CHAPADA DOS VEADEIROS: MINERAÇÃO AMEAÇA TERRITÓRIO KALUNGA NO CORAÇÃO DO CERRADO
A possível abertura da APA do Pouso Alto para atividades de mineração acende alerta sobre o futuro de um dos territórios mais simbólicos do Cerrado brasileiro
Por Maria Letícia
Uma paisagem guardiã de memórias mais antigas que o próprio país. Entre paredões de quartzito, campos rupestres, veredas, cachoeiras e nascentes que alimentam o Cerrado, a Chapada dos Veadeiros, uma das áreas naturais mais relevantes do país, voltou ao centro do debate ambiental diante da pressão por atividades minerárias na região.
Reconhecida internacionalmente e marcada pela riqueza de sua biodiversidade e pela presença de comunidades tradicionais, como o Quilombo Kalunga, a região também abriga nascentes estratégicas, fundamentais para a formação e manutenção de importantes bacias hidrográficas do país.
Mas, nos últimos meses, a possível abertura de caminho para atividades minerárias acendeu o alerta entre ambientalistas, pesquisadores, comunidades tradicionais e moradores da região.
No centro do debate está a revisão do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) do Pouso Alto. O documento define o que pode ou não pode ser feito dentro da unidade de conservação. Por isso, qualquer alteração em suas regras pode transformar profundamente o futuro da Chapada. A preocupação é que a revisão abra caminho para atividades minerárias em áreas até então restritas, sob o argumento da exploração de minerais considerados essenciais para a chamada transição energética.

O BERÇO DAS ÁGUAS NA MIRA DE QUASE 500 PROCESSOS MINERÁRIOS
Levantamentos citados por veículos ambientais e pela imprensa nacional apontam a existência de 496 processos minerários registrados na Agência Nacional de Mineração para pesquisa e exploração dentro da APA do Pouso Alto. Juntos, esses pedidos somariam cerca de 527 mil hectares, uma área superior ao triplo do município de São Paulo e maior que o próprio Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Do total, 131 processos, cerca de 26%, estariam relacionados a minerais considerados críticos.
Entre as substâncias mencionadas estão manganês, níquel, cassiterita e terras “raras”, um grupo de elementos químicos utilizados em tecnologias avançadas e considerados estratégicos para a chamada transição energética. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses minerais, atrás apenas da China. Segundo projeções da Agência Internacional de Energia, a demanda por esses elementos deve crescer entre 50% e 60% até 2040. Esses minerais são cada vez mais disputados por cadeias produtivas ligadas a baterias, equipamentos eletrônicos, tecnologias industriais e sistemas de energia de baixo carbono.
ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL (APA) DO POUSO ALTO: O “ANEL DE SATURNO” QUE PROTEGE A CHAPADA

