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YUBAKA HAYRÁ: Conferência Indígena Ayahuasca

YUBAKA HAYRÁ: Iniciando o papo sobre a Conferência Indígena Ayahuasca…

– “Você não vai escrever nada sobre o encontro Yubaka Hayrá?” – Ouvi ou li esta pergunta uma quinze vezes nas duas últimas semanas.

Por Jairo Lima –

Esse tipo de pergunta se deu mais por causa de minha posição, devidamente registrada e divulgada, quanto à edição 2016 da Aya Conference. E não escondo que até hoje muitas ‘coisitas’ que rolaram neste evento ainda estão pairando no ar, e garanto a vocês que não são poucas.

Mas, ok… vamos lá, começar esse papo tão necessário.

JAIRO NOV 15.2

Mas, nesta semana que passou onde os olhos materiais e as atenções continuaram, em sua maioria, focadas nas polêmicas políticas e sociais da Pindorama, eu estive às voltas com o corre-corre e demais detalhes da organização da 1a Conferência das Organizações Regionais Indígenas e da 1a Yubaka Hayrá (1a Conferência Indígena Ayahausca).

Garanto que isso tomou-me o tempo, a atenção e, claro, o humor. Reuniões, ligações e o escambau a quatro misturaram-se à análise das fichas de inscrição de um bocado de gente interessadas em vir para o evento da ayahuasca.

Estes eventos vem tomando forma a cada dia, conforme todos os envolvidos em sua execução vão costurando os detalhes, como um grupo de fiandeiras. E, nessa construção estamos vendo a ‘coisa’ crescer muito, com muitos interessados em vir para este lugar, onde o vento faz a curva, e participar deste momento.

Claro que os interesses são os mais variados: de pesquisadores a pessoas interessadas em ‘conhecer mais e conectar-se a esta força’. Em minha opinião, todos os motivos que moveram as pessoas a inscreverem-se para os eventos são válidos, afinal ‘o universo foi feito pra nós’, certo?

Certamente que o interesse pela conferência indígena da ayahuasca, a Hayrá Conference, é o foco de interesse da maioria, por ser este tema, ‘ayahuasca’, algo que vem ocupando cada vez mais espaço nas rodas de discussão, e nos estudos diversos mundo afora, sem contar, lógico, com a miríade de interessados que comungam, em maior ou menor grau, dos zilhões de modalidades de rituais que usam como base esse vinho sagrado, que, infelizmente, por vezes, acaba por ser profanado por grupinhos de ‘zé-ruelas’ que tentam dar sentido sagrado às suas maluquices.

Apesar do assunto sempre se reportar aos ‘índios’ – e para testar isso basta fazer uma rápida busca no oráculo moderno (chamado de Google), para encontrar várias referências sobre o assunto – as que mais me ‘divertem’ são a dos pesquisadores que ficam umas duas semanas, ou participam de uma meia dúzia de rituais e saem escrevendo artigos e livros sobre o assunto, mas seguimos… – Mas, se prestarem atenção verão que esse assunto, até esse momento, pelo menos no Brasil, não tinha sido abordado pelos detentores de seu conhecimento originário, que, em geral, margeavam os eventos, tendo, no máximo, um espaço mais de ‘enfeite exótico’ aos mesmos.

JAIRO NOV15.3

Eu já havia indicado, num dos textos que escrevi e em muitas conversas que tive no decorrer de 2016 que, em minha opinião, a fragilidade do evento Aya Conference 2016 realizado no Acre se dava, principalmente, por misturar diversos interesses em um só evento, em um só espaço – claro que ainda mantenho minha posição birrenta de achar que esse evento não deveria ter sido feito no Acre, o grande berço de muitos mestres.

Juntar os ‘dotores’ de papel, com padrinhos das igrejas do Daime, com indígenas, com gente de todo tipo (achando estar numa espécie de woodstock espiritual), não poderia alcançar um resultado satisfatório, exceto, claro, para um pequeno e seleto grupo, o qual não citarei, neste momento (mas que tá na cara que sabem quem é né?).

