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Uma carta para Jaime Sautchuk

Uma carta para Jaime Sautchuk

Altair Sales Barbosa é, além de um querido, é o colaborador e parceiro mais longevo da Xapuri. Está conosco, em todos os números, desde a edição 02.  Como dizia o Jaime, de quem foi grande amigo, “Altair é o mió dos mió, o mais sabido de nóis.” Mil gratidões, Altair! Zezé Weiss, editora da Revista Xapuri.

Por Altair Sales Barbosa

Estimado amigo e irmão Jaime Sautchuk, como evolucionista que sou, tal como você, nunca acreditei muito ou quase nada nessas coisas de alma, céu, ou algo desse tipo. Mas uma coisa é quase certa para nós: os imortais, como você, nunca morrem, se transformam em ventos e navegam nas correntes aéreas por mares, oceanos e terras distantes.

Diz um mito indígena que, através dos ventos, podemos nos comunicar.   Já tentei várias vezes, mas não consegui, daí a razão de lhe escrever esta carta e soltá-la nas asas do vento. Quem sabe, um dia, ela possa encontrar o amigo.

Está lacrada com material leve e impermeável, feito asas de cigarra. No centro do invólucro, desenhei a letra X pintada de amarelo e vermelho, para que alguém, ao encontrá-la, logo possa associá-la à Revista Xapuri e, assim, fazê-la chegar ao destinatário correto: você.

O conteúdo não tem muita coisa importante, mas certos assuntos sempre gostamos de compartilhar, para não ficarmos falando sozinhos, feito gado ruminando no pasto. É como se diz lá no Sul: enquanto a chaleira chia, o amargo vai cevando e, nesse meio tempo, entre uma cuia e outra de chimarrão, vamos proseando, apenas para aliviar uma ou outra mágoa ou, quem sabe, talvez clarear um pouco a mente.

Amigo Jaime, você conhece bem como foi minha infância, lá no longínquo interior da Bahia, rancho de pau-a-pique, infestado de barbeiro e percevejo. O certo é que quando vejo as críticas indiscriminadas quanto ao uso dos chamados venenos, me vem à lembrança que eu sou um sobrevivente da ação do DDT. Às vezes, amigo, me dá a impressão de que o modismo é mais confortante e cômodo do que o conhecimento.

Mas eu consegui sobreviver às custas de acontecimentos imprevisíveis, sobre os quais eu nem sonhava, e tudo foi-se modificando. Um dia (muito triste nas minhas lembranças), pela vontade de meus pais e de meus avós maternos, tive que deixar o local onde vivia, para estudar num centro maior, e Goiânia era o destino mais fácil.

Naquela época, as estradas eram trilhas, feito serpentes que rastejavam pela belezura incomensurável das veredas. Não existiam pontes nos rios, e o velho pau-de-arara, fuçando feito um cão farejador, capengava em direção às nascentes, para contorná-las até estacionar em um ponto da capital de Goiás, após seis a oito dias de viagem.

Era fim de tarde quando minha mãe, eu e meus dois irmãos, e mais algumas dezenas de rostos, procurávamos um lugar aconchegante na carroceria do caminhão, entre sacos de farinha, fardos de rapadura, tonéis de cachaça e latas de querosene jacaré, que era usado para abastecer a condução durante o trajeto.

O caminhão, também conhecido por “chavriolé”, estava estacionado numa parte plana e alta, bem na entrada dos Gerais. Em sua volta, uma multidão de pessoas conversava e se despedia.

Sentado num saco de farinha, entre a multidão, vi meu pai, que não pôde nos acompanhar, pois ficou para cuidar de outros afazeres. Na despedida, vi também meus eternos colegas e amigos de infância. Lá no fundo eu sabia que jamais voltaria para morar naquele local, nem para brincar com os meus amigos. E quando o caminhão começou a serpentear pelo areião, meu coração sofreu um apertume de saudade.

