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#SosXavante: “É muito triste, estamos morrendo”

#SosXavante: “É muito triste, estamos morrendo”

PUBLICADO NA RFI

“Não tem alegria não, é muito triste”, diz desolado o cacique Marcão Xavante, por telefone à RFI Brasil, de Campinápolis, a 602km de Cuiabá (MT). O hospital da cidade atende a população de dez mil xavantes de 146 aldeias da região – a mais longe fica a 214km. “Existem mais óbitos entre as populações indígenas – 491 mortes, do que em alguns países da América Latina”, alerta o epidemiologista José Carlos Basta.

O líder xavante explica que cada micro área tem um pequeno posto com um técnico e uma enfermeira, mas que todos estão com medo. Já são cinco óbitos, quatro pessoas internadas e 48 em isolamento. “Os indígenas estão se tratando nas aldeias com remédio caseiro, natural do mato, não temos máscaras, nem álcool gel”, diz.

Segundo a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), até o dia 12 de julho as vítimas eram de 491 mortes, 13.801 casos de contaminação e 131 povos étnicos atingidos no país. Campanhas pelas redes sociais e a imprensa internacional repercutem o descaso do governo brasileiro em relação ao problema.

Saúde e sobrevivência de etnias em risco

“A situação de vulnerabilidade imposta aos povos indígenas no presente momento vai além de problemas ambientais, doenças infecciosas e parasitarias, explica Paulo César Basta, epidemiologista e especialista em saúde indígena. “Os povos indígenas do Brasil na atualidade sofrem um ataque a seus direitos – humanos, originários, constitucionais e territoriais. E com isso estão colocando em risco a saúde e a sobrevivência de muitas etnias. Isso são consequências de ações do governo federal, que tem sistematicamente desqualificado os direitos indígenas e tem fomentado a invasão dos territórios tradicionais”, diz.

“Por conta disso, essas populações vivem em estado permanente de ameaça e vulnerabilidade e têm seus territórios invadidos com frequência por garimpeiros, madeireiros, por toda sorte de pessoas interessadas em ocupar a Amazônia e as riquezas presentes na região. Isso coloca as populações em situação de risco para vários agravos e problemas de saúde”, relata Basta, pesquisador titular na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

“Podemos destacar, em relação à mineração: a destruição do meio ambiente, a devastação do território, a invasão de milhares de não indígenas, a poluição dos rios com o mercúrio utilizado no garimpo, a contaminação dos peixes e das pessoas. Além disso há o risco de transmissão de doenças infecciosas e parasitárias. Sejam respiratórias, como pneumonia, influenza e, atualmente, a Covid-19. Mas também doenças sexualmente transmissíveis, passadas por vetores, picadas de insetos. Costumamos dizer que no rastro do garimpo, segue também a malária”, segundo Paulo Basta.

Vulnerabilidade em várias dimensões

Sobre a questão de os indígenas terem sido uma população mais vulnerável a isso, o especialista diz existir uma polêmica. “Historicamente, muitos grupos étnicos foram dizimados em decorrência de doenças infecciosas e parasitárias, ao longo dos 520 anos da história da colonização no Brasil”, explica o médico.”Muitos foram extintos dessa maneira, principalmente por epidemias de sarampo, influenza, tuberculose, varíola. Então há pontos de vistas de que os indígenas sejam mais vulneráveis na questão imunológica, mas hoje em dia não há uma sustentação científica para embasar essa afirmação”, diz.

“Costumamos dizer que essa vulnerabilidade tem outras dimensões, principalmente ambiental, relacionada às invasões, mas é também social, porque as populações tradicionais estão à margem da sociedade. O Estado brasileiro não oferece os serviços públicos adequados para essas populações, que têm acesso limitado aos serviços de saúde, seja consultas médicas, medicamentos, oportunidade de internação hospitalar, procedimentos cirúrgicos. Têm também acesso limitado à escolarização formal, a emprego, a renda. Isso tudo faz com que as condições de vida sejam bem diferentes da realidade da população urbana. Atualmente a principal ameaça é a Covid-19”, explica Basta.

Envio “absurdo” de cloroquina a indígenas

José Carlos Basta vê o envio de hidroxicloroquina pelo governo às populações indígenas para tratar a Covid-19, “com muita cautela e preocupação”. Segundo ele, “já é reconhecido na comunidade cientifica internacional que a cloroquina não traz benefícios para os contaminados pelo coronavírus”, declara. “Muito pelo contrário, alguns estudos, conduzidos internacionalmente, avaliando um grande número de pacientes nos cinco continentes, demonstraram que o uso da cloroquina ou hidroxicloroquina, tanto em forma isolada, ou em associação com antibiótico macrolídeo, chamado azitromicina, aumentou o risco de mortalidade nos pacientes em cerca de 30%. A ação do governo contraria todas as recomendações internacionais, da Organização Mundial da Saúde (OMS), de autoridades sanitárias e pesquisadores. É muito temerário e absurdo”, declara o especialista.

Mas no uso para combater a malária, Basta diz que o medicamento é eficaz, mas que não pode ser usado isoladamente. “É preciso a associação de cloroquina com primaquina. Até nesse sentido a justificativa do governo não é convincente”, acrescenta.

Medidas emergencias e veto federal

A respeito de medidas que deveriam ser tomadas imediatamente em relação à Covid-19 e os povos indígenas, José Carlos Basta cita ações da APIB (Articulação dos Povos Índigenas do Brasil) e da deputada federal Joênia Wapichana, que montou uma frente parlamentar mista, responsável pelo projeto de lei 1142. Ele propõe ações emergenciais: de subsistência, com fornecimento de agua potável cestas básicas, atendimento médico, testes, tratamento, remoção de doentes, hospitais de campanha nos próprios territórios, entre outros itens.

Já as propostas estruturantes de médio e longo prazo tratam da melhoria da comunicação entre as aldeias, para que profissionais da saúde possam se comunicar melhor com a população, além de melhorias sanitárias, como abastecimento de água, coleta de lixo e saneamento básico.

“Lamentavelmente o presidente vetou vários pontos desse projeto no final da semana passada. Estamos na expectativa de que o Supremo tribunal Federal exija que o governo cumpra as medidas previstas nesse plano emergencial”, diz o epidemiologista Paulo César Basta.

Fonte: DCM

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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