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Vê bem, Maria, o leito de morte do negro e do solimões

Vê bem, Maria, o leito de morte do Negro e do Solimões

“Yo soy un río / 

Hay árboles a mi alrededor / 

sombreados por la lluvia.  

Yo soy el río que viaja dentro de los hombres, / 

árbol fruta rosa piedra mesa” (Javier Héraud. El río. 1960).

Por José Bessa Freire 

Corria o ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1907. Era uma época em que os rios Negro e Solimões ainda exibiam toda sua potência de água. O poeta cearense Quintino Cunha levou Maria, sua amada, para contemplar o espetáculo do encontro dos dois rios, que se alentam mutuamente, tal como as recordações com a saudade:

Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este

É o rio Negro, aquele é o Solimões.

Vê bem como este contra aquele investe

Como as saudades com as recordações.

O poeta morreu em 1943, mas agora, nesta quinta-feira, 2 de novembro, Dia dos Mortos, levou um baita susto num diálogo em sessão mediúnica:

– Quintino, sabe quem morreu?

– A mulher do Zebedeu e eu – rimou ele com sua a verve de moleque.

– É sério. O Negro e o Solimões estão agonizando no leito de morte – desbrincou o médium falante.   

– Putain, ça alors!

Essa expressão de assombro, dita com sotaque cantadinho de Uruburetama, Quintino aprendeu em visita a Paris, quando a borracha valia mais do que ouro. A poesia, porém, era mais valiosa do que a borracha, por isso uma editora da França publicou Pelo Solimões, seu livro de poesias, com o apoio de três franceses: Émile Faguet, crítico literário; Jean Richepin, o “poeta da monstruosidade” e Stephen Pichon, ministro das Relações Exteriores, encantados com a última estrofe do Encontro das Águas:

Se estes dois rios fôssemos, Maria,

Todas as vezes que nos encontramos,

Que Amazonas de amor não sairia

De mim, de ti, de nós, que nos amamos…

Grafico: Divulgação/ Greenpeace Brasil

CADÁVER DOS RIOS 

Talvez esses versos tenham enfeitiçado os franceses por evocar o encontro das águas verdes do rio Marne com o Sena cantado, entre outros, pelos Frères Amara na ponte Saint-Louis diante dos ouvidos videntes da poeta Marilza Foucher. 

Hoje, no entanto, o desencontro do Negro com o Solimões já não produz amor e poesia, mas fome, tristeza, desolação. Os dois, gravemente enfermos, estão morrendo como outros rios, cujos cadáveres permanecem insepultos, junto com as carcaças de milhares de botos e de peixes nos lagos e rios secos.

No período de 2016 a 2021, foram mais de 2 mil quilômetros de rios destruídos pelo garimpo ilegal, dos quais 632,8 dentro dos territórios Munduruku e Sai Cinza, no Pará, além de 6.780 hectares de áreas, dos quais 6.004 no desgoverno do Coiso, segundo denúncia do Greenpeace Brasil formalizada no Ministério Público Federal (MPF).  

A morte dos rios não é morte morrida, é morte matada. Os rios estão sendo envenenados como documentou o saudoso Mauro Leonel, professor da USP, em A morte social dos rios, no qual relaciona meio ambiente, história social e ambiental e estuda a relação do poder com a malha fluvial desde o Brasil colonial. Mostra como os criminosos se apropriaram dos rios, contaminaram e adoeceram o sistema hídrico e alteraram o balanço de entrada e saída de águas.

Fontes da vida de gente, peixes, aves e plantas, os rios, quando mortos, impactam todo o ecossistema e a saúde daqueles que têm nos peixes a principal fonte de proteína. Rio é mesa farta, cantava o poeta peruano Javier Heraud, mas pode também ser sepultura, como a dele, morto aos vinte anos, metralhado pela polícia numa balsa no rio Madre de Dios, afluente do Beni, que deságua no nosso rio Madeira.

RIOCÍDIO 

Vê bem, Maria, as imagens de satélites do sistema LandSat documentam a morte de rios, que afeta não só os ribeirinhos, impedindo seu acesso a alimentos, posto de saúde, remédios, trabalho e escola, mas a própria indústria dos centros urbanos dependente do transporte hidroviário de mercadorias. Empresas da Zona Franca de Manaus deram férias coletivas a milhares de trabalhadores.

