O CORPO FEMININO E A POTÊNCIA NEGADA
Durante séculos, o corpo das mulheres foi disciplinado, silenciado e explorado. Karl Marx já denunciava como o capitalismo industrial utilizava a mão de obra feminina e infantil como força barata, submetendo-as a condições brutais. Silvia Federici, em Calibã e a Bruxa, mostrou que esse processo foi ainda mais profundo: a caça às bruxas não foram apenas perseguições religiosas, mas um mecanismo político para controlar a sexualidade e a reprodução das mulheres, transformando seus corpos em máquinas de acumulação capitalista.
Por Yvone Duarte
Byung-Chul Han, em Topologia da Violência, descreve como a violência contemporânea deixou de ser apenas física e passou a ser invisível, psíquica, internalizada. Hoje, as mulheres não enfrentam apenas a exploração material, mas também a autoexploração: a cobrança incessante de produtividade, estética e comportamento. É uma violência sem um inimigo aparente, mas que nos corrói e nos adoece silenciosamente.
Essas análises revelam que a violência contra as mulheres é multidimensional: econômica, histórica, psíquica e cultural. Mas há uma dimensão que precisa ser lembrada: a corporal. O corpo feminino tem potência para a autodefesa, potência que foi negada culturalmente. Durante muito tempo, o acesso das mulheres às artes de luta foi restringido, reforçando a ideia de fragilidade.
O jiu-jitsu, que pratiquei e ajudei a abrir às mulheres, mostra que essa narrativa merece ser questionada e modificada. O corpo feminino é capaz de resistir, de reagir, de transformar o medo em ação. Cada técnica aprendida é também um ato político: um gesto que rompe com séculos de disciplinamento e afirma que não somos frágeis, somos potentes.
A prática das artes de luta nos conduz a um caminho de emancipação. Ao dominar técnicas de defesa, percebemos que não somos objetos passivos da violência, mas sujeitos ativos capazes de responder e se proteger. Essa emancipação não é apenas física, mas também simbólica: ela rompe com o paradigma cultural que insiste em nos definir pela fragilidade.
Além disso, o treino constante fortalece nossa autonomia. No tatame, aprendemos a confiar em nossas próprias capacidades, a reconhecer nossos limites e a expandi-los. Essa autonomia se reflete fora do espaço esportivo: mulheres que treinam artes de luta caminham com mais segurança, falam com mais firmeza e se posicionam com mais clareza diante das adversidades.
Outro aspecto essencial é o autocontrole e o controle emocional. Em situações de violência, o maior inimigo é o pânico. O jiu-jitsu ensina a respirar, a manter a calma e a agir com estratégia. Essa disciplina emocional é uma forma de resistência, pois nos permite transformar o medo em ação consciente. Assim, o esporte não apenas fortalece o corpo, mas também a mente, criando mulheres capazes de responder tanto no campo físico quanto no emocional.
A segurança é dever do Estado, mas quando há uma quebra na cadeia das políticas públicas – como falta de iluminação, baixo nível educacional, déficit de policiamento, ausência de rede de proteção – a mulher fica desprotegida. Os dados do Mapa do Feminicídio mostram que Goiás registrou 60 casos em 2024 e novamente 60 em 2025, sendo que Formosa contabilizou 3 feminicídios em 2025. Em 2026, o Brasil registrou mais de 1.500 vítimas de feminicídio, evidenciando a persistência da violência.
Diante desse cenário, quando o Estado falha, a autodefesa passa a ser o último recurso para salvaguardar a vida da mulher, tanto no espaço público quanto frente à violência doméstica.
Ao se falar de autodefesa, não se trata apenas do aspecto físico ou corporal. É também a capacidade de fortalecer vínculos sociais e redes de proteção comunitária e territorial.
Vizinhos atentos, agentes comunitárias, promotoras legais populares, conselheiros tutelares e lideranças políticas locais formam uma rede que amplia a segurança e a resistência das mulheres. A autodefesa, portanto, é coletiva: nasce no corpo, mas se expande para o território e para a comunidade, criando laços que dificultam a perpetuação da violência.
O tatame é lugar de resistência, onde mulheres descobrem que podem não apenas sobreviver, mas lutar. Como afirma Rita Segato, a violência contra as mulheres é sustentada por um sistema patriarcal de dominação, que transforma nossos corpos em territórios de poder. Ao ocuparmos o espaço das artes de luta, buscamos romper com esse sistema e mostramos que nossos corpos não são territórios de submissão, mas de liberdade e potência.

.Foto: Igor Matheus/ Portal Infonet/ Reprodução
Yvone Duarte – Assistente social, psicóloga e mestra de jiu-jitsu 7º grau.








