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Vociferar o tempo: um encontro com a trajetória de GIOvani Cidreira

Vociferar o tempo: um encontro com a trajetória de GIOvani Cidreira

Vociferar o tempo: um encontro com a trajetória de GIOvani Cidreira

Por Marcelo Mucida / @planetafoda

Seja ao revisitar as suas origens ou ao pensar sobre outros mundos, GIOvani Cidreira ou GIO, é um artista que trouxe novas experiências para o cenário musical nacional. Novas formas de cantar sobre os seus tempos, embaladas por uma voz inconfundível.

Desde o seu primeiro álbum (Japanese Food – 2017), o baiano conquistou destaque pelo país, ao trazer composições que compartilham diversos sentimentos de forma singular e que promovem uma aproximação e um processo de identificação com o público.

Para a seção semanal #ArtistaFOdA, a conversa com o artista percorreu um pouco da sua história, desde o momento em que foi vocalista da banda Velotroz, até o lançamento dos trabalhos mais recentes.

Em maio deste ano, GIO já lançou o single Nebulosa e o primeiro episódio da websérie Nebulosa. Agora, ele se prepara para compartilhar também em julho o seu novo álbum, chamado Nebulosa Baby.

Com um recorte bastante sensível, o primeiro vídeo da websérie trouxe momentos da infância do cantor e compositor e abordou também a relação com a sua família.

Assista ao episódio na íntegra aqui:

E confira abaixo a entrevista com o artista:

Eu queria que você falasse um pouco sobre o seu processo de troca e de desenvolvimento com a arte. Vi alguns textos que contam sobre os estímulos que você recebeu da sua família desde quando era mais novo, mas gostaria que contasse com as suas palavras, por favor.

Na minha família não tem referência de nenhum artista e de ninguém que trabalhe com música. Nunca houve nenhum familiar meu envolvido com música, nem por hobby. E, apesar de sermos uma família muito humilde, e de meus pais sempre deixarem claro pra mim que ia ser muito difícil conseguir fazer qualquer coisa porque a gente morava muito longe e era muito pobre, eles me deram também a liberdade para eu seguir fazendo o que eu queria fazer da vida, porque foi muito mais importante para eles que eu seguisse assim, ao invés de ter uma vida mais sofrida, mais amargurada. Minha mãe sempre disse isso pra mim. E acho que também é uma questão de saber que eu estava perto de amigos, perto de coisas boas, porque crescendo na periferia, os perigos todos estão muito próximos a você, então eu acho que qualquer coisa que me tirasse disso, eles estimulavam, eles gostavam muito e sempre me deram total apoio.

E como se deu o surgimento da banda Velotroz?

A Velotroz surge de um impulso, de uma força de vontade e de um sonho. Na verdade, a gente só queria estar juntos e fazer música. Ela começou com o Danilo Souza, que veio a ser o guitarrista da Velotroz. Ele teve a ideia de formar uma banda e começou a reunir os membros que moravam no bairro dele, que era a Cidade Nova, e na época eu estava vivendo bastante por lá e pelas proximidades também. Eu lembro que na nossa primeira reunião, ninguém sabia tocar nenhum instrumento. Todo mundo chegou e queria tocar guitarra e cantar, e assim foi. Caio Araujo, que até hoje faz músicas comigo, foi o último a chegar e pra ele sobrou o baixo.

Quais foram os impulsos que te levaram a lançar o seu primeiro trabalho solo?

O primeiro disco foi uma questão de vida ou morte porque, apesar de já ter lançado um EP naquele momento, já ter participado de festivais de música, já ter recebido prêmios, eu vim de uma família pobre e, pra quem não tem grana, essa coisa de viver de arte não é uma possibilidade. Falando assim, parece besteira, mas no dia a dia é muito mais difícil, muito mais duro. Os meus pais até hoje precisam de mim. E, então, não era só uma vontade de fazer um disco, era uma questão de existência, porque apesar de todas as dificuldades, eles também me deram liberdade para seguir o meu sonho. Eu apostei todas as minhas fichas nesse negócio quando fui ao estúdio do Tadeu Mascarenhas, que é um parceiro aqui de Salvador, chorar as minhas pitangas e ele contou sobre um edital da Natura Musical e disse que achava que eu deveria me inscrever. No começo, eu não acreditei tanto, fiquei um pouco desconfiado, mas inscrevi o projeto e deu super certo e então eu fui pra São Paulo para conhecer as pessoas com essa certeza, de que na verdade essa era a minha última chance. Era isso que eu tinha na cabeça.

Vociferar o tempo

Foto: Alex Oliveira

Você vê a arte como forma de trabalhar determinadas discussões? Se sim, o que tem buscado trazer nos seus trabalhos mais recentes?

