CALENDÁRIO E REALIDADE

Calendário e Realidade

Por Luzia Amélia Jakomeit

Conta a lenda que dia 21 de março a #Primavera brilha em todo o hemisfério norte. Mas a Natureza não está aqui para convenções humanas e ora estende verão até o meio do outono, o que é terrível para quem não suporta o calor.
 
Ou, o inverno invade o espaço da primavera e nos obriga a abrir o baú dos casacos e tirar do armário as roupas quentinhas. Caprichos da Natureza que nunca reclama, não grita, nem faz beicinho para a destruição à qual os humanos a submetem. Apenas se vinga. E a vingança muitas vezes deixa um rastro de morte e choro.
 
Faltam menos de 48 horas para a chegada da Primavera, mas quem disse que o inverno vai ouvir a nova estação cantando “Ô abre alas, que eu quero passar…” Tsc!Tsc!Tsc!.
 
E usa todo seu poder de fogo – ou de frio, que é o caso – para permanecer no planeta norte. Quem quiser que reclame ou enviem seus brados aos céus.
 
Hoje, por exemplo, a semana, que foi friorenta, chegou ao cúmulo de baixar mais ainda a temperatura e amanhecemos com 10 graus Celsius. Particularmente, festejo a resistência invernosa.
 
E o céu, que é sempre testemunha dos humores da natureza, está acinzentado, com nuvens que nem desabam e nem permitem a passagem do sol.
 
Mas, assim mesmo, meu jardim exibe seu colorido em tímidas flores que nem precisam de xales ou cachecóis.
 
Foto de capa – ilustrativa – Udop. 
 
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O CALENDÁRIO INDÍGENA KALAPALO 

A vida social nas aldeias Kalapalo varia de acordo com as estações do ano. Na estação seca, que se estende de maio a setembro, a comida é abundante e é tempo de realizar rituais públicos, que costumam contar com muita música e a participação de membros de outras aldeias. 
Por Loike Kalapalo
Na estação chuvosa, a comida torna-se escassa e a aldeia fecha-se nas relações entre as casas e os parentes. No contexto multiétnico do Parque Indígena do Xingu , os Kalapalo têm se destacado por uma participação ativa na vigilância de seus limites, evitando a invasão de fazendeiros vizinhos.
Janeiro – chove muito. Nesse mês, quem tem filho rapaz, acima de 14 anos, fica em reclusão.
Fevereiro – as pessoas que têm roças fazem cercas de paus roliços em volta da roça para as plantas não serem destruídas pelos porcos do mato. Nesse período, fica difícil a pescaria.
Março – as pessoas costumam construir as suas casas.
Abril – as pessoas que fizeram suas casas arrancam o sapé para cobri-las.
Maio – os rapazes que entraram em reclusão são soltos para começarem a preparação do “Kuarup”.
Junho – as aldeias que se juntaram com a aldeia onde será realizado o “Kuarup”, farão a entrega do polvilho.
Julho – é a época da desova do tracajá e começam os preparativos para a festa do “Kuarup”.
Agosto – época da festa do “Kuarup”.
Setembro – início das primeiras chuvas.
Outubro – época em que as frutas do pequi começam a cair.
Novembro – época em que os rios começam a encher.
Dezembro – as pessoas das aldeias do Alto Xingu fazem vários tipos de festas.
Loike Kalapalo – Liderança Indígena, em “Geografia Indígena”, MEC/SEF/ISA, 1994.

