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Miguel Paiva: “É horrível ver o Brasil agora ser chamado de esgoto da História”

Miguel Paiva: “É horrível ver o Brasil agora ser chamado de esgoto da História”

Bolsonaro acha que o Brasil todo pensa e age como ele. Ledo engano. Um dia ele vai se surpreender com a verdadeira reação não só do Brasil, mas de toda a América Latina, que parece estar vivendo um momento de constatação da fragilidade desta direita que assumiu o poder em vários países.

Por Miguel Paiva

O Brasil já foi conhecido no mundo como o país do carnaval, das mulheres e do futebol. Também ficou conhecido pela bossa-nova, por Brasília, a cidade do futuro, Oscar Niemeyer, Cinema Novo e muitas outras coisas mais honrosas do que o país do Bolsonaro.  Depois de tanta história passar a ser conhecido como o lixo do mundo ocidental, o esgoto da História e outros elogios menos nobres é horrível.
Não estou com isso livrando a cara da França e dos países europeus pelo recente entrevero mas, sem aprofundar politicamente, a Europa pelo menos chegou no nível civilizatório e lá, apesar de ainda cometerem certos abusos, a democracia e o desenvolvimento social existem. Poluem? Poluem, mas não viram a cara para a sustentabilidade em prol do desenvolvimento a esmo. As ONGs não deixam, a imprensa não deixa e a sociedade não deixa.
O mundo vive questões ambientais e, pelo menos, os países se reúnem para tentar soluções. São essas reuniões que o Bolsonaro se recusa a participar e o Trump olha com um certo desprezo. Bolsonaro não questiona e faz o que seu mestre mandar. Eles querem o desenvolvimento a qualquer custo e muita gente aqui pelo Brasil que se diz moderna, inteligente e liberal concorda com isso.
A ecologia, assim como a questão de gênero, é um ponto de incômodo para certa elite mandante no país. Acreditam, como o Bolsonaro, que é tudo meio exagerado e que o mundo não vai acabar por causa disso. É um pouco de ignorância misturado com bastante ganância. Do mesmo jeito que eles acham que o desenvolvimento vai trazer mais emprego e com isso a justiça social, eles também acham que a ciência e a tecnologia vai desenvolver meios de combater a poluição sem ter que sacrificar o progresso.
Ok, tudo pode ter a sua coerência e o progresso tem todos os lados bons, mas do jeito que está sendo prospectado por aqui não vai sobrar muita gente. Peitar a Europa na questão do ambiente é, no mínimo, uma crônica da vergonha anunciada. Imaginar o ministro do meio ambiente ou o das relações exteriores discutindo com seus pares europeus é quase cômico. A única saída para quem não pensa é meter bronca, chutar o pau da barraca como eles estão fazendo.
O problema é que o país somos nós e nós vamos pagar as consequências dessa loucura toda. A grosseria, a violência, a crueldade e a ignorância de quem está no poder vai nos prejudicar a ponto de não conseguirmos calcular o tamanho do prejuízo nem quanto tempo vamos levar para sair dessa.
A simplicidade de Lula não escondia seu desejo de aprender, de brilhar, de se fazer entender pelo Brasil e pelo mundo e sua postura sempre foi de servir ao povo. A postura rudimentar de Bolsonaro não pretende nada a não ser botar banca. Ele acha que o Brasil todo pensa e age como ele. Ledo engano. Um dia ele vai se surpreender com a verdadeira reação não só do Brasil mas de toda a América Latina que parece estar vivendo um momento de constatação da fragilidade desta direita que assumiu o poder em vários países.
Tomara e tomara que não demore tanto para que possamos realmente trabalhar para construir alguma coisa e não esse trabalho insano que estamos tendo para manter o nariz de fora da merda e tentar defender o que sobra do país.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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