Não sei depois o que aconteceu com minha vida, foi tudo muito rápido, como um sonho bonito… Quando acordei, já era professor universitário, requisitado por muitas outras universidades da América, conhecido pelos meus artigos, em cantos da terra que eu nem pensava existir.

Mas nada disso tirou da minha lembrança a figura dos meus colegas amigos e do povo daquele lugar, muitos dos quais nunca mais vi, pois a morte precoce, provocada pela picada de insetos ou pelos vermes da esquistossomose ou “xistosoma”, como eram conhecidos no local, e que infestavam os riachos de água parada, como um cutelo afiado ceifou muitas daquelas vidas, sem piedade.

Então, amigo Jaime, você sabe como sobrevivi, e hoje ando pra lá e pra cá, procurando entender a vida dos humanos. Para isso, tive que agregar aos meus conhecimentos de antropologia, arqueologia e geologia os conhecimentos oriundos da mecânica quântica e da matemática do caos, da teoria de sistemas, do efeito borboleta e dos fractais.

Isso foi muito positivo, pois alargou, para além da sua amada Linda Serra dos Topázios, o meu horizonte de conhecimento. Fico horas passeando com os robôs pelo solo de Marte, querendo tocar nas rochas. Recentemente, meu amigo, criaram um telescópio denominado James Web, e o soltaram no espaço.

Com ele, viajo por imagens espetaculares e chego até as bordas do universo. Será que o universo tem bordas, amigo Jaime? E, neste meu viajar pela vastidão do pequeno e do grandioso universo, indago: Como o ser humano conseguiu tanta tecnologia?

Hoje, somos capazes de compreender basicamente o comportamento do espaço, tempo, da matéria e energia, desde o Big Bang até os dias atuais. Considero isso, meu irmão Jaime, talvez a maior conquista do pensamento humano.

Atualmente, temos uma visão mais fidedigna do tempo. Foi no fim da era Planck, por exemplo, Jaime, ou seja, no primeiro trilionésimo de trilionésimo de trilionésimo de segundo, que a gravidade, tal qual como a conhecemos, se desprendeu das outras forças do universo:  eletromagnéticas e nucleares.

Alguns, muito raros humanos estão aprendendo a racionar os fenômenos na dimensão da totalidade do tempo. Infelizmente a maioria ainda raciocina na dimensão do tempo do homem e, com isso, tenta explicar fenômenos, como por exemplo as mudanças climáticas, dentro dessa dimensão. Chega a ser ridículo.

Entretanto, meu amigo, nós os humanos nunca conseguimos nos desgarrar do egocentrismo, que nos é peculiar desde as origens.

 O raciocínio da maior parte dos ditos intelectuais tem como base o conceito de desnaturização. A desnaturização é um comportamento de vida, fenômeno pelo qual o homem julga não fazer parte de mundo natural, afastando-se dele e atribuindo a si próprio um poder divino sobre os outros elementos do meio ambiente, com consequências impossíveis de serem previstas, dentro dos parâmetros de ciência que hoje a humanidade possui.

Desde que surgiram na África, após uma série de processos evolutivos e adaptativos coroados de êxito, esses primeiros humanos, conhecidos como Homo-habilis, começaram a desenvolver comportamentos egoístas e extremamente possessivos, que levaram à extinção várias espécies de animais, incluindo alguns dos nossos primos. Também fizeram guerras entre si e, possivelmente, levaram à extinção alguns grupos dissidentes. 

À medida que as técnicas foram se desenvolvendo, tornando-se mais eficientes para seus propósitos, o gênero Homo se tornou uma espécie cosmopolita e, por onde passava, deixava marcas de destruição e extinção.  Eles eram ainda caçadores-coletores.

Depois daquele tempo, várias noites, vários dias e várias estações se passaram e, após longos processos de aprendizagem e de adaptação, uma revolução no modo de ser de alguns humanos começa a se desenhar numa nova e mais complexa forma de vida.

