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Simeão Urbano Dias: o goiano que criou Jesúpolis

Simeão Urbano Dias: o goiano que criou Jesúpolis 

Quando Simeão Urbano Dias acertou com o padre de Jaraguá o nome para o município que acabara de criar, o povo simples da região o achou um pouco difícil, de pronúncia complicada. Aquelas poucas dezenas de almas preferiam Candidolândia, em homenagem ao pai de Simeão, ou mesmo Simelândia, em honra ao próprio fundador. Mas Simeão fincou pé, e assim nasceu Jesúpolis, a cidade de Jesus, localizada nas terras férteis de uma fazendão antigo, na mesorregião central do interior do estado de Goiás.

Corria o ano de 1956. Como era comum nos confins do Brasil, “Fiote”, o filho mais novo de Virgínia e Cândido Dias, fazendeiros abonados, voltava das férias escolares em Belo Horizonte com intenção de fazer parada breve na Fazenda Pouso Alto. O moço acabara de terminar o ginásio (hoje primeiro grau) e se preparava para seguir os estudos no ramo do comércio. O pai, entretanto, tinha outros planos para o jovem Simeão.

Já fazia anos que as grandes festas religiosas da Pouso Alto vinham crescendo em fama e intensidade, terminando por exigir a construção de uma igreja no meio da mata cerrada. Em torno dela, desde 1948, foi ficando gente, e o local acabou virando um pequeno povoado. Cândido decidiu que para Simeão não haveria mais escola na capital de Minas, que era tarefa do menor de seus cinco filhos cuidar do povoado.

Aqueles eram tempos em que no Brasil agrário a vontade do pai era lei, mas Simeão conta que barganhou como pôde: “Eu fico, mas só ser for pra criar um município, só pelo povoado não fico, não”. Relembrando a prosa agora, confortavelmente sentado no sofá de couro da enorme sala de visitas de seu casarão rosado na praça central da cidade que criou, o único de Jesúpolis com dois pisos e elevador, seu Fiote, como é hoje respeitosamente chamado por toda a comunidade, comenta: “Na verdade, eu estava querendo mesmo era escapar, voltar pra Belo Horizonte, seguir com meus estudos, minha vocação era estudar”.

Já que não teve jeito, Simeão voltou a BH para buscar seus pertences e, de passo, noivar de aliança no dedo com Maria Lúcia, menina bonita que conhecera quando ela tinha 13 anos e ele 20, no ano da graça de 1953. Cartas esparsas era só o que restaria ao jovem casal nos anos seguintes. Simeão tomou pra si a tarefa de transformar aquele agrupado de casas de trabalhadores rurais ao redor de uma igreja rústica em um município com registro legal, cidade sede com lotes, ruas e praças, e tudo.

E como foi criar um município, construir uma cidade? “Naquele tempo era fácil, era só definir a planta da cidade, determinar os limites e fazer o registro do município. Primeiro, viramos distrito do município de São Francisco, desmembrado de Jaraguá uns cinco anos antes, mas logo em seguida saiu nosso próprio registro, e eu comecei a parte mais difícil, que foi a de desenvolver Jesúpolis. Era tudo eu sozinho, aprendendo na marra”.

Pra fazer a planta da cidade, seu Fiote diz que, como não tinha engenheiro, comprou um curso de topografia por correspondência do Instituto Universal Brasileiro e foi montando tudo ele mesmo. Hoje, feliz e orgulhoso, o velho pioneiro conta que à época teve a visita de um dos engenheiros da construção da nova capital de Goiás e recebeu dele os parabéns. “Seu projeto está tão bom quanto os meus, você podia ter planejado Goiânia!”, disse-lhe o visitante.

Elogios à parte, o resto era só dureza: as ruas eram abertas na base do mutirão, com enxadas e enxadões, as estradas para chegar a Jesúpolis, também. Já os lotes, esses eram vendidos em troca de dias de trabalho, tanques de gasolina, cachos de banana. Isso fora os que eram doados para as igrejas, praças e órgãos públicos, para o  que fosse preciso.

O importante era ganhar adesão, era fazer a cidade acontecer e, no coração dela, construir a sede do Racionalismo Cristão, a doutrina espiritualista adotada em Minas por Simeão nos tempos de estudante. Para a sede do Racionalismo Cristão, ele doou uma quadra de 14 lotes, hoje importante mata urbana preservada, bem ao lado de seu casarão.

