contato, com o incentivo a invasões em seus territórios de perambulação.
A plenária do ATL citou providências tomadas pelos próprios indígenas, como os Kaxinawá do rio Humaitá, no Acre, que criaram uma barreira sanitária para a proteção dos isolados contra a pandemia da Covid-19, demarcando 50% do território como intransponível. Eles são mais vulneráveis às doenças até mesmo por desconhecê-las, embora sintam claramente os perigos da pressão dos invasores, que exploram recursos naturais nas florestas como madeiras, ouro, caça, peixes e castanhas.
Indígenas de diversas regiões lembraram exemplos de violência, como o assassinato de Ari Uru-Eu-Wau-Wau, no ano passado, em Jaru, Rondônia. Ele trabalhava na vigilância de seu território, registrando e denunciando extrações ilegais de madeira. A TI é considerada uma das mais importantes do Estado, com nascentes de águas que abastecem 12 municípios. É também rica em fauna, flora e é moradia de povos isolados. Professor e agente ambiental, Ari Uru-Eu-Wau-Wau foi encontrado morto aos 33 anos, na estrada do distrito de Tarilândia, com marcas de pancadas. O corpo estava ao lado da motoneta da liderança. 
Adriano Karipuna, também de Rondônia, que este ano fez denúncias sobre o desespero de seu povo ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), disse no ATL que, embora operações da Polícia Federal tenham resultado em prisões de criminosos que invadiam suas terras, as invasões continuam e há cerca de seis meses são vistos sinais de isolados com apelos feitos à Funai para providências, sem sucesso.
ATL22 DIA 04 Sidney FOTO KAMIKIA KSEDJE MIDIA INDIA COBERTURA COLABORATIVA APIB 8Sydney Possuelo com Beto Marubo ao fundo recebe o cocar das mãos dos indígenas
(Foto: Kamikiá Ksêdje/Mídia Índia/Apib)

Beto Marubo, da Terra Indígena do Vale do Javari (AM), acentuou: “A Funai renega nossos parentes isolados”. Ele lembrou do caso da TI Ituna-Itatá (PA), considerada a mais desmatada em 2019 no país, habitada por isolados. “Foi pensada a redução de seu território para agradar políticos vinculados ao agronegócio retrógrado e profissionais que foram para lá para a proteção dos indígenas que foram ameaçados de morte”.
Marubo disse que começou sua luta cedo. “Eu era novo, tinha uns 23 anos quando Sydney Possuelo, que está aqui, me chamou. Trabalhamos juntos e agora vemos a política de proteção aos isolados entregue a ruralistas e a alguns que se dizem indigenistas e são colaboradores desse governo escroto, convalidando esse tipo de coisa. Quando não tem o Estado, somos nós mesmos que tomamos providências. No rio Ituí, Vale do Javari, a base da Funai (de Proteção Etnoambiental) não funciona, por isso formamos uma equipe para proteção das nossas terras. A retórica da Funai é que está gastando milhões para entregar cestas básicas. Lá tem muita anta. Não estamos com fome, caramba! Tem parente dando arroz entregue pela Funai para alimentar pinto porque não gosta de comer isso”, disse.
Quase no final da plenária, Darcy Marubo interrompeu as falas e pegou o microfone. “Em protesto a esse governo racista. Bolsonaro não merece a nossa honra, a nossa dignidade, as nossas mortes”, afirmou, referindo-se ao deboche do presidente da República ao conceder a si próprio a premiação que fora dada a Possuelo em 1987 pela relevância de serviços como funcionário público na Funai.
“Eu convido Sydney Possuelo pra vir aqui, que nós vamos lhe dar um presente em nome dos povos indígenas do Brasil, que ele possa pendurar na casa dele para lembrar para o resto da vida. Que o Brasil respeite a nossa existência, a nossa sobrevivência, a nossa luta. E que no dia da eleição estejamos unidos porque temos uma arma poderosa que é o voto de cada um para mudar esse Brasil. Seu Sydney, Sinésio Tikuna vai dar uma palavra e Alfredo Marubo vai lhe colocar o cocar”.
Sinésio, então, falou na língua materna e, depois, em português, ressaltando a importância da terra livre de garimpeiros, madeireiros, agropecuaristas, invasores. A seguir, Darcy Marubo explicou: “Simbolicamente é de todos os povos. De Norte a Sul todos usam o cocar, com a pena de arara”.Usado em lutas e festas, o cocar foi colocado na cabeça de Possuelo. Depois de alguns rápidos apertos de mãos e abraços, o microfone foi entregue ao sertanista. Mas ele ficou mudo. Nenhuma palavra. Só mostrou por três vezes a garganta, fazendo entender que não conseguiria dizer nada. Passados 30 minutos, já fora da plenária e fazendo esforço para respirar, revelou: “Essa foi a maior emoção da minha vida”.
 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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