Infância perdida nas ruínas do colapso ambiental

INFÂNCIA PERDIDA NAS RUÍNAS DO COLAPSO AMBIENTAL

Infância perdida nas ruínas do colapso ambiental

Relatório da UNICEF e da Vital Strategies revela o cenário de crianças diante dos novos eventos extremos 

Por Arthur Silva/Revista Xapuri

A infância é um dos momentos mais importantes na construção da própria essência humana. É nesse momento da vida que os seres humanos descobrem o mundo, a linguagem, o outro e desenvolvem as primeiras relações de toda uma vida. Entretanto, observados os novos movimentos da vida moderna, os eventos climáticos e o grande investimento na destruição do planeta podem evocar um risco severo às crianças brasileiras.

É exatamente este lastro que trata a Nota Técnica do Painel Crianças e Meio Ambiente, publicado em julho de 2026, pela UNICEF. O documento trata diretamente sobre a exposição de crianças e adolescentes a 14 riscos ambientais e climáticos nos 5.571 municípios brasileiros, com exceção de Boa Esperança do Norte (MT), que foi excluído da análise por falta de dados. 

Os números revelam um cenário trágico na intersecção entre infância e meio ambiente. Segundo o diagnóstico, 333 municípios (6,0%) vivem em situação de vulnerabilidade severa, com alta prioridade em 10 ou mais dos 14 indicadores analisados. 

Crianças na Amazônia

O epicentro da crise é a região Norte, onde 42,4% dos municípios enfrentam 10 ou mais indicadores de alta prioridade. A degradação ambiental na área é amplificada pelas queimadas, que colocam 94% das cidades em alerta máximo para poluição do ar, somando-se à pressão de eventos extremos como chuvas intensas (91%) e ondas de calor (60%).

No que tange à infraestrutura, a negligência é histórica: 87% das cidades nortistas têm crianças vivendo com esgoto inadequado e 71% das escolas não possuem o tripé básico de água, esgoto e coleta de lixo, comprometendo a saúde e o aprendizado.

A degradação ambiental é amplificada pela poluição do ar decorrente de queimadas, que coloca 94% dos municípios da região em alerta máximo, somando-se à pressão de eventos climáticos extremos como chuvas intensas (91%) e ondas de calor (60%). Por fim, a falta de proteção estende-se ao ambiente escolar, onde 71% das escolas do Norte operam sem o tripé básico de saneamento (água, esgoto e lixo) e 23% dos municípios enfrentam a escassez de áreas verdes nas unidades de ensino, comprometendo o desenvolvimento e a saúde dessa população.

Sul e Sudeste

Embora cerca de 72% da população infantil do Sudeste viva em municípios com ar poluído acima dos limites da OMS, evidenciando o impacto das regiões metropolitanas, as regiões Sul e Sudeste apresentaram números mais consideráveis no que tange à qualidade de vida das crianças com relação à poluição.

Esses números, entretanto, não significam senão que as assimetrias regionais discutidas ainda no início dos anos 2000 precisam revisitar o planejamento institucional e caracterizar um aspecto importante para a garantia de novas infraestruturas de vida. 

É preciso, entretanto, ressaltar que o Sudeste enfrenta, ainda, uma vulnerabilidade climática contraintuitiva, ou seja, a região concentra a maior proporção de municípios em alta prioridade para secas em anos recentes (38%), superando inclusive o Nordeste. 

De acordo com a Nota Técnica, esse fenômeno reflete uma deterioração hídrica abrupta em cidades que, ao contrário do semiárido, não possuem histórico de políticas públicas ou instituições preparadas para lidar com a escassez severa. Essa mudança repentina no regime de chuvas ameaça diretamente o abastecimento hídrico e a segurança alimentar, expondo crianças e adolescentes a riscos para os quais a infraestrutura local ainda não está adaptada.

Infância e Meio Ambiente

As conclusões do Painel Crianças e Meio Ambiente reforçam que a proteção da infância exige uma visão sistêmica, pois os déficits de saneamento, a precariedade das moradias e a insegurança hídrica formam um conjunto de vulnerabilidades interligadas. O documento destaca que o impacto desses riscos é cumulativo, prejudicando não apenas a saúde física, mas também o desenvolvimento cognitivo e o aprendizado escolar.

Diante dessa heterogeneidade, os especialistas defendem a adoção de políticas públicas territorializadas. Isso significa que as soluções devem ser específicas para cada contexto: no Norte, a prioridade deve ser o controle de queimadas e a expansão do saneamento rural e escolar; já no Sul e Sudeste, o foco recai sobre a gestão de resíduos e a mitigação da poluição veicular e das ilhas de calor nas grandes metrópoles

Apesar do diagnóstico severo, o relatório encerra com uma perspectiva propositiva: os avanços em infraestrutura observados em partes do país provam que a proteção ambiental da infância é tecnicamente replicável. O sucesso de certas regiões não se deve a vantagens naturais, mas a décadas de investimento público consistente, indicando que a reversão desse cenário de crise nas áreas mais vulneráveis é possível por meio de financiamento adequado e fortalecimento da gestão municipal.

Com informações de Amazônia Real e Agência Brasil

Capa: Fernando Frazão/Agência Brasil

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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