Maria, vê bem como as secas concorrem para o desmatamento, os incêndios florestais e as mudanças climáticas, aumentando os índices de emissões de dióxido de carbono (CO2). Vê bem, Maria, como Manaus e outras cidades estão sufocadas por nuvens de fumaça. Maria, você viu a neblina causada por mais de 7 mil focos de queimadas no Amazonas? Outra Maria, minha irmã do Céu, a caçula, acaba de me telefonar aos prantos e tossindo: 

– A fumaça chegou ao nível do insuportável. Tá difícil respirar e abrir os olhos, mesmo com tudo fechado – ela diz. São nove irmãs, dois irmãos e algumas dezenas de sobrinhas e sobrinhos, além de 2 milhões de pessoas residindo em Manaus asfixiadas por criminosos ambientais.  

Vê bem, Quintino, aqui se cruzavam as águas desses leitos esturricados do Negro com o Solimões. Na tua época, esses rios eram alimentados por afluentes e igarapés, como o Mindu, que tanta alegria trouxe ao lazer dos amazonenses e hoje é um esgoto a céu aberto. Os que o mataram alegam, como o nazista Netanyahu, que têm “o direito de se defender” sob os infames aplausos de Jorge Pontual da Globo News.

Quintino, lê bem os versos do poeta espanhol teu contemporâneo, Antônio Machado, para quem “a vida flui como um rio caudaloso.  Ou a trova de Javier Heraud que nos assegura: “o rio viaja dentro dos homens”. Só mesmo os poetas para confirmar a visão dos povos originários sobre os cursos d´água. 

O sábio Alexandre Acosta Guarani em relato recolhido por Marcos Moreira diz que o Guarani não polui a água, pois o rio é o sangue de um Karai, que corre pelas veias da mãe terra. A terra tem alma, é uma pessoa, é sagrada”. Ou como adverte Aturi Kaiabi:

Eu sou a água que mata a sede

onde eu não estiver

você se lembra de mim.

Grafico: Divulgação/ Greenpeace Brasil

QUEM VAI SEGURAR? 

Os Kaiabi, falantes de uma língua da família tupi-guarani, foram transferidos à força para o Parque Indígena do Xingu, liberando o vale do caudaloso rio Teles Pires, que se une ao Juruena, para formar o rio Tapajós. 

Uma parte deles resistiu e ficou. Muitos Kaiabi são poetas. Um deles, Yanin Kaiabi, escreveu poema no qual parece comparar Maria com a água e Quintino com a pedra. Pergunto a vocês dois, que estão no outro plano, se sabem quem é que vai segurar.

QUEM VAI SEGURAR?

A água namora com a pedra

A pedra sempre feliz vai ficar

A água corre no rio e esse rio cai no mar.

O ar segura o mundo

E o mundo segura o mar

Os dois seguram os homens

E os homens será que vão segurar?

O Negro, que registrou a maior seca em 121 anos de medição, está voltando a encher diariamente centímetro a centímetro – comemora a mídia. 

Os olhos de Isabella Thiago de Mello, cheios de esperança, veem “algo de misterioso nos labirintos que surgem dos afluentes dos rios Negro e Solimões na época das cheias”. O pai dela advertiu um dia que não é só quem brinca com fogo que se queima. Quem envenena os rios acaba se afogando no lodo, na cinza e na merda.

Até quando esses rios terão forças para resistir ao lixo, ao esgoto, ao garimpo, às queimadas? Até quando os assassinos dos rios ficarão impunes? Será que os homens vão segurar? Hein, Quintino? Hein, Maria? Respondam na nossa próxima sessão mediúnica.

REFERÊNCIAS 

  1. Quintino Cunha. Pelo Solimões. Versos norte-brazileiros. Paris. Typ. Aillaud & Cia. 1907 (Poema Encontro das Águas, pgs. 86 a 88.)
  2. Mauro Leonel. A morte social dos rios. Conflito, Natureza e Cultura na AmazôniaSão Paulo. Editora Perspectiva. 2015
  3. Jorge Eduardo Dantas. A morte dos rios. https://www.greenpeace.org/brasil/blog/a-morte-dos-rios/
  4. Javier Heraud. El ríoLima. La Rama Florida. 1960. Cuadernos del Hontanar.
  5. Aturi Kaiabi, Yanin Kaiabi e Alexandre Acosta Guarani in Maciel, Bessa, Monte, Melhem(orgs): Te mandei um passarinho… Prosas e versos de índios no BrasilBrasília. MEC. 2007 (Até hoje no prelo, os 40 autores e ilustradores são todos indígenas).
  6. Isabella Thiago de Mello. Olhos de Água DoceIn Juçara Valverde (org.) Oficina Literária Ivan Proença. Goiânia. Kelps. 2021.

José Bessa Freire Escritor. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Crônica publicada originalmente em seu blog Taquiprati em 05/11/2023. 

 
 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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