Cidade mais ou menos estruturada, Simeão resolveu que era hora de cuidar do coração. Maria Lúcia, a noiva mineira, amiga de Márcia e Maristela Kubitscheck, de quem era vizinha de porta, havia se mudado com a família para o Rio de Janeiro, para que o pai, assessor de dona Sarah, continuasse servindo à família quando JK virou presidente. Era lá que Maria Lúcia, de aliança no dedo, sofria o bullying das novas amigas, intrigadas com a fidelidade dela a um noivo “desaparecido” por mais de um ano.

Um belo dia Simeão pegou o avião dos Correios em Anápolis, e chegou ao Rio de Janeiro, pronto pra casar. Entre uma garfada e outra de queijo de minas com goiabada caseira, dona Maria Lúcia relata que o encontro se deu ao final da tarde, quando ela chegou em casa cansada e, ao abrir a porta, “deu de cara” com o noivo. “A primeira coisa que ele fez foi olhar pra minha mão, procurando pela aliança”, lembra. Depois, confirmou com o pai da moça o pedido de casamento.

Embora apaixonada, a ideia de virar fazendeira em Goiás assustou a moça acostumada aos salões da Capital, companheira das filhas do presidente da República. Pediu tempo pra pensar. “Vim pra casar, não pra pensar, ou a gente casa, ou notícia minha você não tem nunca mais,” arriscou-se o moço. O casamento aconteceu três semanas depois, no dia 24 de outubro de 1957, às 9 horas da manhã, no Realengo, tendo por testemunha apenas o motorista de táxi que os levou para o cartório. A família, obviamente, não fazia gosto.

Os dois voltaram pra casa dos pais dela casados, mas lua de mel não houve. “Isso, só lá em Goiás”, disse categórico o pai da noiva. Dois dias depois, o casal pegou o avião dos Correios para Anápolis, ela em pânico com as notícias da nova terra: “Lá em Goiás televisão é toco de árvore, rádio é passarinho cantando em toco de árvore, luz é só em noite de lua mesmo”, aterrorizava o Portuga, ex-patrão de Maria Lúcia.

Não menos traumática foi a chegada da mulher de Fiote à nova morada. “Saímos de Anápolis de táxi. À medida em que ia escurecendo, a estrada ia acabando, e ia só estreitando a trilha no mato. Horas depois, chegamos à sede da Fazenda Pouso Alto. Desço e a primeira coisa que faço é pisar num sapo. De dentro da casa, sob a luz do candeeiro, uma voz feminina anunciou: ‘Fiote casou!’. E foi tudo o que recebemos de boas-vindas.”

Para resistir, em poucos dias Maria Lúcia resolveu assumir múltipla jornada: em casa, aprendia a acender o fogão a lenha, lavar roupa na bica, depenar frango caipira, cozinhar pra peão. Na igreja, começou logo a recrutar alunos. Em 3 de novembro, deu sua primeira aula, tornando-se, assim, a primeira professora do município.

Com o tempo o casal se “ajeitou” na nova vida, teve dez filhos (nove vivos), organizou a vida comunitária, dos partidos políticos às tradicionais festas religiosas, que hoje trazem milhares de pessoas para a cidade. Mas sobre sair candidato, seu Fiote descarta incisivo: “Nem pensar! Meu partido hoje é Jesúpolis, só Jesúpolis mesmo.”

Amante da vida simples, seu Fiote completa: “Eu gosto mesmo é de receber visita e fazer festa. Fico sempre feliz porque todo mundo que vem a Jesúpolis, de jornalista a político, a cantor famoso, passa aqui pra tomar um café comigo. E fico feliz também porque nossas festas são muito bonitas e muito pacíficas, nunca precisam de segurança, nem polícia. Imagine você que este ano, entre as festas de Reis e de São Sebastião (6 a 20 de janeiro), recebemos mais de 15 mil pessoas e não houve uma única briga!?”.

Jesúpolis é hoje um próspero município de pouco mais de 2 mil habitantes, produtor de arroz, batata, abacaxi, milho e, claro, forte na pecuária. A cidade se orgulha da creche de primeiro mundo que recebeu da Dilma, de suas tardes de conversas pacíficas nas portas das casas, de seu nome que, com o tempo, ficou fácil de falar.

Mas, sobretudo, a comunidade jesupolina se orgulha do privilégio de poder conviver, todo santo dia, com a presença amiga de Simeão Urbano Dias e Maria Lúcia Gonçalves Dias. Com o goiano que, há mais de meia década, voltou pra casa pra fundar e cuidar de Jesúpolis e, junto com sua companheira, fez ali história.

zeze 1Zezé Weiss 
Jornalista Socioambiental
@zezeweiss


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revista 115

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

Uma resposta

  1. Muito linda a história dos meus tios. Cresci houvindo essa história. Fui em jesupoJes com 7 anos e guardo grandes recordações. Parabens tios pela determinação.

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