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Todos nós vamos morrer, mas a morte não é assim tão lógica

Todos nós vamos morrer, mas a morte não é assim tão lógica
 
Numa reflexão atual, diante da conjuntura imposta pelo desgoverno em que vivemos, o autor fala sobre a morte e os vários modos de morrer: a depender de seus privilégios…
 
 
Todos nós vamos morrer. Sim, todos nós vamos morrer um dia.
Mas alguns, antes de morrer, serão atendidos nos melhores hospitais, outros não terão tempo.
Sim, todos nós vamos morrer um dia, mas uns vão para o exterior em busca de um diagnóstico mais adequado que possa adiar a morte, outros vão morrer nas ruas, sem luxo e sem pompa.
Todos nós vamos vamos morrer, mas uns vão desfrutar de vantagens, auxílios e pensões vitalícias, enquanto outros vão morrer à míngua.
Sim, todos nós vamos morrer. Uns serão assassinados com mais de oitenta tiros, outros levarão tiros nas costas, disparados por atiradores de elite.
Uns vão morrer ao lado de suas famílias, outros serão enterrados sem identificação. Uns vão morrer de velhice, outros morrerão ainda crianças, de fome ou de desnutrição.
Todos nós vamos morrer.
Uns serão homenageados, outros não serão lembrados por ninguém.
Uns vão morrer de gripe, outros de depressão.
Alguns vão morrer ainda jovens e seus corpos crivados de balas vão matar seus pais aos poucos.
É uma regra simples e rasa: todos nós vamos morrer.
Mas a morte não é assim tão lógica.
A morte carrega consigo uma causa ou um causador.
De um olhar frio e distante, ela haverá de parecer o resultado de uma equação.
No entanto, as guerras, os genocídios, os massacres, as epidemias, as balas perdidas, a fome, a miséria, não constam nos atestados de óbitos.
Todos nós vamos morrer… mas uns vão morrer em condições bem melhores do que outros.
 
Fonte: Facebook

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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