Eles aprenderam a domesticar as plantas e os animais. Esse fator os transforma de nômades em sedentários e os obriga a construírem moradias fixas para protegerem suas hortas e criações, tanto dos predadores humanos, como de outros animais.

Essa nova organização social, chamada inicialmente de aldeias, traz no seu bojo uma série de problemas, que vão desde aqueles ligados aos relacionamentos sociais até problemas de saúde, partilha dos bens etc., resolvidos quase sempre com a cisão dos grupos.

Mas, de maneira geral, parece que a abundância superou as vicissitudes e logo essas aldeias se transformam em cidades, que imediatamente vão se constituindo em impérios. Para a construção dos impérios, os humanos que os conceberam, embora esse processo seja fruto de exigências sociais e políticas, quase que imperceptíveis, num primeiro momento, engendram mecanismos de dominação política.

Num segundo momento, começam a proporcionar as primeiras grandes modificações nas paisagens, exploram pedreiras, constroem castelos, templos, campos de jogos, recreação e competições, constroem aquedutos, sistemas rudimentares de esgotos destroem plantações nativas para implantar grandes campos de cultivo, e assim segue sua marcha.

Entretanto, é bom salientar, nada disso seria possível sem o surgimento de uma sociedade estratificada socialmente e obediente às divindades e crenças impostas de forma cruel e sanguinária. Dessa forma, foram construídos os grandes impérios, ilustrados por alguns dos quais assim denominados: Império Hebraico, Império Faraônico, Império Grego, Império Romano, Império Otomano, Império Asteca, Império Inca etc. Assim como os novos impérios, que surgiram depois da época das grandes navegações.

Uma dinastia, ligada diretamente a uma divindade, se organizava em torno dela, um grupo de obedientes ordenadores, que por sua vez organizavam grupos de guerreiros, exércitos, que davam ordens, ou escravizavam hordas estranhas ao seu bando para fazerem os trabalhos pesados.

Com o incremento desse modelo, deu-se ao luxo de escravizar continentes quase que por inteiro, porque os povos que possuíam costumes estranhos, que andavam nus ou que fisicamente eram diferentes não eram considerados seres humanos, precisavam ter um Deus e precisavam também pensar como aqueles que lograram mais poderio bélico.

Sociologicamente surge a ideologia dos incluídos e excluídos, que permite aos humanos escravizarem outros humanos e os venderem e trocarem como mercadorias. 

O modelo de universidade, casa da sabedoria, imposto no mundo ocidental, contribuiu largamente para o embasamento científico da desnaturização do homem, uma vez que separou os saberes em ciências humanas e ciências naturais, modelo cujos frutos colhemos até os dias atuais. Não há interdisciplinaridade, nem distinção entre o êmico e o ético.

Porém, é bom também salientar que as intervenções humanas, que começaram a permear a ciência vêm, desde a revolução neolítica, com o cruzamento entre espécies de uma mesma característica física, para adquirir certa homogeneidade de raças. Isso aconteceu com os galináceos e com os cães, seguida pela castração de touros, para impedi-los de deixar descendentes e torná-los mais mansos para o trabalho pesado.

A castração dos seres humanos, criando a classe dos eunucos, para cuidarem dos haréns, é só a ponta do iceberg de uma grande revolução que estamos começando a vivenciar: a engenharia genética e a inteligência artificial.

Se tudo isso, aliado aos avanços eletrônicos, já nos causa surpresas, às vezes desagradáveis e espantosas, devemos nos preparar muito mais para o que nos aguarda com os resultados da engenharia genética, as possibilidades incertas da inteligência artificial, a vida biônica e até com a possibilidade de outras vidas. Somos mais poderosos do que nunca.

Embora o homem tenha uma dentição que lhe permita uma alimentação omnívora, foi o consumo da carne, o forte atributo que lhe permitiu seu ¨sucesso¨ evolutivo. Impediu que tivesse um tórax volumoso e, como consequência, um intestino relativamente pequeno.

