A LENDA DO NEGO D’ÁGUA

A LENDA DO NEGO D’ÁGUA

A LENDA DO NEGO D’ÁGUA

O Nego d’Água é uma figura do imaginário popular brasileiro, descrita como um bicho-homem peludo que habita os rios

Por Bahia Terra

Conhecido em algumas regiões como Caboclo d’água, ele costuma assustar pescadores, afundar embarcações e pregar peças em quem se aventura pelas águas. Por suas travessuras e seu vínculo com os rios, é muitas vezes lembrado como uma espécie de Saci-Pererê das águas.

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Feita pelo artista Lêdo Ivo, escultura do Nego d’Água adorna as águas do Rio São Francisco em Juazeiro (BA) | Foto: Reprodução/ Viva o Sertão

A lenda do Nego d’Água é muito poderosa entre os ribeirinhos do rio São Francisco, especialmente na região de Juazeiro. O povo conta que é uma criatura de pele negra, escamosa, de baixa estatura, com mãos e pés de pato com garras, careca e de orelhas pontudas. Vive no fundo do rio e costuma aprontar com os pescadores que não lhe oferecem cachaça e fumo. 

Entre suas maiores travessuras, estão redes de pesca rasgadas, barcos virados e risadas assustadoras durante perseguições a ribeirinhos. 

Outra tradição dá conta que se trata de um menino que, de tanto traquinar, foi jogado por pescadores no rio e nunca mais apareceu. Ele teria sido encantado, passando a viver nas águas como o Nego d’Água.

Para pescar sossegada, a pessoa precisa jogar fumo de rolo ou pinga no rio, assim consegue tranquilizar o Nego d’Água e realizar sua pescaria em paz. Em Juazeiro, há até uma estátua gigante de 12 metros em homenagem a ele.

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Ilustração por: Danielle Pioli ART

Fonte: Bahia Terra

Foto:  Arte de Roger Cruz e Bruna Brito
Fonte: https://piramiderpg.wordpress.com/2018/11/05/caboclo-dagua-salminus-e-o-zaori/ 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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