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Conferência Indígena da Ayahuasca: Ventos que sopram além das palavras…

VENTOS QUE SOPRAM ALÉM DAS PALAVRAS…

Por: Jairo Lima

‘Você não vai contar como foi sua experếncia na Conferência Indígena Ayahausca?’. Foi a décima mensagem que recebi até ontem, quando completou-se uma semana do encerramento do evento na terra dos Puyanawa.

Fiquei matutando se realmente eu teria algo a dizer, depois de ler os textos da Dedê, Raial e Domingos Bueno. Tarefa difícil essa…

Também, não sei se me animo a tanto, até porque a ‘desembestança’ de fim de ano pegou-me de tal maneira que só no começo da última semana de respiro do ano de 2017 é que consegui sossegar para escrever algo.

Estou ouvindo música Tuareg nesse momento. Um músico de nome Bombino se esforça e mostra seu virtuosismo no violão, enquanto canta algo que não compreendo o significado, mas entendo perfeitamente o sentido e a essência. Não deixo de fazer um link automático com o evento que participei.

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“Que tal escrever um texto com o título “Eu avisei!”, onde tripudiaria a Aya Conference de 2016, resgatando a mensagem que deixei clara em um dos meus textos?” – Pensei e logo desisti, pois, saquei que muitos dias e noites se passaram desde que a bílis quase me escorre pela boca antes, durante e após esse evento.

Me esforço para puxar do poço mental das inspirações algo que sirva minimamente para deixar a mensagem de ‘missão cumprida’, no entanto, as sensações que ainda me embalam a lembrança do que senti, vi e ouvi nas trinta e seis horas que praticamente não dormi durante minha imersão material e espiritual durante o evento, ainda me dão uma sensação de leveza e profundidade.

Mas vamos lá…

… Não consigo tirar a imagem da maloca tradicional dos Puyanawa da cabeça. Também sinto até agora o calor reconfortante da fogueira que queimava muito além da lenha que a alimentava, expurgando males e sentimentos dos que, tal qual mariposas, rompiam o negrume da noite e o frio da alma em busca de perderem-se sentados diante das chamas, enquanto seus pensamentos mergulhavam em si.

Balanço a cabeça como quem tenta tirar algo dos cabelos, mas a lembrança do céu estrelado e infinito perdendo-se no horizonte margeado de árvores está esculpido em minha memória, de tal maneira que penso não ser mais possível separar-me dele.

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Escuto a canção que preenche minha sala de estar… um grupo toca algo ritmicamente simples, mas de uma constância que aos poucos vai cativando a atenção. Lembro então de vultos na semi escuridão da maloca, que passavam diante de mim entoando canções que, em alguns casos, conseguia compreender seu significado.

Luzes amareladas e tremeluzentes do recinto contribuíam com a cena, fazendo-nos entender que estávamos sós e, confusamente ao mesmo tempo, acompanhados de muitos. Lembro dos vultos imponentes sentados perto de mim, impassíveis, mas que davam uma sensação de segurança e serenidade.

Foram noites mágicas. Não! Corrijo: foram noites únicas. – Será que se repetirão? – Duvido, pois, com certeza, foram presentes a todos que conseguiram chegar na terra dos Puyanawa.

É difícil expressar em letras, palavras, frases e sentenças as sensações e percepções que tive. Mas continuarei tentando…

As palestras, bem, ok, falemos das palestras… não dá pra falar das palestras. É preciso ouví-las para compreender a mensagem, e, se após essa audição não conseguir compreender é porque o ouvinte ainda não galgou alto suficiente para que entendesse. Por isso está difícil escrever sobre elas sem cair na velha lenga-lenga de ‘fulano disso isso… foi rico.. bla bla bla’. Não dá.

Faço uma anotação mental para firmar o compromisso de dar publicidade a alguns dos vídeos e áudios feitos. Como as muitas imagens feitas mostraram, havia sobre a mesa de debates dois frascos: um com heu* e outro com huni*. Assim, o nível de percepções e palavras ditas estavam noutro patamar, de maneira que gastaria meu português à toa, talvez até acabaria empobrecendo a mensagem.

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Fico relembrando a dinâmica de tudo o que ocorreu. Dos txai e visitantes que lá estiveram. Risos, olhares, vozes, sons e rostos que se misturaram de tal modo que deixava a impressão de que todos éramos somente um povo, moradores de uma mesma aldeia… Peraí! Falei besteira. Afinal, somos mesmo um só povo nessa grande aldeia chamada Terra. Afinal, o que nos separa é a percepção do que chamamos de ‘cultura’.