Como um “anel de Saturno” em torno da Chapada dos Veadeiros, a Área de Proteção Ambiental (APA) do Pouso Alto funciona como uma zona de proteção ambiental no entorno do Parque Nacional, ajudando a preservar paisagens, nascentes, fauna, flora e comunidades tradicionais da região.
A APA do Pouso Alto possui cerca de 872 mil hectares e abrange municípios como Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Colinas do Sul, Nova Roma, São João d’Aliança e Teresina de Goiás. Criada em 7 de maio de 2001, por meio do Decreto Estadual nº 5.419, como unidade de conservação de uso sustentável, tem como objetivo compatibilizar atividades humanas com a preservação da flora, da fauna, dos mananciais, da geologia e das paisagens da região.
Embora permita usos econômicos sustentáveis, sua existência é fundamental para ordenar a ocupação do território e reduzir pressões sobre o Parque Nacional. É justamente por isso que a discussão sobre mineração preocupa ambientalistas: quando o entorno de uma unidade de proteção integral é fragilizado, os impactos não ficam restritos apenas às bordas. As alterações refletem diretamente nas águas, na fauna, nos corredores ecológicos, nas comunidades e no equilíbrio do próprio Parque.
A Chapada dos Veadeiros está inserida em uma das áreas mais sensíveis do Cerrado. Seus campos rupestres, veredas e formações rochosas antigas compõem um mosaico ecológico de grande fragilidade. A região abriga espécies ameaçadas, nascentes estratégicas e áreas úmidas importantes para o abastecimento hídrico do Centro-Oeste. Nesse cenário, qualquer atividade de alto impacto precisa ser analisada com rigor, especialmente quando envolve supressão de vegetação, abertura de estradas, movimentação de solo, uso de água, rejeitos, risco de contaminação e, principalmente, povos e comunidades tradicionais.
O Cerrado, muitas vezes chamado de “berço das águas”, abastece importantes bacias hidrográficas brasileiras e desempenha papel decisivo na regulação climática e hídrica do país. Na Chapada, essa função ganha visibilidade concreta nas cachoeiras, nos rios, nos cânions e nas nascentes que sustentam boa parte da vida local e atraem visitantes de todo o Brasil. Reduzir esse território a um mapa de interesses minerários é ignorar sua importância ecológica, cultural e social.
RISCOS DE FLEXIBILIZAR LEGISLAÇÕES AMBIENTAIS
A existência de quase 500 processos minerários na APA do Pouso Alto não significa, por si só, autorização para exploração imediata. Esse ponto tem sido destacado pelo governo de Goiás, que afirma que requerimentos registrados na Agência Nacional de Mineração não equivalem a licenças ambientais. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás, qualquer atividade dependerá de licenciamento específico, estudos técnicos e cumprimento da legislação.
Ainda assim, o número de processos acendeu o alerta. A escala da pressão minerária revela que a Chapada dos Veadeiros tem se destacado como área de interesse econômico. A mesma região celebrada por sua biodiversidade, paisagens belíssimas e conhecida por suas águas e importância para o Cerrado também é vista como uma mina a céu aberto.
Para ambientalistas, a revisão do plano de manejo não pode ser tratada como mera atualização administrativa. O receio é que a mudança nas regras da APA do Pouso Alto transforme a mineração em atividade juridicamente viável em áreas antes protegidas por restrições severas. Caso a liberação ocorra, o debate deixará de ser preventivo e passará a ser uma disputa concreta sobre licenças, empreendimentos e impactos.
A coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, classificou a possível alteração das regras como um risco grave à finalidade da unidade de conservação. Para ela, uma APA existe para proteger a diversidade biológica, disciplinar a ocupação e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais. Se o plano de manejo for alterado para beneficiar o setor minerário, essa função pode ser diretamente comprometida.
Organizações ambientais também veem na movimentação uma contradição perigosa. O Greenpeace afirmou que esse é “mais um capítulo das manobras” feitas sob o pretexto de apoiar a transição energética, mas que colocam em risco áreas ambientais ainda protegidas. A crítica atinge em cheio o coração do debate contemporâneo: uma transição energética que destrói territórios essenciais à vida pode realmente ser chamada de “limpa”?
MESMO SEM LIBERAÇÃO, POPULAÇÕES QUILOMBOLAS JÁ SENTEM O PESO DA PRESSÃO MINERÁRIA
As associações comunitárias, lideranças e a Comissão Eleitoral do Território Quilombola Kalunga divulgaram nota pública em defesa da autonomia das comunidades e do processo eleitoral da Associação Quilombo Kalunga (AQK). No documento, as organizações denunciam tentativas de interferência externa, judicialização do processo comunitário e a crescente pressão de interesses econômicos ligados à mineração, à exploração dos bens naturais e à mercantilização das terras quilombolas.
Na nota, assinada pelas associações Kalunga do Vão de Almas, Vão do Moleque e Engenho II, junto à Comissão Eleitoral, as lideranças apontam a existência de ações judiciais que tentam fragilizar o processo eleitoral comunitário. O documento também menciona relatos de pessoas quilombolas induzidas a assinar documentos sem pleno entendimento de seu conteúdo.
Afirma um trecho da nota:
O povo Kalunga possui formas próprias de organização, deliberação e governança, construídas a partir de nossas ancestralidades, de nossa territorialidade e de nossos modos coletivos de vida. Essas formas devem ser respeitadas por todos os atores externos, inclusive instituições públicas, agentes econômicos e operadores do sistema de justiça. Não aceitaremos práticas de intervenção que aprofundem conflitos internos, desrespeitem nossos instrumentos comunitários ou comprometam o direito quilombola de decidir sobre nossos próprios destinos. Resistiremos a toda forma de intervenção externa que desconsidere, viole ou tente impor lógicas incompatíveis com nosso modo de ser, estar e viver enquanto povo Kalunga.

