“O JUMENTO É NOSSO IRMÃO”

“O Jumento é nosso irmão”: a matança silenciosa de um símbolo do povo

“É verdade, meu senhor. Essa história do sertão. Padre Vieira falou. Que o jumento é nosso irmão”. Apologia Ao Jumento (O Jumento É Nosso Irmão). Luiz Gonzaga
Por Luciano Rezende/PortalVermelho
É assim que Luiz Gonzaga inicia sua “Apologia ao Jumento”, recorrendo à autoridade moral e intelectual de um dos maiores pensadores da história luso-brasileira para afirmar algo simples e profundo: o jumento é nosso “irmão”.
E sendo nosso irmão, não pode ser tratado como algo descartável, mas como um companheiro histórico do povo. Ao evocar Padre Vieira, Gonzaga não faz apenas poesia; ele formula uma tese ética e social que o Brasil contemporâneo insiste em ignorar.
O jumento, esse animal paciente e resistente, foi peça fundamental na formação econômica e social do Nordeste brasileiro. Carregou água em tempos de seca, transportou alimentos, ferramentas e mercadorias, puxou carroças, ajudou a construir vilas, estradas e cidades.
Foi, durante séculos, força de trabalho indispensável para populações pobres, sobretudo em regiões onde o estado nunca chegou de forma efetiva. Valorizar o jumento, como fazia Gonzaga, era também valorizar o sertanejo, o trabalhador invisível, o povo esquecido.
Hoje, no entanto, esse “irmão” cantado por Gonzaga está sendo exterminado de forma silenciosa e sistemática no Brasil.
Nas últimas décadas, a população de jumentos despencou drasticamente, especialmente no Nordeste. Milhões de animais desapareceram, abatidos para atender a um mercado internacional altamente lucrativo: a exportação de peles destinadas à produção de ejiao, um insumo utilizado na medicina tradicional chinesa.
O Brasil tornou-se um elo dessa cadeia global de exploração, oferecendo matéria-prima barata à custa de sofrimento animal e destruição de um patrimônio histórico.
O processo é marcado por brutalidade. Jumentos são comprados por valores irrisórios, muitas vezes de pequenos proprietários pressionados pela pobreza. São transportados por longas distâncias, amontoados, sem água, sem comida, submetidos a estresse extremo.
Em diversos casos, o abate ocorre sem fiscalização adequada, em condições que violam princípios básicos de bem-estar animal. Aproveita-se apenas a pele. O resto vira descarte.
Essa lógica revela algo mais profundo do que a crueldade isolada. Ela expressa a racionalidade do capitalismo contemporâneo, que transforma tudo em mercadoria, inclusive seres vivos historicamente integrados à vida comunitária. O jumento deixa de ser companheiro de trabalho e passa a ser visto como estoque a ser liquidado. Uma vez extraído o valor que interessa ao mercado global, o território e sua população ficam com o vazio.
Há uma contradição gritante nesse processo. O mesmo Nordeste que ainda enfrenta dificuldades estruturais graves (seca, pobreza, isolamento rural) elimina um animal perfeitamente adaptado ao semiárido, de baixo custo de manutenção e enorme utilidade social.
Em vez de políticas públicas de preservação, manejo sustentável ou incentivo à convivência produtiva com o jumento, opta-se pela sua extinção prática, como se fosse um resíduo do atraso a ser eliminado em nome de uma modernização excludente.
Mais grave ainda é o silêncio. O extermínio dos jumentos raramente ocupa espaço nos grandes meios de comunicação. Quando aparece, surge como nota de rodapé, curiosidade ou problema ambiental secundário. Não é. Trata-se de uma tragédia ética, social e cultural. A morte do jumento é também o apagamento de um símbolo da história popular brasileira, especialmente da história nordestina.
Luiz Gonzaga, com toda sua sensibilidade, compreendia isso com clareza. Ao defender o jumento, ele defendia o povo pobre que sempre carregou o peso do desenvolvimento sem jamais usufruir de seus frutos. O desprezo atual pelo animal reflete o desprezo pelas populações que dependiam dele. Não é coincidência que essa matança avance justamente onde o estado é frágil e o capital aparece apenas para extrair valor e partir.
Existem iniciativas de pesquisadores, universidades, organizações sociais e movimentos de defesa animal que denunciam essa situação e propõem alternativas: moratórias ao abate, programas de reprodução, reconhecimento do jumento como patrimônio genético e cultural do Brasil. Mas essas ações ainda enfrentam a pressão econômica internacional e a ausência de uma decisão política firme.
Denunciar a morte dos jumentos no Brasil não é sentimentalismo. É um posicionamento ético e político. É afirmar que desenvolvimento não pode significar destruição cultural e social. É lembrar, como já dizia Padre Vieira e como cantou Luiz Gonzaga, que desprezar o jumento é desprezar a própria humanidade.
Enquanto o jumento morre em silêncio, o Brasil perde mais do que um animal. Perde memória, identidade e dignidade. Talvez seja hora de ouvir novamente o velho Lua e levar a sério o alerta que ele nos deixou.
Luciano Rezende é professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

JumentosFoto: Marcizo Ventura/Comitê da Bacia do São Francisco-CBHSF

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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