Gente… juro que tento dar significado coerente ao que estou escrevendo. A incoerência é, antes de tudo, a percepção que muitos pensamentos e sensações ainda me preenchem o ser e as ideias, de modo que separá-las nas caixinhas de significância do intelecto perceptível não seria capaz dar corpo a estes sentires.

Lembro dos papos amistosos e cheios de significância que tive com muitos dos que lá estiveram. Eram conversas meio sussurradas, não por se tratarem de segredos ou ardis, mas que, de certo modo, era perceptível uma ‘presença’ no local.

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Foram papos bem interessantes, como a que tive com o Benki Ashaninka, sentados ao pé de uma árvore, fumando cachimbo enquanto uma nuvem escura de chuva se aproximava, e os primeiros respingos do que poderia ser uma pequena mostra do dilúvio já era perfeitamente observável:

“Vai chover não! ‘Ela vai passar por cima de nós’. Nada vai atrapalhar estes dias não” – Benki falou ao perceber que eu olhava pro céu, talvez com ar preocupado. Realmente não choveu, na verdade o que imperou foi um calor daqueles pela manhã.

… Anoiteceu e uma grande roda se formou para o ritual final   – ‘Txai… tenho algo pra te dar…’ – Uma voz despertou-me da profundidade em que me encontrava durante o último ritual do evento. Olhei, e o jovem e forte Biraci Jr Nixiwaka estava acocorado à minha frente, segurando um pequeno cachimbo Shipibo que recebi com muita alegria. Abracei-o, não sem esforço de me por em pé. Sim! Pulei de uma narração a outra. Difícil seguir um roteiro cronológico quando se tem a sensação que todos estes dias se passaram como se fossem um só.

Olhei e vi a grande roda tendo o céu como teto e a floresta como parede. Novamente figuras passavam aqui e ali… canções iam e vinham em diferentes línguas e dialetos. O céu, as pessoas, as florestas, tudo ia se pintando de um colorido fosco, etéreo e presente. A fogueira… vi ao fundo da cena mais uma vez aquele farol de fogo onde vultos coloridos a rodeavam, uns sentados, outros em pé.

O dia raiou a contragosto, como se a noite mágica fosse algo tão belo que a luz solar poderia corromper o que no negrume da noite nos foi dado. Rostos antes imperceptíveis começaram a tomar forma. Sorrisos, olhares, palavras mescladas ao som dos pássaros que saudavam o renascer solar… o ambiente se preencheu. Todos se mexeram em seus assentos, esticando-se tal qual estátuas que recebem o sopro da vida.

– ‘É txai. Será que terminou?’ –  Alguém me perguntou. – ‘Acho que, na verdade, mal começou’ – Respondi.

Passaram uns dias, e a  comilança do natal, que muitas vezes satisfaz o estômago mas não preenche a alma, chegou. O ‘zap zap’ continua em seu alarido indicando-me que a quantidade de mensagens aumentaram significativamente após a conferência. Pedidos de amizade no Facebook… observo que os que lá estiveram se sentiram mais próximos, engendrados em uma espécie de teia invisível que parece manter todos atados em pensamento, fazendo-nos sentir a necessidade de nos conectarmos e nos falarmos. Estranho…

Termino aqui. Volto quando o ciclo de 2017 se encerrar. Até lá reordeno as idEias e sentimentos. Certamente terei mais coerência.

Passei esse texto para alguém ler, antes de publicar. Queria ter certeza que não estou ‘out’ demais.

Sim!!! Só pra não parecer que tudo me deixou ‘remido’ e açucarado demais, me despeço dos queridos leitores e do ano de 2017 dizendo: Eu avisei! – Os entendidos e os que me acompanham nas leituras entenderão.

Jairo jan2.5.

ANOTE AÍ:

* heu é como os Puyanawa designam a ayahuasca, e huni é como os Huni Kuin a designam (nota do autor).

Jairo Xapuri

Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, no Acre.

Créditos das imagens, selecionadas por Jairo Lima: Imagem 1 – Ramon Aquim; Imagem 2 – Ramon Aquim; Imagem 3 – Lautário Actis; Imagem 4 – Maíra Dias; Imagem 5 – Ramon Aquim.

Conheça o blog do Jairo: www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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