Dos insatisfeitos e, em certo grau, descontentes tivemos os povos indígenas, relegados a uma ‘cota’ de participação no evento, com direito ao bandejão do famoso RU da UFAC, e com alojamentos bem aquém do que mereceriam. Mas não poderia ser diferente, não posso culpar os organizadores pela sua ignorância em relação à profundidade ou o verdadeiro significado que seria realizar um evento desse tipo no Acre. Enfim…

O que restou dessa conferência foi a mensagem, mesmo que não dita ou escrita, que os povos indígenas precisavam conversar a respeito do assunto. Discutir e entender que aquela prática espiritual singela, onde poucos participavam nas aldeias, tornou-se uma hidra enorme, com várias cabeças e interesses e, em muitos desses interesses está a de um mercado promissor. No fim das contas, os indígenas na amazônia brasileira, estão relegados a um espaço marginal disso tudo.

JAIRO NOV 15.1

Achar que o fato do circuito xamânico estar cheio de jovens indígenas indo e vindo mundo afora, realizando rituais ou participando de ‘haves xamânicas’ é dizer que o indígena está incluído nos espaços de discussão sobre o assunto ‘ayahuasca’ é, no mínimo, patético.

Falta espaço e, quando há espaço, falta respeito à opinião e posição dos indígenas sobre o assunto.Essa necessidade de ‘espaço’ de conversa, no tempo e na cadência indígena foi o que motivou a realização desse evento que, menos preocupado com holofotes e microfones, visa discutir o que é essa ‘ayahuasca’ que o dawa (não-índio) faz questão de ver patrimonializado. Afinal o que é esse papo mesmo de ‘patrimonialização’?

 

Nesse siribolo, o movimento indígena do Juruá decidiu que tava na hora de garantir ‘um lugar ao sol’ desse papo todo, estabelecendo sua posição e manifestação a respeito desse tema, mas, antes de tudo, entender esse troço todo.

Certamente que não se almeja muita coisa além de juntar todos os ‘parentes’ para um papo, e depois,  para juntos tomar um uni (ayahuasca). Conversar enquanto se usa um rapé ou se bebe uma caiçuma.

Claro que um evento deste tipo deveria ser realizado no local mais adequado para tal. Melhor que qualquer hotel cinco estrelas, mais adequado que qualquer centro de convenções, mais aprazível que qualquer ilha paradisíaca. Vai ser realizado numa aldeia indígena, ao sabor dos humores climáticos e na cadência do ‘tempo indígena’.

Com a alimentação igual e partilhada por todos, com a dormida igual e disponível para todos, com a força da floresta ao redor e de onde os yuxin sagrados podem participar também.

É um espaço onde os saltos darão lugar aos chinelos, e onde o status de ‘dotor’ não separa os indivíduos. Um espaço onde, no final das contas, todos são iguais e onde a opinião de todos será considerada.

Esse papo de hoje é só o começo da conversa, acreditem. Ainda retomaremos o assunto.

No momento o que anda me preocupando é o trabalho de confirmar a participação dos experts no assunto, sem os quais não teríamos como realizar a conferência: os índios.

E terá espaço para os ‘nawa’? – Mas é claro! Eles também poderão participar. Tem cota pra eles, com direito ao prato-feito de um bom pirão de caldo de peixe, um baita copo de caiçuma e um bom lugar pra amarrar a rede.. que tal? Garanto que é melhor que qualquer desses hoteizinhos fuleiros cinco estrelas por aí….

ANOTE AÍ:

Jairo Xapuri

 

 

Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, no Acre.

* Conheça a página do Crônicas Indigenistas www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br, lá encontrará, além de nossos textos, várias e diversificadas informações, vale a visita.

Créditos das imagens:

Imagem 1 – Folder do evento

Imagem 2 – Alexandre Segrégio;

Imagem 3 – Diana ‘Yaka’ Paris. Capa

Imagem 4 – Letícia Abelha


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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