Como não tinha que passar grande parte do tempo mastigando folhas, para adquirir os nutrientes necessários a um balanço dietético, sofreu a redução da mandíbula, que impulsionou o desenvolvimento do crânio, possibilitando conexões altamente complexas.

Após a domesticação dos animais, o homem moderno ficou cada vez mais exigente, nesse hábito carnívoro, o que obrigou os produtores desse bem de consumo a criarem métodos extremamente cruéis, para atender o requintado paladar desse homem moderno.

Para produzir uma carne macia e suculenta, os bezerros machos, ao nascerem, são colocados individualmente e com impeditivos visuais, numa minúscula jaula de madeira, onde são impedidos de qualquer tipo de movimento que possa contribuir para a formação de músculos.

Aí, o bezerro passa o resto de sua vida, cerca de quatro meses e meio, sem pegar sol, sem conhecer outros seres da sua espécie, nem mesmo brincar com outros bezerros ele pode. Recebe uma alimentação especial, que o faz engordar mais rapidamente. A primeira vez que esse bezerro tem a chance de caminhar e conhecer outros seres da sua espécie é quando entra no corredor da morte para ser abatido.

Em termos evolutivos, pensando somente no êxito humano, o boi representa um símbolo da prosperidade humana, mas também demonstra o lado cruel da humanidade. Dizem que nas terras ricas das arábias se dão até o luxo de saborearem um tal bife de ouro.

Ao mesmo tempo que age dessa forma, o ser humano comete outros tipos de crueldade com animais domésticos, crueldade às vezes disfarçada de amor.

Quando, ingenuamente, tenta mudar os hábitos instintivos das diversas raças de cães e gatos, alguns criados com requintes de bebês humanos, usam roupinhas e até lacinhos de fita como enfeites, são carregados em carrinhos, e até mesmo chamados de crianças.

Existem festinhas de casamento, estilo ocidental, para cães, onde a fêmea usa grinalda e o macho, terno no estilo humano. Recentemente estão sendo criados canais de TV especiais para cães e gatos. Eu gostaria até de tentar entender como funcionam esses canais, pois a visão estereoscópica é própria só dos primatas. Nos tradicionais festejos humanos, como festas natalinas, é comum esses animais se vestirem como Papai Noel. E, pasmem, já existem até cultos religiosos para cães. Como é confuso e complicado o ser humano!

Os cães e gatos estão entre os animais mais predadores do planeta. Quando criadas em cativeiro, todas as espécies silvestres que tentam intrometer em seus domínios são rapidamente destruídas.

As aves perdem seus ninhos, os pequenos répteis, como os calangos e as lagartixas, são trucidados. O mesmo acontece com alguns mamíferos, como o macaco-prego, os micos, os bugios, o tamanduá-mirim, tamanduá-bandeira, a raposa, o quati, o gambá, o tatu, o preá campestre e outros roedores, e até o lobo-guará.

O modelo de exploração do campo, juntamente com a ausência do Estado, com seus serviços essenciais, escolas e hospitais, tem provocado no Brasil um fenômeno extremamente preocupante, que é a desterritorialização das populações. Todos os dias, dezenas de famílias oriundas do campo, chegam às cidades, rompendo em estilhaços qualquer tipo de plano diretor.

Como sabe, amigo, a partir da década de 1970, inicia-se um processo migratório e a ocupação em massa das áreas urbanas, fazendo com que crescessem de forma desordenada e avassaladora, reduzindo drasticamente os espaços naturais e os transformando em ecossistemas artificiais. Para dar passagem ao automóvel, reduz-se a largura das calçadas e faz-se o alargamento das ruas. As áreas marginais aos córregos urbanos, são transformadas em pistas pavimentadas de alta velocidade.

Um ou outro parque com bosques exóticos são construídos, mas com o objetivo de proporcionar maior satisfação aos humanos. Por isso, vários equipamentos de ginástica e áreas de lazer e serviços são implantados. E, assim, as cidades continuam seu crescimento cada vez mais acelerado e estressante.

