QUANDO O CÉU PESA SOBRE A FLORESTA: OS NAWA E A CRISE CLIMÁTICA NO EXTREMO DO ACRE
Documentário encerra a trilogia “Guardiões sob Ameaças” e revela como a crise climática transforma o território, o cotidiano e o horizonte de futuro dos Nawa, um povo que, até o começo dos anos 2000, era tido como extinto
Por Jornal Varadouro

No extremo oeste do Brasil, no município de Mâncio Lima (AC), a 670 quilômetros de Rio Branco, o povo Nawa enfrenta as consequências de um pacto milenar rompido pelo desequilíbrio do planeta.
A água dos igarapés, antes fonte de vida e abundância, tornou-se tão quente que, segundo os moradores, “parece que passou por fogo”, provocando a mortandade em massa de peixes. E o fogo, a cada período de seca, destrói a tentativa de recomeço da vida.
Estes são apenas alguns dos cenários narrados no terceiro documentário da trilogia “Guardiões sob ameaças”, iniciativa do jornal Varadouro em parceria com o Coletivo Tetepawa, formado por mais de 20 jovens de 13 povos diferentes.
Intitulado “Os Nawa e o Desequilíbrio da Terra”, o filme expõe uma realidade dura: as mudanças climáticas aparecem no relato das lideranças como um “inimigo transparente”, invisível e constante, que redesenha a vida na floresta.
O ciclo de extremos coloca, de um lado, incêndios florestais, que destroem roçados de macaxeira e plantas medicinais; de outro, cheias repentinas arrastam casas e plantações.
A situação dos Nawa é agravada pela insegurança jurídica: seu território se sobrepõe ao Parque Nacional (Parna) da Serra do Divisor e não possui demarcação integral, o que impõe regras rígidas de preservação e dificulta a gestão autônoma dos recursos naturais.
“A gente vê a floresta sofrendo, os rios e igarapés mudando, a roça diferente e isso dói porque faz parte da nossa vida e da nossa cultura.
Ao mesmo tempo, foi importante poder falar da nossa vivência, mostrar nossa voz e nosso conhecimento. Não é só um estudo, é a nossa vida”, afirma a jovem Niara Nukini, uma das bolsistas responsáveis pelo documentário.
Vizinhos, Nawa e Nukini têm suas terras e aldeias separadas apenas pelo rio Moa, mas compartilham dos mesmos impactos ocasionados pela crise do clima.
À diferença dos Nawa, os Nukini já estão com o território demarcado, enquanto os Nawa estão há quase trinta anos à espera da conclusão do processo de demarcação. Em 2021, cansados de esperar pelo governo, eles fizeram a autodemarcação Nawa.
Até o início dos anos 2000, o povo Nawa era tido como extinto. Acreditava-se que todos eles tinham sido extintos por conta dos impactos ocasionados pela exploração da atividade seringueiras na primeira metade do século passado.
Porém, muitos de seus descendentes ocupavam a margem direita do Moa, além do igarapé Novo Recreio.
Quando da criação do Parna da Serra do Divisor, eles se viram no risco de perder suas terras. A partir de então, passaram a não somente se identificar como os Nawa, mas também a exigir o direito de permanecer no território ocupado pelos antepassados.
No início de seu terceiro mandato, em abril de 2023, o presidente Lula sinalizou para avançar a terra do povo Nawa, com a criação de um Grupo de Trabalho (GT) pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) – o processo ainda se arrasta.
O DIREITO DE CONTINUAR SONHANDO
O impacto não se limita às perdas materiais. Ele atinge a dimensão espiritual e o horizonte das novas gerações. “O desequilíbrio do planeta coloca a gente numa situação em que deixa de sonhar”, diz Tarissom Nawa, uma das vozes do documentário, ao falar da incerteza sobre a garantia de direitos e a continuidade da cultura de seu povo.
Ao citar o líder Yanomami Davi Kopenawa, a obra reafirma o papel central dos povos indígenas na tarefa de “sustentar o céu”, para que a vida siga existindo — para indígenas e não indígenas. Nesse contexto, a comunicação surge como ferramenta essencial para que essas histórias atravessem fronteiras, alcancem o mundo urbano e tensionem o olhar do chamado “mundo ocidental”.
FORTALECIMENTO INSTITUCIONAL E VOZ PRÓPRIA
Executado com recursos do Fundo Casa Socioambiental, a iniciativa utilizou a comunicação comunitária como ferramenta estratégica para denunciar como eventos climáticos extremos e projetos de infraestrutura ameaçam a soberania alimentar e a ancestralidade dos povos originários na Amazônia.
“Participar do projeto foi uma experiência muito importante pra mim e também um grande aprendizado. Poder estar ali ouvindo os parentes falando como a mudança climática afeta nossos territórios é muito triste porque é a nossa realidade que está mudando”, afirma Niara Nukini. “Foi um momento de troca, de resistência e de fortalecer ainda mais o compromisso de cuidar do nosso território e continuar lutando”, completa.
Responsável pela produção final, a jornalista Steffanie Schmidt, do Varadouro, destaca que o projeto representou também uma oportunidade de fortalecer a comunicação nos territórios e aprofundar vínculos com as comunidades: “Entendemos que fortalecer a comunicação nos territórios significa garantir que as próprias comunidades tenham meios para narrar suas histórias, denunciar violações e afirmar seus modos de existir a partir de seus próprios saberes.”
Além da produção da trilogia, o projeto promoveu oficinas de capacitação em redes sociais, fotografia e vídeo, realizadas em Cruzeiro do Sul, preparando jovens comunicadores indígenas para se tornarem porta-vozes de suas próprias lutas e histórias.
Uma das idealizadoras do projeto, Veriana Ribeiro, que integrou a equipe do Varadouro até 2024, lembrou dos desafios para a execução das oficinas, prevendo o transporte e alimentação para os cerca de 20 participantes, vindos de várias comunidades e municípios diferentes. A escolha de Cruzeiro do Sul ocorreu para facilitar a convergência de vários territórios.
“Participar deste projeto, junto com o Coletivo Tetepawa, foi um momento de aprendizado e troca junto aos jovens comunicadores indígenas.
Para nós, o Varadouro não é um espaço que dá voz para os povos da floresta, porque eles já possuem voz e agência própria, o importante sempre foi comunicar junto com os povos da floresta, em parceria, e acredito que conseguimos fazer esse trabalho durante este projeto”, afirma.
Ficha Técnica: Os Nawa e o desequilíbrio da Terra
Filmagem e Direção: Niara Nukini
Filmagem: Kegila Costa Nawa
Produção Executiva: Veriana Ribeiro
Montagem, Trilha, Edição de Vídeo e Finalização: Régis Fonseca
Pós-produção, Checagem e Edição Executiva: Steffanie Schmidt
Editor Executivo (Varadouro): Fábio Pontes
NOTA DA REDAÇÃO XAPURI: O documentário “Os Nawa e o desequilíbrio da Terra” encontra-se disponível em https://ovaradouro.com.br/terra-em-desequilibrio/, como parte do conteúdo original desta matéria.