Eu vejo a arte como uma forma de você expressar qualquer opinião. De trabalhar ou não trabalhar qualquer coisa. A arte serve para construir e ela pode destruir também as coisas. Eu acho que a arte não precisa ter obrigação. O artista não tem a obrigação de levantar nenhuma bandeira, não tem obrigação de dizer sobre nada além daquilo que ele sente. Mas acho difícil você ser artista e não sentir as coisas, não falar das coisas que atravessam o seu tempo porque o seu corpo vive aqui. Eu nunca tinha pensado tanto nisso, mas agora eu vou lançar um disco que é bem pautado nessas questões. Eu comecei a pensar muito sobre pra quem eu estava fazendo esse disco e entendi que esse trabalho é para as pessoas da periferia, para as pessoas que moram mais longe. Não sei se estou levantando alguma discussão com isso, mas é um tipo de pensamento que é uma força política também. Eu acho que a gente tem que fazer mais pelos nossos e trazer outras pessoas de lugares diferentes para compor o nosso trabalho.

Apesar de identificar uma marca pessoal entre os seus trabalhos, eu percebo também que há uma diferença de linguagens entre Japanese Food e Mix$take, tanto nas composições como na construção dos sons. Eu gostaria que você contasse mais sobre esses dois processos criativos.

Japanese Food é o primeiro disco. São anos em que você se prepara. Eu já tinha aquelas músicas há um tempo, algumas já tinham 05 anos… Foi meio que uma coletânea de um repertório enorme que eu tinha e eu selecionei as coisas que contavam sobre os lugares onde eu gostaria de ter ido ou que tinha experimentado no universo da música. A produção foi um pouco isolada, porque eu ficava em casa gravando todos os instrumentos de uma maneira muito caseira e depois levava pro estúdio e passava para os músicos e, a partir disso, a gente ia construindo juntos. Mas acho que o processo foi mais isolado nesse sentido. Eu acho que eu tive um controle maior no que diz respeito à instrumentação. Eu fui mais rígido no Japanese Food.

No caso da Mix$take, eu já estava em São Paulo, vivendo na Casa Vulva, um lugar por onde passavam muitos artistas, e nesse contexto eu conheci Benke e ele começou a produzir essas faixas comigo. É um trabalho completamente diferente, primeiro porque o Japanese Food é ligado a uma coisa mais orgânica, enquanto na Mix$take a gente fez tudo gravado no celular, tudo muito experimental. E eu acho que eu abri mais espaço para o outro, para de repente Benke vir e colocar as coisas dele. Geralmente, eu não tinha ideia do que ia ser feito para a parte instrumental. Eu tinha uma canção e Benke transformava isso no que virou o som da Mix$take, então nesse sentido foi um trabalho mais em grupo. Foi uma experiência que eu realmente não sabia no que ia dar. Foi jogar pra cima.

Vociferar o tempo

Foto: Alex Oliveira

2020 foi um ano bastante atípico para todos, mas também foi um período que marcou o lançamento de dois novos trabalhos seus, frutos de parcerias. Você pode comentar um pouco sobre como foi fazer esses lançamentos no meio de tudo que estamos vivendo?

Acho que está sendo difícil para qualquer pessoa fazer qualquer coisa, cumprir com qualquer cronograma e ter força, ter ânimo pra realizar. Para mim, algumas produções foram bem caóticas, mas, ao mesmo tempo, penso que é muito importante seguir também porque se faz muito mais necessário passar as mensagens e criar esse alimento, que é um alimento para a alma das pessoas. As coisas que a gente faz às vezes parecem não ter significado, não ter importância alguma na vida prática, mas acredito que isso dá força para as pessoas e transforma a vida. Acho que é nisso que a gente tem que acreditar. E para mim, lançar esses trabalhos, ver esses trabalhos serem lançados durante a pandemia (o MANO*MAGO e o Estreite) foi revigorante, foi engrandecedor porque isso me deu uma certa alegria e me colocou de volta ao meu lugar.

E para 2021, você tem algum projeto / lançamento que gostaria de divulgar nesta pauta?

Nesse ano, eu já lancei o meu single Nebulosa (no dia 12 de maio) e também o primeiro episódio da websérie Nebulosa, que conta a história do disco, mas não só da produção em estúdio. A série fala do conceito, da minha construção, a minha identidade toda, as minhas origens, minha ancestralidade, tudo isso está nesse filme. E em julho acontecerá o lançamento do disco, o Nebulosa Baby, e vamos ter um filminho também, uma ficção deste projeto.

Foto Alex Oliveira 8 @presente.vivo

Foto: Alex Oliveira

Siga o perfil de GIO no Instagram para poder acompanhar as informações sobre os seus próximos lançamentos: @giovanicidreira.

E confira a seção semanal #ArtistaFOdA para conhecer mais sobre os trabalhos de artistas LGBTQIAP+ das mais diversas linguagens. Clique aqui para acessar todas as entrevistas que já foram publicadas.

@planetafoda é a página de conteúdos LGBTQIAP+ produzidos pela rede FOdA, da Mídia NINJA, junto a colaboradores em todo o Brasil.

 

Esta matéria foi publicada originalmente pelo site Mídia Ninja. Leia aqui.

 


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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