POVO INDÍGENA KALAPALO

Algumas semelhanças entre mitos kalapalo e ye´cuana sugerem que os ancestrais dos Karib xinguanos deixaram a região das Guianas em tempos recentes, certamente depois de contatos com espanhóis, intensificados na região durante a segunda metade do século XVIII.
No entanto, parece haver, do ponto de vista cultural, pouco em comum entre os Kalapalo e os povos karib setentrionais, sendo difícil distinguir qualquer característica propriamente “Karib” nos aspectos de seu modo de vida e visão de mundo.
Permanece incerto quando o grupo conhecido como Kalapalo foi contatado por estranhos pela primeira vez. Indivíduos identificados à aldeia que portava este nome foram medidos pelo antropólogo alemão Hermann Meyer durante um estudo antropométrico dos povos do Alto Xingu, realizado no final do século XIX.
Em 1920, o Major Ramiro Noronha, da Comissão Rondon, realizou pesquisas na região do Rio Kuluene e fez a primeira visita registrada às aldeias dos Kalapalo, Kuikuro e Anagafïtï (Naravute, na literatura). Os últimos, particularmente, sofreriam as consequências dessa visita, que suscitou a primeira de uma série de epidemias que destruiu a integridade de sua comunidade.
O nome Kalapalo, inicialmente atribuído ao grupo por não-índios, tem como referência uma aldeia com esse nome abandonada provavelmente há menos de cem anos. Naquele tempo, pessoas mudaram de Kalapalo para um sítio vizinho chamado Kwapïgï, que, por sua vez, foi sucedido pela aldeia Kanugijafïtï, abandonada em 1961.
Todos esses sítios estão localizados a cerca de meio dia de caminhada na direção leste do Kuluene, ao sul da confluência com o Rio Tanguro. Os últimos remanescentes de um grupo Karib importante, chamado Anagafïtï, juntaram-se aos habitantes de Kanugijafïtï depois da epidemia de gripe na década de 1940 e, naquele momento, havia Kuikuro, Mehinako, Kamayurá e Waujá vivendo entre os Kalapalo.
O que chamamos hoje de “Kalapalo” é, então, uma comunidade composta de uma gente cujos ancestrais foram associados a diferentes comunidades, com uma maioria oriunda ou descendente de pessoas que viveram em Kanugijafïtï.
Atualmente, os Kalapalo vivem em oito aldeias Aiha (que significa algo “acabado”, “pronto”), Tanguro, Agata, Caramujo, Kunue, Lago Azul e Kaluane todas no Rio Kuluene e seus afluentes e na aldeia Tupeku, no limite sudeste do Parque.
Além dessas aldeias, alguns Kalapalo vivem na Coordenação Técnica Local Kuluene da Funai (CTL). O CTL Tanguro localiza-se nas margens do rio de mesmo nome, no limite do Parque, e o PIV Kuluene nas margens desse rio, também no limite.
Devido a surtos de sarampo e gripe ao longo do século XX, a população dos Kalapalo diminuiu significativamente, começando a se recompor novamente só na década de 1970. Se em 1968 sua população era de 110 pessoas vivendo em seis casas, em 1982, esta havia crescido para 185 pessoas vivendo em 13 casas.
Em 1999, a população das aldeias kalapalos foi estimada em aproximadamente 362 pessoas e, em 2002, esse número chegou a 417, segundo dados da Unifesp (universidade Federal de São Paulo).
A atual população kalapalo inclui descendentes de um grupo Karib importante, chamado Anagahïtï, que se uniram a eles depois de uma epidemia de gripe ocorrida na década de 1940. Também vivem nas aldeias pessoas das etnias Kuikuro, Matipu, Nahukuá, Mehinako, Kamayurá e Waurá, em razão de casamentos.
Essas e mais informações sobre os Kalapalo, você encontra no pib.socioambiental

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JUNHO NA FLORESTA Moises Piyako
Ilustração de Moisés Piyāko

JUNHO NA FLORESTA,  SEGUNDO O POVO ASHANINKA 

Tempo de fartura de peixes. Tempo de água limpa e cristalina
Por Manuela Carneiro da Cunha e Mauro Barbosa de Almeida

Tempo de embicheirar; o pescador mergulha em busca dos grandes peixes debaixo dos paus, nas águas mais profundas do rio. Tempo de acampar nas praias, comer muito peixe, coletar ovos de pássaros e beber muita caiçuma. Tempo de longas viagens a varejão para visitar parentes e fazer trocas com os Ashaninka que moram em outros rios. A fruta da orana é o medidor do ovo do tracajá: ele cresce junto com ela. Quando a fruta da orana está caindo, os tracajás estão desovando e as pacas estão gordas. Nessa época também a flor da samaúma está desabrochando.

manuela carneiro 750x410 1Manuela Carneiro da Cunha – Antropóloga. Excerto do livro Enciclopédia da Floresta – O Alto Juruá: Práticas e Conhecimentos das Populações.  Companhia das Letras, 2002.
 
 
Mauro Barbosa de Almeida
Mauro Barbosa de Almeida – Antropólogo. Excerto do livro Enciclopédia da Floresta – O Alto Juruá: Práticas e Conhecimentos das Populações.  Companhia das Letras, 2002.
 
 
 
 
 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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