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TESCOM

TESCOM

Epaminondas Barahuna 

Com o correr dos anos, os fatos, por vezes, adquirem um relevo todo especial. Pequenos episódios, se bastante recuados, assumem proporções bem mais interessantes do que obtiveram contemporaneamente. Acreditamos que não seja precisamente o caso daquele famoso tuxaua de quem nos ocuparemos no presente depoimento, como uma homenagem à sua excepcional coragem e inteligência, que fizeram o seu nome quase legendário.

Para tanto, teremos de recuar bastante no tempo, até a segunda década do presente século e nos situarmos às margens de um afluente do médio Juruá, o Gregório, sem dúvida um dos mais importantes tributários da margem direita daquele grande rio.

Dentre as várias tribos que o habitavam, duas mais se destacaram pela importância: os Caxinauás e os Araras, hostis entre si, não raro entrando em guerra.

O herói desta estória era Tescom, tuxaua dos Caxinauás, forte, robusto, inteligente, um líder excepcional. Impôs-se decididamente que não só perante a sua tribo, como entre as outras, até onde chegava a fama do seu ânimo e das suas proezas. Conseguiu admiração também entre os civilizados, com quem mantinha contatos cordiais e normais, em constantes visitas aos barracões e até mesmo a bordo dos navios.

Em todos os relatos sobre a sua vida, caracterizou-se fundamentalmente pela coragem indômita e pela inteligência. Como guerreiro, manejava naturalmente com esmero o arco e a flecha, mas, por igual operava admiravelmente um rifle “Winchester” 44, o famoso “papo-amarelo”. Era exímio atirador e rápido aprendeu o mecanismo da arma e do seu projétil, improvisando daí um ardil que ainda mais aumentou o seu prestígio entre os companheiros de tribo, que viam nele dotes excepcionais, sobrenaturais, coisas de pajé. Para tanto, afastava-se discretamente para a mata e retirava o projétil de diversas balas, deixando somente a pólvora na cápsula. Feito o trabalho, carregava cuidadosamente o rifle, alternando uma bala com o projétil e outra sem ele. Então estava pronto para se submeter a perigosas experiências, mas sempre rendosas em termos de prestígio entre os seus comandados. A demonstração consistia em entregar a arma a um dos seus caboclos e mandar detonar contra ele. O índio apontava caprichosamente e disparava, mas nada acontecia. Em seguida, ele mesmo apanhava o rifle e disparava contra uma galinha ou qualquer outro animal e a vítima tombava nos estertores da morte. A experiência se repetia e tudo acontecia como era por ele esperado. Estava comprovada a sua natureza extraordinária, excepcional e aumentado o seu respeito entre os silvícolas. Quem, dentre eles, poderia enfrentar um chefe com tais dotes? Esses fatos corriam longe e talvez até mesmo entre outras tribos de quem era inimigo, principalmente entre a poderosa nação dos Araras, cujo chefe, o tuxaua João Teimá, também era prestigioso e bem servido de inteligência.

Dizia-se que quando Tescom conhecia uma tapuia bonita em qualquer tribo e a desejava, ia buscá-la pessoalmente, apoiado tão-somente nas suas armas e na sua fama de hábil guerreiro. Muitas vezes deixou caboclos de queixo caído e bisonhos, por ter arrebatado a mulher preferida. Era absoluto. Reconhecia nos Araras o maior inimigo e por vezes tentou recursos menos cavalheirescos para conseguir a eliminação do adversário.

Certa feita, um conhecido e influente seringalista foi em visita à maloca dos Araras e, logo ao chegar, foi recebido pelo tuxaua João Teimá que o advertiu em termos definitivos: em nenhuma hipótese deveria beber ou comer qualquer coisa que o oferecessem, salvo o que fosse servido por ele próprio, o tuxaua. O visitante ouviu e observou a recomendação, consciente do que poderia lhe acontecer e não foi inutilmente. A certa altura, uma moça bonita, com todos os encantos da glamurosidade indígena, compareceu segurando uma cuia, cujo conteúdo líquido ofereceu como petisco dos mais saborosos, preparado especialmente para tão ilustre visitante. A oferta foi recusada com polidez e o tuxaua chegou ainda a tempo de surpreender a jovem com a cuia na mão. Compreendeu a artimanha e ficou tão indignado que a obrigou a beber violentamente o líquido oferecido. Não havia decorrido quatro horas e a moça estava morta, envenenada com a beberagem que preparara. Foi então que o chefe dos Araras explicou: eu proibi beber qualquer coisa porque pressentia o perigo. Isto é gente de Tescom. Ele queria que o homem branco de prestígio fosse envenenado aqui, para provocar uma violenta reação contra os Araras, mas eu fui avisado.

Se o golpe obtivesse sucesso, Tescom teria conseguido tudo o que mais ambicionava: eliminar os seus combativos inimigos, sem arriscar um só homem, numa guerra cruenta, sob todos os aspectos perigosa e sangrenta.

Certa feira, completamente desacompanhado, visitou a loja de um barracão e desejou comprar cachaça. A essa altura ele já apresentava indícios de haver bebido e, por isto, o pedido não foi atendido. Tescom insistiu e como fosse mantida a negativa, mostrou-se muito zangado, a ponto de quase praticar um desatino. Todavia, se conteve, mas ao transpor a porta do barracão, disparou duas vezes a arma para o ar, numa provocação mal contida e em seguida partiu de volta para a mata. Como ostensiva demonstração de coragem e desprezo por qualquer perigo, fez toda a travessia do campo, até ingressar na selva, sem olhar para trás, como reafirmação de sua indesmentível coragem.

Era assim o tuxaua dos Caxinauás. Sua fama corria longe, principalmente nas selvas, acumulando ódios e sede de vingança, drenando para ele um considerável número de inimigos. Como não podia deixar de acontecer, teve o fim trágico, concedido a tantos líderes que preferiram empreender o caminho das soluções pela força.

Seus principais inimigos, os Araras, estavam sempre vigilantes e nunca o perdoaram. Preparam-se de forma mais cuidadosa para um ajuste de contas final e levaram a guerra aos Caxinauás. Usando a estratégia indígena, foram surpreender o inimigo, quando entregue a uma pescaria, num lago, dirigida pelo próprio Tescom. Este foi atacado quando, de pé, sobre uma árvore caída no lago, dirigia o trabalho, empunhando arco e flecha, que não chegou a usar.

Os Araras atacaram de surpresa e atingiram em primeiro lugar o grande líder caxinauá que caiu irremediavelmente ferido, morto. Sua fama foi legendária na época, possibilitando que, num preito de admiração, várias crianças nascidas posteriormente fossem batizadas com o nome de Tescom, num testemunho da admiração por ele imposta aos moradores civilizados daquelas selvas, daqueles barrancos.

Convenhamos que foi muito, para um chefe indígena. Ele aqui foi lembrado como testemunho à sua coragem e inteligência. Ainda que sem os grandes lances guerreiros de um Ajuricaba e tantos outros chefes indígenas que enriquecem as páginas da nossa história, Tescom viveu sempre dentro das suas limitações, da sua área e da sua época, mas seguramente como um bravo e um homem dotado de excepcionais qualidades que o distinguiram entre índios e civilizados.

BARAHUNA, Epaminondas. Estórias Amazônicas. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1974. p.51-55

Fonte: Alma Acreana

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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