O CERRADO E O ECOGENOCÍDIO EM CURSO
A referida nota insere-se em um contexto mais amplo de denúncia de um processo em curso no Cerrado, nomeado por ambientalistas e ativistas como “ecogenocídio”.
O dossiê Terra e Território no Cerrado, produzido em 2025 pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, revela que o bioma já perdeu mais de 100 milhões de hectares e denuncia a combinação entre devastação ambiental, grilagem, avanço do agronegócio, omissão do Estado e ameaça aos modos de vida de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses e demais comunidades tradicionais.
O dossiê reúne 155 páginas de dados e denúncias sobre o avanço da devastação no bioma entre 2000 e 2021. Segundo o levantamento, a área desmatada no Cerrado cresceu 40% em duas décadas, com média de 1,45 milhão de hectares destruídos por ano. Em 2000, o bioma já acumulava 71,8 milhões de hectares desmatados; em 2021, esse total chegou a 100,77 milhões de hectares.
“Sem água, não há vida, e sem Cerrado não há água”
Lucely de Morais Pio

Durante a apresentação do dossiê, realizada em audiência pública na Câmara dos Deputados (2025), Lucely de Morais Pio, quilombola da Comunidade do Cedro e raizeira, destacou os impactos que a exploração tem causado no Cerrado.
MPGO QUESTIONA COMPOSIÇÃO DE CONSELHO
Em maio de 2026, o Ministério Público de Goiás ajuizou ação civil pública questionando a composição do Conselho Consultivo da APA do Pouso Alto. A promotoria sustenta que o colegiado não garantiria representação adequada da sociedade civil local e que interesses econômicos e empresariais teriam peso excessivo nas decisões sobre a unidade de conservação.
O Conselho Consultivo tem papel relevante na discussão do plano de manejo. Embora não substitua os órgãos ambientais, é um espaço institucional de participação social e acompanhamento das decisões que afetam a APA. Por isso, a composição do Conselho é um ponto sensível. Se comunidades locais, organizações socioambientais, pesquisadores e representantes da sociedade civil não estiverem devidamente representados, decisões sobre o futuro da Chapada podem ser tomadas sob forte influência de setores econômicos diretamente interessados na flexibilização das regras.
Na ação, o MPGO pede que sejam anuladas decisões tomadas pelo Conselho Consultivo da APA do Pouso Alto que possam afetar a área protegida. Se a Justiça aceitar o pedido, medidas ligadas à revisão do plano de manejo também poderão perder validade. O caso será analisado pela Vara da Fazenda Pública Estadual de Goiânia.
A disputa jurídica reforça uma questão central: quem decide o futuro da Chapada dos Veadeiros? A resposta não pode vir apenas de gabinetes, conselhos esvaziados ou setores empresariais. Quando estão em jogo águas, comunidades tradicionais, patrimônio natural e biodiversidade, a participação social não é detalhe burocrático. É uma condição constitucional e democrática.
COMUNIDADES, PESQUISADORES E AMBIENTALISTAS COBRAM PROTEÇÃO À CHAPADA

