PL da Misoginia enfrenta resistência na Câmara

PL DA MISOGINIA ENFRENTA RESISTÊNCIA NA CÂMARA

PL da Misoginia enfrenta resistência na Câmara

Proposta aprovada pelo Senado caracteriza a misoginia como crime e é vista por movimentos feministas como termômetro do compromisso do Congresso contra a violência de gênero

Por Arthur Silva

Às vésperas do recesso parlamentar e do início das convenções partidárias, o Projeto de Lei 896/2023, aprovado pelo Senado em março, segue aguardando deliberação na Câmara dos Deputados. O texto altera a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989) para punir, como crimes motivados por misoginia — definida como a exteriorização de ódio ou aversão às mulheres —, condutas de injúria, discriminação, indução ou incitação ao preconceito contra mulheres, que passam a ser tratadas como inafiançáveis e imprescritíveis, nos mesmos moldes já previstos para o racismo.

Em 1º de julho, os deputados aprovaram o regime de urgência para a matéria, por 293 votos a 158, o que permite que o projeto seja votado diretamente em plenário, sem passar pelas comissões permanentes. Mesmo com a tramitação acelerada, o texto ainda não foi pautado para votação e corre o risco de não ser apreciado antes do recesso.

O projeto integra o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, coordenado pelo Ministério das Mulheres, e é apontado por entidades como a Marcha Mundial das Mulheres, o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfêmea) e o Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres (CNDM) como uma das medidas centrais do acordo. Diante do risco da matéria ficar para depois do recesso, e até ser empurrada para depois das eleições, essas organizações intensificaram a pressão sobre parlamentares nas últimas semanas.

Pressão da bancada conservadora

Lideranças feministas atribuem o travamento da pauta à resistência de setores religiosos e da oposição, em especial do PL, partido que, segundo relatos, não teria participado da construção do acordo entre as bancadas para dar celeridade à votação.

Segundo Jolúzia Batista, coordenadora da Articulação de Mulheres Brasileiras, em entrevista ao Brasil de Fato, o adiamento tem caráter estratégico. Ou seja, para parte da direita, manter o impasse com o movimento de mulheres representaria, em si, uma vitória política. Também ao Brasil de Fato, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) defensora do projeto, rebateu a tese de que a criminalização da misoginia ameaçaria a liberdade religiosa, argumentando que a proposta não interfere em costumes, apenas estabelece limites ao tratamento discriminatório contra mulheres.

Próximos passos

Parlamentares favoráveis à proposta apostam que o tema volte à mesa na reunião de líderes desta semana. A deputada Maria Arraes (PSB-PE), na matéria já citada, pondera que a votação antes do recesso é cada vez mais improvável, mas defende que o projeto avance ao menos na primeira semana de agosto, antes do início efetivo das campanhas.

Para os movimentos de mulheres, o desfecho da tramitação vai sinalizar o real peso que a Câmara dá aos compromissos assumidos no combate ao feminicídio, num momento em que outras pautas tramitam em ritmo mais acelerado no Congresso.

Com informações do Brasil de Fato

Capa: Câmara dos Deputados

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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