Os elementos da fauna nativa, com esforço adaptativo, migram para as áreas periféricas dos grandes centros urbanos, na busca de elementos naturais que possibilitem a sobrevivência.

Entretanto, nas últimas décadas, os humanos de maior poder aquisitivo, estressados com o ritmo das cidades, buscam ambientes mais calmos. Mas esses ambientes estão situados no outrora anel periférico das cidades, mais ou menos preservados, para onde os animais silvestres fugiram.

E, nesses locais, são implantados os condomínios residenciais, com segurança muito bem estabelecida e, por incrível que pareça, com áreas verdes, que são preservadas em virtude de exigências legais, franjas de matas ciliares ao longo dos córregos, que porventura limitam com estes empreendimentos e uma outra área também preservada por exigências legais.

Mas os humanos que saem das cidades em busca de uma vida alternativa, teoricamente mais tranquila, levam para esses locais os vícios das cidades. Ou seja, abandonam a cidade, mas a cidade não os abandona. Dentre seus inúmeros hábitos citadinos, carregam para esses lugares seus cães, alguns ferozes, e seus gatos, que logo entram em atrito com os poucos e valentes animais silvestres, que teimosamente insistem em sobreviver nos últimos vestígios de áreas mais ou menos preservadas que a natureza lhes havia reservado.

Não é preciso continuar a história, o final dessa todos sabemos, e os humanos, uma vez mais triunfantes comemoram de forma efêmera sua vitória.

 Outro assunto que muito me incomoda, meu grande amigo Jaime, é que me parece que as pessoas estão cada vez mais perdendo a noção histórica do passado, e olha que não sou daqueles que acham que o passado teve como objetivo a construção do tempo atual.

Mas os erros do passado não são levados em consideração, quando, por simples ideologia, vedamos os olhos. Para quem sempre trabalhou com a Ciência, você sabe, meu grande amigo, o quanto isso incomoda. Por isso, sinto uma falta danada de suas reflexões e sabedoria.

Como comecei esta carta dirigida a você contando algumas histórias, vou terminá-la com uma história simples dessas que compõem o universo do homem interiorano, mas tenho certeza, Jaime, que você a entenderá, pois ela ilustra a situação da falta de memória do povo brasileiro que mencionei.

Contam que num desses locais do interior do Brasil existia uma pessoa muito esquecida das coisas. Certo dia, essa pessoa, que é morta, voltava de sua pequena fazenda para a cidadezinha onde morava e que distava cerca de uma légua.

No meio do caminho, sentiu vontade de fazer as necessidades fisiológicas. Escolheu um bom local meio limpo e tranquilo, tirou o facão com a bainha, que estava atrelada ao cinto, e dependurou num galho. Posicionou-se, então, de cócoras e, em meio à tranquilidade do ambiente, enquanto dava andamento ao serviço, pôs-se a pensar na vida.

De repente levanta os olhos, enxerga o facão dependurado e exclama: “Alguém esqueceu um facão por aqui”. Terminado o serviço, pensou: “Já que o facão está nesse ermo, vou levá-lo.  se o dono aparecer, tudo bem. Se não, fico com ele para mim”.

No que deu a volta sobre o corpo pra pegar o facão, pisou na merda. Como estava descalço, o que era comum pras bandas daquele interior, sentiu que a merda ainda estava quente; então, com a sabedoria que lhe era peculiar ainda exclamou: “Uai, o facão deve ter sido esquecido há pouco tempo, porque a bosta ainda está quente!”

É isso, meu amigo e irmão, você anda fazendo falta.

Um grande abraço deste amigo, que nunca lhe esquece.

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Jaime Sautchuk

Altair Sales Barbosa – Antropólogo e arqueólogo, o professor Altair é também colaborador voluntário, escritor e conselheiro da Revista Xapuri. Esta matéria, em homenagem ao Jaime Sautchuk, é também nossa homenagem ao professor Altair, que segue conosco na saudade e no compromisso de preservar o legado e a memória do Jaime.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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