A pressão sobre a Chapada também chegou à Assembleia Legislativa de Goiás. O deputado estadual Antônio Gomide, presidente da Comissão de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Casa e coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Chapada dos Veadeiros, solicitou a realização de audiência pública para debater o tema.
O encontro reuniu representantes de comunidades quilombolas Kalunga, Ministério Público, universidades, organizações ambientais, órgãos públicos e especialistas. A audiência discutiu os possíveis impactos ambientais, sociais, jurídicos e hídricos da proposta de revisão do plano de manejo da APA do Pouso Alto. Entre os pontos mais sensíveis estiveram a proteção de nascentes, as áreas úmidas do Cerrado, os direitos das comunidades tradicionais e o risco de que a flexibilização abra precedentes para outras APAs brasileiras.
O professor Reuber Brandão, especialista em manejo integrado da fauna da Universidade de Brasília e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, destacou a importância da proibição da mineração na APA como uma conquista da conservação. Para ele, “toda vitória em conservação precisa de muito empenho” para continuar funcionando. Uma pequena frase que destaca como se dá a luta pelo meio ambiente no Brasil: áreas protegidas não permanecem protegidas por inércia, elas dependem de vigilância constante, mobilização social, ciência, fiscalização e interesse político.
A reação e repressão social diante desse cenário demonstra que a Chapada dos Veadeiros exerce papel fundamental para o país e não apenas do ponto de vista turístico.
Para muitas pessoas, é também um território afetivo, essencial para a biodiversidade, conservação ambiental e ecológica, possuindo um valioso repertório científico, cultural e espiritual. Sua defesa tem mobilizado moradores/as locais, pesquisadores/as, guias, brigadistas, povos tradicionais, ambientalistas e visitantes que reconhecem ali um patrimônio que não pode ser medido apenas por seu subsolo.
KALUNGA: DECISÃO PODE AMEAÇAR O MAIOR TERRITÓRIO QUILOMBOLA DO BRASIL

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
A discussão sobre mineração na APA do Pouso Alto também envolve o território Kalunga, reconhecido como o maior território quilombola do Brasil, estendendo-se por mais de 260 mil hectares no norte de Goiás, entre os municípios de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás.
A presença Kalunga na região da Chapada dos Veadeiros é parte fundamental da história, da cultura e da resistência do Cerrado. São comunidades que mantêm vínculos profundos com a terra, com os rios, com as roças, com os caminhos e com os modos de vida tradicionais.
Por esse motivo, qualquer decisão que possa afetar seus territórios e suas formas de existência precisa considerar o direito à consulta prévia, livre e informada, previsto pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. Esse princípio estabelece que povos e comunidades tradicionais devem ser ouvidos antes de medidas administrativas ou de empreendimentos capazes de impactar seus territórios, seus direitos e seus modos de vida.
Antes de virar um grande alvo da mineração, especulação ou destino turístico, a Chapada dos Veadeiros já era lugar de vida e resistência, de fuga da escravidão, de agricultura tradicional, de espiritualidade e de pertencimento. Ignorar isso é repetir a lógica colonial que historicamente tratou povos e comunidades como obstáculos ao “progresso”, que na prática é mais um regresso à História do Brasil.
QUEM DECIDIRÁ O FUTURO DA CHAPADA DOS VEADEIROS?

Os resultados do debate e as possíveis decisões acerca da mineração na Chapada dos Veadeiros é maior que a revisão de um plano de manejo. Está em jogo a função das unidades de conservação no Brasil, a força da participação social nas decisões ambientais e o limite entre desenvolvimento econômico e destruição de patrimônios naturais.
Se uma área reconhecida internacionalmente pela sua importância ecológica pode ser pressionada por centenas de processos minerários, que segurança resta para as outras unidades de conservação brasileiras?
A Chapada dos Veadeiros é um território de águas, laboratório vivo do Cerrado, abrigo de espécies ameaçadas, morada de comunidades tradicionais, memória quilombola, é o destino de muita gente e patrimônio de relevância mundial.
O futuro da Chapada dos Veadeiros pertence às comunidades e aos povos que nela habitam há centenas de anos. São eles que merecem respeito, reconhecimento e o direito de viver em segurança, sem que seu território esteja sob ameaça constante.
Não há transição energética verdadeira se ela nasce da destruição de áreas protegidas. Não há desenvolvimento sustentável quando a vida é tratada como um mero custo e a exploração predatória como futuro. A Chapada dos Veadeiros não pode ser reduzida ao que existe sob seu chão. Uma planilha de viabilidade mineral não acomodaria sua grandiosidade. O Cerrado é mais precioso que qualquer minério!
Maria Letícia – Redatora-Chefe da Revista Xapuri. Capa: Weverson Paulino/Divulgação










