Vitória dos inimigos do povo, Messias é barrado ao STF
Em sessão, na última quarta-feira (29), o Senado rejeitou a indicação de Lula ao Supremo Tribunal Federal
Por Arthur Silva/Revista Xapuri
Por vezes, a liturgia do cargo não segura o tranco da política. E foi isso que se viu no plenário do Senado: a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal foi rejeitada, algo que não acontecia desde 1894.
O placar (42 a 34) não deixa dúvida sobre a correlação de forças. Pela primeira vez desde 1894, o Senado derruba um indicado ao STF. O gesto desvela a capacidade de articulação de uma maioria conservadora disposta a tensionar o Executivo e disputar, de modo arbitrário, o cenário político.
A derrota ganha contornos mais expressivos porque vinha precedida de uma vitória na Comissão de Constituição e Justiça, onde passou por 16 a 11 após oito horas de sabatina. No plenário, no entanto, a correlação de forças foi outra. E mais dura.
Com a indicação arquivada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de apresentar um novo nome para a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso.
A sabatina de Messias condensou temas que hoje inflam o país: conflitos agrários, aborto, ativismo judicial e os desdobramentos do 8 de janeiro. No campo, defendeu a conciliação como caminho, palavra que repetiu como quem tenta conter incêndios com diálogo. Sobre o marco temporal, manteve a linha constitucional: não há negociação possível fora do que está escrito.
No tema do aborto, foi taxativo ao marcar sua posição pessoal contrária, ao mesmo tempo em que buscou acalmar o Senado ao afirmar que não atuaria de forma “ativista” no Supremo. Já sobre o 8 de janeiro, classificou os ataques como um dos episódios mais tristes da história recente e lembrou sua atuação na defesa do patrimônio público.
Uma figura que rodeia a queda de Messias é, curiosamente, Davi Alcolumbre. O presidente do Senado já chega à sessão com o termômetro da rejeição nas mãos, e atua a partir disso. Nos bastidores, move peças, calibra votos e deixa correr uma articulação que não apenas derrota o nome de Jorge Messias, mas reafirma seu próprio peso político na Casa.
Ainda assim, o movimento é ambíguo: ao mesmo tempo em que se impõe diante do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Alcolumbre se expõe ao efeito rebote entre possíveis retaliações do Planalto e a desconfiança de setores da direita que não o veem como aliado automático. É o tipo de vitória que consolida poder no curto prazo, mas cobra fatura no seguinte.
Mas a política também é feita de gestos. E, ali, o gesto mais comentado foi o choro. Ao falar da fé evangélica e da família, Messias se emocionou. Disse-se “servo de Deus”, reafirmou sua identidade religiosa e foi aplaudido. Recebeu até abraço de opositor — rapidamente convertido em ruído entre aliados.
No fim, porém, nem a técnica, nem o discurso, nem o afeto bastaram. O Senado fez história ao rejeitar o nome. E, no processo, deixou evidente que o Supremo segue sendo um dos terrenos mais sensíveis da disputa política brasileira.
Capa: Edilson Rodrigues/Agência Senado










