GALDINO E ORELHA: “NÃO FOI SÓ UMA BRINCADEIRA”
No centro da capital federal, Galdino acordou com o corpo coberto em chamas do fogo atirado pelo “excesso juvenil”, como se tentou caracterizar à época, de quatro “filhos do poder” – dentre eles, um era filho de diplomata, outro, de magistrado
Por Rosilene Corrêa
Socorrido pelo advogado Evandro Castelo Branco Pertence, filho do então presidente do Supremo Federal (STF), Sepúlveda Pertence, que passou pelo local por volta das 5h, cobriu com seu paletó a “bola de fogo” Caramuru Paraguaçu e, ajudado por outro homem, tentou, com um extintor de incêndios, apagar o fogo que transformava em brasas o corpo de Galdino.
Levado ao Hospital da Asa Norte, aos gritos e ainda consciente, com 95% do corpo queimado, Galdino Pataxó, de 44 anos, agricultor indígena da Aldeia Caramuru, no Sul da Bahia, casado e pai de três filhas, não resistiu ao resultado da “aventura de fim de noite” de cinco jovens brancos, ricos e “entediados”, e faleceu horas depois.

ORELHA
Quase três décadas depois do crime bárbaro cometido contra Galdino Pataxó em Brasília, quatro adolescentes brancos, ricos e “entediados” tentaram afogar o cachorro Caramelo e torturaram até a morte “Orelha”, um amado cão comunitário da Praia Brava, em Florianópolis, no litoral do estado de Santa Catarina.
No início do mês de janeiro, entre os dias 2 e 4, Orelha, um cão comunitário, cuidado pela vizinhança em Praia Brava, foi encontrado agonizando, com graves ferimentos, e não resistiu. O gesto de tortura e crueldade contra um ser vivo gerou revolta nas redes sociais, repercutiu na opinião pública, causou comoção nacional.
Segundo a Polícia Civil, o cão, possivelmente agredido no dia 4, foi encontrado por pessoas da comunidade, agonizando, e levado a uma clínica veterinária, mas teve que ser sacrificado por meio de uma eutanásia devido à gravidade dos ferimentos.
Ainda segundo as autoridades locais, exames periciais indicam que Orelha foi atingido na cabeça com um objeto contundente, ou seja, sem ponta ou lâmina. No entanto, não se localizou o objeto usado na agressão.
LENIÊNCIA E IMPUNIDADE
No caso de Galdino, um dos assassinos, Gutemberg Nader de Almeida Júnior, cumpriu medida socioeducativa assistida por ser menor de idade à época do crime, tornou-se servidor público federal concursado e exerceu função de gratificação em 2020.
Os outros assassinos, Max Rogério Alves, Antonio Novely Vilanova, Tomás Oliveira de Almeida e Eron Chaves Oliveira foram condenados no júri popular por homicídio doloso (com intenção de matar) em 2001, receberam pena de 14 anos de prisão, em regime integralmente fechado, mas em 2004 ganharam direito à liberdade condicional.
No caso de Orelha, dos 4 adolescentes envolvidos, dois deles estão em Florianópolis e foram alvos de uma operação policial. Os outros dois foram para os Estados Unidos, em uma viagem pré-programada.
Três adultos (dois pais e um tio dos adolescentes) foram indiciados suspeitos de coagir uma testemunha durante a investigação do caso. Segundo a Polícia Civil, a vítima da coação foi o vigilante de um condomínio, que teria uma foto que poderia ajudar a esclarecer o crime.
Por outro lado, a apuração policial dividiu-se em duas frentes: a) Auto de apuração de ato infracional, conduzido pela Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei da Capital (DEACLE), para investigar a conduta dos adolescentes; e. b) Inquérito policial, conduzido pela Delegacia de Proteção Animal da Capital (DPA), que apurou a coação praticada por familiares.
O crime hediondo contra Galdino Pataxó gerou comoção nacional. Houve protestos em Brasília e por todo o Brasil. Pintados para a guerra, no funeral os Pataxó exigiram justiça das autoridades. Do Canadá, o então presidente Fernando Henrique Cardoso declarou que o “episódio trágico ultrapassou todos os limites” e que “nós queremos ser um país diferente, mas não estamos cumprindo esse objetivo”.
Na prática, houve julgamento, os assassinos condenados, mas as punições foram atenuadas. Hoje, segundo os poucos dados disponíveis, os cinco assassinos são servidores públicos de órgãos como o Senado Federal e o próprio Tribunal de Justiça.
Para nós, simples mortais, o recado é claro: ante pressão popular, a justiça reage, mas há sempre uma porta de escape para não atravancar o futuro de jovens que “nasceram bem”. É o que parece ocorrer em Santa Catarina, onde entram em cena advogados com notas e versões ensaiadas, não para enfrentar o horror do crime, mas para “aliviar” as consequências para os criminosos.
Rosilene Corrêa – Dirigente da CNTE, Conselheira da Revista Xapuri, com informações do Palácio do Planalto, da Revista Focus Brasil e da Central Única dos Trabalhadores.
Capa: Reprodução/Redes sociais.










