ENTRE A TERRA E O COSMOS

ENTRE A TERRA E O COSMOS

ENTRE A TERRA E O COSMOS

Há lugares em que a paisagem urbana deixa de ser apenas cenário e passa a expressar um projeto de humanidade

Por Antenor Pinheiro, em especial de Moscou, Rússia

É o caso do complexo formado pelo Monumento aos Conquistadores do Espaço e o Museu da Cosmonáutica, erguido em Moscou, onde o espaço urbano é transformado em palco simbólico da corrida espacial, na qual ciência, poder e identidade nacional se entrelaçam.

Museu da Cosmonautica Monumento aos Conquistadores do Espaco em Moscou

Ali, revela-se como a exploração espacial é, antes de tudo, uma construção humana cujo gesto técnico de lançar foguetes transforma-se em linguagem urbana. O imponente monumento com sua forma ascendente a evocar o rastro de um foguete materializa a ideia de que o progresso tecnológico é capaz de reconfigurar o destino das sociedades.

Simboliza não apenas a conquista do espaço, mas a projeção de poder, ciência e identidade de uma sociedade. Sob a ótica da geografia humana, trata-se de um marco que inscreve no espaço físico a memória da corrida espacial. O território deixa de ser suporte e passa a comunicar valores.

Já o museu cumpre papel complementar na medida em que democratiza a astronomia ao converter feitos científicos em patrimônio coletivo. A presença da figura de Yuri Gagarin à sua entrada, como que a recepcionar os visitantes, não é apenas referência biográfica, mas um elemento pedagógico, pois representa a possibilidade de que indivíduos, oriundos de contextos específicos, possam transcender os limites planetários.

Essa relação evidencia que a astronomia não está dissociada da vida social. Indica que o avanço espacial resulta de contextos políticos, econômicos e culturais específicos.

O complexo da cosmonáutica mostra que, antes de alcançar as estrelas, a humanidade organiza seu próprio espaço, constrói símbolos e produz sentido.

Assim, o monumento não aponta apenas para o céu, mas para a capacidade humana de transformar o território em expressão de seus projetos coletivos. Por sua vez, o museu lembra que, mesmo diante da imensidão do universo, é na Terra que se constroem as bases do infinito.

antenor pinheiroAntenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Capa: Foto: Antenor Pinheiro (Novembro/2017).

 
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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