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Tem ar que falta. São cinco mortes por dia. No Rio. Cinco pretos…

Tem ar que falta. São cinco mortes por dia. No Rio. Cinco pretos…

Por Gisele Gama

São cinco mortes por dia. No Rio. Cinco pretos. Baixas no navio negreiro. Baixas na senzala.

“Vamos tomar sorvete? Tá sol hoje!”
“Olha, morreu a menina Ágatha, baleada no morro”.
“Ah, é! Eu vi. Pena. Se apressa, menina, vai dar praia!”

Tem dor no morro. Tem ar que falta. Tem choro sentido. Mas vai melhorar. Pra amanhã doer mais. Dor no navio negreiro. Dor na senzala.
“Gol do Brasil!”
“Que racismo, nada! A gente tem Pelé. Todo mundo ama”.
“E estar na favela é isso. Já sabe que lá é lugar de traficante. Corre risco porque quer. Se estivesse em casa”…
“Baixas necessárias. É guerra”!
“Vamos parar com esse mimimi”.
“Se não é a polícia que mata, é o bandido. Pelo menos a polícia tá trabalhando”.
“Sempre esse vitimismo. Um saco”.
“Não aguento mais. Vou passar uns meses no Estados Unidos pra espairecer”.
“Bora pra praia? No meu carro ou no seu?”
Cinco mortes. Por dia. No Rio. Luto no navio negreiro. Luto na senzala…
Gisele Gama é escritora, doutora em Língua Portuguesa pela UFRJ, mora em Brasília, é  do Rio de Janeiro.
Fonte: Facebook

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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