A CANALHICE BATE À PORTA

A CANALHICE BATE À PORTA

A canalhice bate à porta

De criticada à estratégia política, bolsonaristas tentam usar de políticas sociais para construção de narrativa nova

Por Redação/Xapuri

Há uma encenação política que ecoa pela cena brasileira e merece ser exposta. Durante anos, uma das principais vozes da direita radical ataca severamente os programas de transferência de renda, categorizando-os como compra de consciência e paternalismo estatal. Passado algum tempo, tendo em vista o calendário eleitoral, a manutenção destas políticas pode servir como estratégia para garantir a manutenção do eleitorado. 

“Não dê o peixe, ensine a pescar”

Ainda deputado, Jair Bolsonaro e seus apoiadores sempre ancoraram-se em torno do discurso de que o Bolsa Família representava uma redistribuição coercitiva de recursos, conversão de vulnerabilidade em votos e degradação da dignidade. A retórica era acompanhada de uma moral: quem trabalha financia quem “não faz nada”. 

Em uma postagem publicada no ano de 2013, o senador afirmou que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”… 

Alegações como essas, publicadas principalmente nas redes sociais, por parte da extrema-direita, passam a ideia de que programas sociais criados pela gestão petista não mereciam existir. Por vezes, essa rejeição era acompanhada, ainda, por notícias falsas e discursos simplistas que associavam, por exemplo, a imagem das políticas sociais ao “relaxamento” da população. Outro aspecto muito comum era o alarde quanto à possíveis fraudes e esquemas nas políticas sociais, exigindo a burocratização extrema e a desarticulação destas políticas.

Bolsonaro: da eleição à gestão

Em 2018, quando Bolsonaro decidiu disputar a presidência, houve uma certa reorquestra da aritmética política. Isso ocorreu tendo em vista que as regiões onde o Bolsa Família tinha enraizamento social não respondiam bem ao discurso de eliminação. Como parte da solução para o problema, foi a suavização do discurso, transformando o “vamos acabar” em “vamos melhorar”.

Com a pandemia e o impacto do auxílio emergencial, o bolsonarismo finalmente compreendeu algo que deveria ser óbvio: transferência de renda move vontades políticas. A resposta foi estratégica: em 2021, renomearam o programa para Auxílio Brasil e começaram a se vender como seus defensores inteligentes e eficientes. Cabe ressaltar que o Auxilio Brasil não tinha a dimensão estratégia do Bolsa Família, a estrutura do programa não levava em consideração alguns aspectos estruturantes. 

O cerne da farsa

Flávio Bolsonaro, estandarte da nova geração bolsonarista e pré-candidato presidencial, agora declara firmemente a continuidade do programa. O abandono da posição crítica desvela, nesse sentido, uma contradição nevral na construção da extrema-direita enquanto formação ideológica. 

No entanto, o eleitorado não pode se iludir. Em dezembro de 2022, durante a tramitação da PEC da Transição, articulada pela equipe do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio e Eduardo Bolsonaro votaram contra o texto que abriu espaço no Orçamento de 2023 para manter o benefício mínimo de R$ 600 e financiar outras políticas públicas

Nudez do cinismo

Enquanto isso, soldados da extrema direita continuam exposição de ideias ainda mais perturbadoras. Paulo Bilynskyj (PL-SP), deputado federal da base bolsonarista, propôs publicamente que beneficiários de programas sociais não deveriam ter direito de voto. A justificativa é de que quem depende de recursos públicos não possui “liberdade” para escolher. Posteriormente, o mesmo parlamentar apresentou projeto de lei para restringir gastos com o benefício.

O debate persiste

A trajetória do bolsonarismo entrega um ensinamento importante sobre oportunismo político. Um programa que era demonizado como instrumento de voto agora é defendido quando deixa de ser marca registrada da oposição.

A indagação essencial que persiste é se houve genuína transformação de perspectiva sobre as necessidades reais do país ou se trata apenas de uma adaptação cosmética para fins eleitorais?

A resposta, para quem acompanha a política brasileira sem ingenuidade, já está registrada na própria trajetória da extrema-direita.

Com informações da Rede PT de Comunicação

Capa: Jefferson Rudy/Agência Senado

canalhice canalhice canalhice canalhice canalhice canalhice

GOSTOU DESTA MATÉRIA? ENTÃO, POR FAVOR, PASSA PRA FRENTE. COMPARTILHE EM TODAS AS SUAS REDES. NÃO CUSTA NADA, É SÓ CLICAR!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

© 2025 Revista Xapuri — Jornalismo Independente, Popular e de Resistência.