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Só as mulheres cuidam de outras mulheres

Só as mulheres cuidam de outras mulheres

Só as mulheres cuidam de outras mulheres: um agradecimento às enfermeiras

Elas arriscaram seus empregos e denunciaram o anestesista estuprador, que foi preso em flagrante pela polícia…

Por Martha Raquel/via Jornalistas Livres

Um médico anestesista foi preso em flagrante na madrugada desta segunda-feira (11), por estupro de vulnerável. Giovanni Quintella Bezerra, recém formado, abusou de uma paciente durante uma cirurgia cesárea no Hospital da Mulher Heloneida Studart em Vilar dos Teles, São João de Meriti, município na Baixada Fluminense, após aplicar doses extras de anestesia.

O crime só pode ser denunciado graças às enfermeiras que desconfiaram da quantidade de sedativo que o anestesista dava para as pacientes e a forma como ele posicionava o lençol tapando todo o rosto das mulheres. Elas então colocaram um celular num ângulo que pudesse filmar o que o médico estava fazendo com a mulher apagada por trás daquele pano. Foram essas mesmas enfermeiras que denunciaram o crime rapidamente para a polícia que chegou a tempo de prender o anestesista estuprador em flagrante.
Não podemos deixar de notar que somente as mulheres repararam na conduta estranha do médico. É preciso frisar a coragem de agir numa situação dessas, de produzir provas – porque sabemos que nossa palavra nunca tem valor, de arriscar seus empregos – já que é muito fácil um “corte de funcionários” acontecer depois desse tipo de denúncia, além de que a enfermagem sempre é a área mais frágil dentro de um hospital.

Essas mulheres salvaram não só essa vítima como várias outras que poderiam ser as próximas. Giovanni Quintella Bezerra se tornou membro ativo da Sociedade Brasileira de Anestesiologia no último dia 2 de abril de 2022, 100 dias antes de cometer o crime gravado. O estupro aconteceu 5 meses após o anestesista ter se formado e ainda não se sabe se há outras vítimas. Se no início da carreira Giovanni já estuprou uma mulher super dopada por ele, precisamos agradecer às enfermeiras corajosas que conseguiram barrar este estuprador e os crimes que ele poderia vir a cometer.

http://xapuri.info/mais-de-35-mil-criancas-ate-13-anos-foram-estupradas-em-2021/

O Estupro da Consciência

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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